Segurança é ‘urgência’, mas candidatos devem fugir de ‘políticas fracassadas', diz Bruno Paes Manso
O PontoPoder entrevista o pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV/USP) e vencedor do Prêmio Jabuti de 2021.
O limiar entre a urgência de uma discussão ampla sobre o combate ao crime e à violência no Brasil — que passa pelo investimento em inteligência, necessidade de compartilhamento de informação entre os entes federados e a garantia da segurança na rotina dos brasileiros — e a necessidade de não cair em "discursos populistas" focados em políticas públicas comprovadamente "fracassadas".
Esse equilíbrio complexo é importante para o real avanço nas políticas públicas na área da segurança pública, defende Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP) e professor de Jornalismo da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).
Jornalista e cientista político, ele é autor de obras como "A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil" e "A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro", que venceu o Prêmio Jabuti em 2021.
O tema da segurança pública deve ser central para as eleições de 2026. Primeiro, porque a violência é a maior preocupação dos brasileiros, sendo citada por 31% dos entrevistados da pesquisa Genial/Quaest divulgada em maio. A atenção aos problemas na segurança pública supera áreas como Saúde (12%), Economia (12%) e Educação (6%).
"O problema, e isso é muito comum na segurança, é quando tem um aproveitamento desse medo que as pessoas têm, dessa sensação de urgência e de vulnerabilidade presente, para replicar certas políticas fracassadas", defende Bruno Paes Manso.
Como exemplo, ele cita medidas como a ostensividade policial — que resulta, muitas vezes, no aumento do uso da violência policial — e o "aprisionamento em massa", com a superlotação de prisões. Ele pontua que o caminho deve ser justamente "descontruir o senso comum de que a violência resolve as coisas e de que essa guerra ao crime produz resultado".
"O que talvez seja mais irônico e, ao mesmo tempo, triste é porque essas pessoas que usam o discurso da guerra, elas se fortalecem com o caos e com o medo. Quanto mais medo as pessoas têm, quanto mais desordem, mais elas têm legitimidade para promover a guerra".
E se, por um lado, há uma preocupação com os índices de criminalidade em todo o País, por outro há um receio quanto ao nível de interferência que as facções criminosas podem ter no processo eleitoral de 2026, seja por meio do financiamento de candidaturas ou pelo controle dos territórios. "Isso acaba desvirtuando o próprio papel do Estado", pontua.
O PontoPoder conversou com Bruno Paes Manso sobre o porquê de tantos brasileiros terem como maior preocupação os problemas na segurança pública. Ele também avalia propostas que vêm sendo apresentadas por pré-candidatos nessa área e chama a atenção do eleitor para o que é preciso estar atento nas propostas sobre esse tema.
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Confira a entrevista completa:
Segundo dados da pesquisa Quaest, 31% dos brasileiros apontam a segurança pública como tema que mais preocupa e indicam que é um tema que devem priorizar nas eleições. Na sua avaliação, por que esse tema tem essa relevância para tantos brasileiros, inclusive superando temas como saúde e educação?
Afeta no cotidiano de todo mundo, principalmente esses roubos mais próximos do dia a dia e, hoje em dia, envolve o celular que carrega uma imensa quantidade de funções, desde banco até comunicação, sem falar no valor financeiro do celular. Então, muitas vezes as pessoas estão pagando prestação quando são assaltadas, investiram dinheiro.
O celular funciona também como um equipamento de negócios para pessoa jurídica e de utilidades para pessoa física. Então, ele tem um valor agregado elevado e uma importância vital hoje. E, ao mesmo tempo, e até por todos esses motivos, é o objeto mais visado pelos ladrões.
E isso torna a vida difícil. Imaginar que pode sair na rua e sofrer esse tipo de violência, causa uma revolta muito grande. As pessoas ficam com uma raiva muito grande de viver num lugar onde realmente fica vulnerável diante da covardia de assaltantes e tudo mais. Então, naturalmente, quando realmente tem um tipo de crime que afeta tanto o dia a dia e a sensação de vulnerabilidade das pessoas, é natural que elas optem (na eleição) de acordo com isso. (...)
