Mas minha parentalidade não seguiu um caminho tradicional. Sou um homem gay, pai de duas crianças por adoção que chegaram em momentos e contextos diferentes. Formamos um núcleo familiar que raramente aparece em campanhas de dia dos pais ou em reportagens sobre criação de filhos. Esta realidade traz consigo um desafio: o da ausência de referências. A experiência homoafetiva na educação de filhos ainda é, muitas vezes, um território sem roteiros. Estamos abrindo caminhos com empatia, coragem e uma dose diária de resistência.
Muitas vezes, a estranheza vem de que em nossa sociedade, ainda se espera que o cuidado venha das mães. Quando se é pai, e ainda mais em uma família com dois homens como casal, nossa presença é vista como exceção, como ajuda, como bônus. Mas aqui, nossa paternidade é ativa, diária, coletiva. Não é sobre nós. É sobre cuidar de nossos filhos, formá-los para o mundo.
Ser uma família construída pela adoção me fez sentir, na pele, as camadas de exclusão que insistem em perpetuar no nosso país. Também me fez ter certeza de que diversidade não pode ser apenas um slide bonito sobre racismo, equidade de gênero, LGBTfobia, capacitismo ou etarismo. Ela precisa estar presente nas conversas, nas reuniões, nas decisões sobre quem fala e quem é escutado. Entender isso