Hoje em dia, (também) teve uma mudança na dinâmica do crime e do tráfico de drogas no Nordeste, no Ceará, na Bahia, no Rio Grande do Norte. Em algumas capitais, isso é ainda mais evidente, mais forte, essa expansão do Comando Vermelho do Rio de Janeiro para outros estados.
E essa ideia de que o controle territorial armado pode permitir que eles ganhem a partir da extorsão da população desses territórios onde eles moram, com taxas diversas, vendas de produtos, de internet, armas para defesa de território e ao mesmo tempo disputas de território nesses lugares, o que torna a situação muito difícil.
Isso por um lado. E por outro lado, os próprios golpes financeiros também viraram um tipo de crime muito presente no dia-a-dia das cidades na contemporaneidade. Apesar de não ter a mesma violência física de um roubo de rua, isso gera uma insegurança e uma fragilização dos laços sociais, da sensação de confiança e vai afetando emocionalmente as pessoas.
Com essa importância para os brasileiros da segurança, muitos discursos políticos têm sido centrados nesse tema. Qual é o impacto na sua avaliação com o discurso político centrado apenas na segurança, pode trazer para um debate eleitoral como o de 2026?
É necessário discutir segurança. É preciso pensar sobre o tema de uma maneira ampla, de forma nacional. Como hoje, de alguma maneira, vem sendo feito o debate sobre a nacionalização das facções, a necessidade de compartilhar informação entre os estados... Os estados ficavam muito isolados nesse trabalho, então, finalmente, depois de anos, a União passou a assumir uma participação.
As facções já se nacionalizaram e o Estado ainda não tinha conseguido, e não conseguiu ainda gerir a gestão da segurança de uma forma nacional. Existe resistência dos Estados, mas, ao mesmo tempo, tem o debate sobre a importância de compartilhar informações, de trocar experiências e dados — para saber como se lava dinheiro, onde estão comprando determinados produtos para que a indústria do crime cresça. Tudo isso é importante. Discutir formas de financiamento desses modelos de segurança e tal.
O problema, e isso é muito comum na segurança, é quando tem um aproveitamento desse medo que as pessoas têm, dessa sensação de urgência, dessa sensação de vulnerabilidade presente, como afeta muito dia a dia, para replicar certas políticas fracassadas, que há 40 anos têm se revelado fracassadas e que têm sido uma das causas inclusive do problema, que é o uso da violência policial, o aprisionamento em massa desmedido, que fortaleceu chefes das facções em presídios super lotados e promoveu o ódio de uma geração que acabou ficando vulnerável ao discurso antissistema do crime, de 'já que a polícia quer nos matar, vamos bater de frente com a polícia, vamos bater de frente com o sistema'.
Tudo isso acabou sendo também um efeito colateral dos erros de políticas públicas que ficaram muito baseadas no patrulhamento territorial ostensivo dos bairros considerados violentos na cidade e no aprisionamento em massa em flagrante. Isso superlotou as prisões. As prisões passaram de 90 mil nos anos 1990 para 900 mil presos nos dias de hoje e isso acabou sendo o escritório onde as facções passaram a comandar o crime, se fortalecer e gerir e manipular sua massa de manobra. Então, quanto mais se prendia, mais se fortalecia esses grupos. O que pareceu remédio se revelou ser veneno.
Essas pessoas usam esse velho discurso da violência policial, de trancar as pessoas (em prisões) como se isso funcionasse e isso tem produzido efeitos colaterais que tem fortalecido o crime. Mas, ao mesmo tempo, ele aplaca a sensação de urgência, ele parece dar respostas a essa demanda de urgência sem que as pessoas observem, de forma crítica, os efeitos colaterais que isso tem causado.
Por isso que o desafio é como consegue desconstruir esse senso comum, de que violência resolve as coisas e de que essa guerra ao crime produz resultado, para pensar em formas alternativas, que estão mais ligadas à investigação, ao compartilhamento de informação.... Está mais ligado, claro, a agir de forma a usar a força do Estado para libertar certos bairros de tirania armadas, sem dúvida, isso é importante. Mas isso não é a engrenagem da coisa. Tem que ser mais racional e olhar a indústria (do crime), o funcionamento da indústria para agir de forma mais estratégica, não tão emocional. (...)
O que talvez seja mais irônico e, ao mesmo tempo, triste é porque essas pessoas que usam o discurso da guerra, elas se fortalecem com o caos e com o medo. Quanto mais medo as pessoas têm, quanto mais desordem, mas elas têm legitimidade para promover a guerra. E, deu errado (as políticas de segurança pública), em vez de pensar em medidas alternativas, elas vão prometer duplicar o remédio, triplicar o remédio, quadruplicar o remédio. A coisa vai continuar dando errado e eles vão continuar se apresentando como a solução para o problema.
Os senhores da guerra se apresentam como solução. Então, o caos para eles funciona porque eles ganham capital político e econômico – muita gente ganha dinheiro vendendo segurança para essa guerra. Desconstruir esse senso comum, que dialoga muito com as pessoas, e trazer a racionalidade para um tema que envolve tanto medo, tanto desespero, tanta urgência, questão de vida e morte, é sempre muito difícil.
Os entes têm responsabilidades diferentes. As gestões estaduais são mais responsáveis pelas ações da segurança pública e há uma cobrança cada vez maior para que o governo federal faça também a sua parte. Como diferenciar o que é a responsabilidade de cada um e o que deveria passar a ser mais responsabilidade de um ou de outro ente?
O governo estadual deve estar de fato preocupado com esse roubo e esse crime territorial, vinculado ao dia a dia dos bairros. Para garantir o direito das pessoas de terem seus direitos individuais respeitados no bairro onde mora, de não ser assaltado na rua da cidade... Essa estratégia, essa inteligência local deve ser feita pelos governos estaduais e pelas polícias estaduais.
Esse mapeamento de hotspot de crime, esse planejamento de onde colocar mais polícia, onde colocar menos polícia, de patrulhamento. Ao mesmo tempo, a própria discussão com a Justiça de crimes a serem priorizados como privativos de liberdade. Vai prender um monte de gente e superlotação de prisões ou vai focar a política nos crimes realmente violentos que aterrorizam a população? Então, esse tipo de discussão e esse planejamento de patrulhamento e de estratégia policial faz parte (da tarefa) dos Estados.
Dos mapas de crime, dos mapas de hotspots... Tudo isso deve ser pensado a partir das polícias estaduais junto com o governador e tudo mais.
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Mas ao mesmo tempo, sem perder de vista o todo, sem perder de vista que isso faz parte do todo. Então, por exemplo, roubos de celulares também podem fazer parte de uma cena nacional e internacional. E dialoga com a Polícia Civil e com a Polícia Militar, não só para tentar prender o garoto na rua na hora que ele está roubando, mas para identificar quem são receptadores, quais são as rotas de venda dos celulares, se vai para fora ou se não vai... Vai mapeando junto e compartilhando informação para que aquele crime local seja compreendido dentro de uma engrenagem industrial nacional, que, de fato, muitas vezes é nacional.
Tem também, por exemplo, a venda de cigarro pirata, da mesma forma: tem a ilegalidade, a informalidade das vendas nos bairros e nos territórios, mas junto com isso tem um novelo a ser desenrolado que diz respeito à rota nacional e internacional deste produto. Então, de um lado tem o desafio de gerir o território, isso tudo tem que ser feito com conversas nas próprias polícias locais, mas esses crimes muitas vezes estão ligados a cenas nacionais e a cenas internacionais.
Isso tem que ser compartilhado e discutido com outras instituições para que tenha esse olhar mais nacional e que permita também ver um pouco o funcionamento da indústria como um todo, não apenas com o foco fechado no território.
Temos também o outro lado da moeda: as facções criminosas com cada vez mais interferência nas eleições, seja como financiadores de campanha, com envolvimento com os pré-candidatos e até com eleitos, seja por proibição, por exemplo, de que eleitores votem em determinado território. Quais as consequências que esse avanço das facções tem para o processo eleitoral, para o processo político e democrático do país?
Isso é gravíssimo. É gravíssimo e está cada vez mais presente na política brasileira. Isso acaba desvirtuando o próprio papel do Estado, porque durante muito tempo, na Nova República, o debate sempre foi em torno de partidos, em torno de nomes ou em torno de políticas públicas ou de projetos e produzissem um país ou um estado ou um município menos desigual, mais justo, com liberdades e direitos garantidos. Esse era o projeto de um governador, de um prefeito, de um presidente que levava esse projeto para produzir um ganho e um contrato coletivo que favorecesse (a população).
Tinham partidos mais liberais, partidos menos liberais, que defendia o Banco Central Independente, que defendia a redução de gastos... Tinha uma série de debates de políticas públicas e você votava sempre pensando em qual o projeto coletivo para produzir um país mais justo e menos desigual.
Hoje, tem um grupo que passou a ver o Estado como empecilho, como um obstáculo para se ganhar dinheiro e tem muita gente que enxerga o Estado como um meio de favorecer os negócios do seu grupo, dos seus aliados. Pode ser boi e grilagem, pode ser uma agricultura extrativista e danosa para o meio ambiente, pode ser crime ambiental, pode ser bet, pode ser um mercado financeiro especulativo e desregulamentado... E as pessoas querem assumir o Estado para ganhar dinheiro e para se perpetuar no poder e perpetuar os negócios do seu grupo no poder.
Isso já é uma mentalidade e acaba favorecendo o crime e trocando figurinhas e experiências com criminosos. Então, pode ser criminoso de crime ambiental, de grilagem... Vê o projeto que foi debatido agora no Congresso para desregulamentar a fiscalização da grilagem de terra e usar fotos de satélite para identificar desmatamentos e multar pessoas que estavam desmatando a floresta. Isso, na verdade, é uma medida que facilita quem ganha dinheiro com o crime ambiental.
Isso começou a degringolar e piorar de vez quando, ironicamente, depois da crise da Lava Jato, se proibiu o financiamento privado de campanha e passou-se a tentar pensar em formas de financiar as eleições — caríssimas, sempre muito caras no Brasil, por causa do arranjo político, que exige votos e muitos votos, as eleições são muito caras.
Então, as emendas parlamentares viraram uma forma de favorecer os candidatos que estão já no Congresso e nos parlamentos. Lavagens de dinheiro sofisticadas passaram a ser feitas a partir dessas emendas. Um dos exemplos mais escancarados são shows milionários de músicos nas diversas prefeituras, como forma de financiamento de campanha e também o dinheiro do o próprio crime para partidos.
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O caso da Carbono Oculto (Operação da Polícia Federal que investiga esquema de lavagem de dinheiro que movimentou R$ 26 bilhões em São Paulo, tendo o PCC como principal beneficiário) e o caso que envolveu as investigações da Refit, do Ricardo Magro, do Garotinho, que estão aparecendo agora, mostram como um empresário que era considerado devedor contumaz e, por causa disso, tinha benefícios na concorrência do setor de combustível, tinha muito mais peso político do que os empresários formais, que não podiam mais financiar campanha, porque agora era proibido e o devedor contumaz, que usava diversos subterfúgios para ter vantagens, é que tinha mais ascendência sobre partidos e políticos, até o governador do estado (do Rio de Janeiro).
Então, vai desvirtuando a coisa. Desrespeitar as regras e financiar com esse dinheiro o Caixa 2, acaba colocando, no Estado, os interesses desses empresários que atuam de forma ilegal ou informal.
Essa entrada das facções criminosas na política, com influência nos mandatos, também pode prejudicar as políticas públicas que já não tem sido tão efetivas, como você falou? Como você enxerga também essa relação de candidatos financiados por facções criminosas que entram na política e que vão ser os responsáveis por fazer a legislação e as políticas públicas para combater a violência?
Prejudica de duas formas. Primeiro, prejudica porque eles estão em territórios das cidades e, nesses territórios, eles querem manter o Estado afastado. Por causa disso, as políticas públicas não chegam da forma como digam. Então, às vezes, até hospitais e escolas têm dificuldade de trabalhar por causa da presença (das facções). Sem falar de caminhão de lixo, asfalto e luz, internet... Tudo isso acaba tendo dificuldade por causa dessas tiranias armadas que exercem controle sobre territórios.
Então, de um lado, é a presença física mesmo nos territórios e, de outro lado, no lobby que eles fazem para favorecer os interesses deles. O lobby deles é para favorecer, para que sejam feitas políticas públicas para aumentar o lucro deles. Sendo que o Estado tem o papel de produzir políticas públicas, como a gente estava conversando, para reduzir desigualdades, para garantir direitos, para reduzir injustiças, para criar uma sociedade mais justa e não uma sociedade que favoreça lucros de quem tem armas.
No fundo, um Estado em que o crime está inserido, é um Estado que acaba favorecendo aqueles que têm dinheiro e que tem armas, e o lucro daqueles que têm dinheiro e que tem armas. É o pior dos mundos.
Voltando para a questão eleitoral, estamos vendo uma discussão dos pré-candidatos à presidência e, aqueles que estão na oposição, têm feito propostas como classificar facções criminosas como organizações terroristas e redução da maioridade penal, por exemplo. Esses são os caminhos mais apropriados para o tema? Como você avalia essas propostas para a área de segurança?
Ficou evidente o despropósito desse tipo de medida por dois motivos. Primeiro, a gente viu no caso dos Estados Unidos, da presidência norte-americana, um país que, nos dias de hoje, tenta exercer uma certa da ascendência política sobre a América Latina e o que aconteceu na Venezuela, com a prisão do (Nicolás) Maduro a partir de um discurso de tráfico de drogas e de grupos terroristas venezuelanos, caso isso seja replicado em outros países, você ameaça a soberania desses países.
O Brasil aceitar esse tipo de classificação, a pedido dos próprio Estados Unidos, com medidas que já foram tomadas no nosso continente, medidas brutais de interesse apenas dos americanos, a gente abre um flanco de vulnerabilidade que não faz o menor sentido.
O problema é grave, o tráfico de drogas é grave e precisa ser discutido inclusive com os Estados Unidos, mas passa pelo debate sobre o papel da União, sobre o compartilhamento das informações por parte do Estado, até formas de conseguir fazer acordos financeiros que permitam acessar contas de pessoas que estão condenadas ou que estão sendo processadas aqui no Brasil, como o caso do Ricardo Magro, que mora nos Estados Unidos e tem contas e investimentos lá nos Estados Unidos, como fazer e como cooperar para, de repente, conseguir identificar e bloquear recursos. Tudo isso faz parte do acordo.
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Mas classificar como terrorista é uma medida extrema que pode abrir esse flanco de fragilização da nossa soberania, inclusive fragilizar economicamente alguns empresários, que, a partir do momento que o país passa a ser classificado como terrorista, dificulta a vida dos exportadores, dos empresários de uma forma geral.
Então, não faz o menor sentido, mas é uma um discurso populista que pode fazer sucesso nas redes sociais, mas que, na verdade, é um desserviço para os interesses nacionais.
O Governo Lula também tem atuado nessa seara. Anunciou um programa de combate ao crime organizado com R$ 11 bilhões de investimento e também enviou a PEC da Segurança, que está paralisada na tramitação do Senado. Essa resposta segue uma linha do que a área precisa? Como é que o senhor avalia esse tipo de política, inclusive os efeitos eleitorais dela?
A discussão foi colocada na mesa, mas se avançou pouco. Inclusive, o próprio pacote (de investimentos), em ano eleitoral, perde a força, porque parece um pacote eleitoreiro. Então, é algo que já devia ter avançado de alguma forma e acabou não avançando como deveria. A própria PEC da Segurança demorou para tramitar, (porque) tinha uma série de resistências. Mas de fato não foi das áreas que mais avançaram.
Esse pacote atual, de R$ 11 bilhões, em ano eleitoral, acaba dando uma orientação do debate, pelo menos posicionando o governo para eleição para o próximo mandato, mas é uma medida eleitoral. Então, a gente, de alguma forma, tem que olhar com uma certa reserva, porque demorou um pouco para tirar as coisas do papel.
Mas o caminho da discussão é esse. O caminho da discussão em torno do da participação da União, do compartilhamento de informações que já vem sendo feito também... Independente de ter uma PEC ou de ter um novo projeto de lei, já tem um maior compartilhamento de informações e de cooperações entre as instituições, o próprio COAF e a Receita Federal estão mais presentes e atuando mais nessa inteligência financeira.
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A gente tem visto uma série de operações voltadas a esse tipo de investigação, porque as instituições estão aprendendo a investigar nesse mundo virtual também, tem mais instrumentos de investigação, que antes às vezes eram mais difíceis e hoje já se está aprendendo também como trafegar nesse universo e alguns resultados já estão aparecendo.
Mas precisa de medidas mais concretas. Um financiamento eh nacional para políticas de segurança pública, a discussão do Ministério de Segurança Pública, pensar em políticas públicas que direcionam um novo tipo de modelo alternativo para os estados terem mais força para livrar os bairros controlados por essas tiranias armadas, deixar de lado o espetáculo da violência da violência policial, porque a violência policial hoje é uma forma de empurrar a polícia para o crime, é um descontrole da polícia que acaba empurrando muitas vezes a polícia para o crime.
São mais de 6 mil homicídios praticados pela polícia e, muitas vezes, essa carta branca para matar acaba sendo negociada no mundo do crime cada vez com mais capacidade de corromper policiais. Essa retomada do controle das polícias é importante. Tudo isso ainda precisa avançar muito.
Você falou sobre essa urgência que as pessoas têm quando se trata de segurança, pelo próprio medo e pela vulnerabilidade. Então, eu queria te perguntar, quais discursos e propostas os eleitores têm que estar atentos nessas eleições quando se trata de segurança pública?
Depois de tantos anos de debate de segurança pública, algumas coisas são importantes para ele parar para pensar. Por exemplo, durante muito tempo se fortaleceu o estigma de que quem defende os direitos humanos está defendendo o bandido. Esse estigma sempre pesou muito e, ao mesmo tempo, pessoas que defendiam a violência policial e a guerra contra o crime, eram vistas como pessoas interessadas em resolver o problema de segurança.
Eu queria que o eleitor olhasse para o caso do Rio de Janeiro para pensar sobre isso. O governador do Rio de Janeiro (Cláudio Castro) fez a Operação Contenção, com 122 mortes, sendo cinco policiais. E, a partir da Operação Contenção, ele recebeu o aplauso da população no ano passado e chegou a se fortalecer como candidato ao Senado. Matando 120 pessoas, ele tentava sinalizar de que a polícia dele estava trabalhando contra o crime.
Mas, na verdade, o que ele estava fazendo? Ele estava fazendo, como a gente tem visto nas investigações, uma série de acordos com criminosos bem importantes, desviava muito dinheiro da população, e (fazia acordos) também com facções — pessoas aliados dele eram ligados a facções. Enquanto, por um lado, ele desviava a atenção do público matando o pobre para parecer que a polícia dele trabalhava, ele fazia uma série de acordos com criminosos engenheiros e muito poderosos para se perpetuar no poder e para perpetuar o crime no poder.
Então, o uso da violência é uma forma de manter o caos e manter a população dependente, achando que a guerra (contra o crime) é uma solução e dependente dos senhores da guerra. E o caos, para esses caras, gera poder e dinheiro.
Essas pessoas que têm discurso de guerra, muitas vezes são os principais aliados do crime, são eles que são os parceiros de bandidos, muitas vezes. Desconstruir esse estereótipo, prestar atenção nesse equívoco, que há tantos anos existe, é importante na hora de votar.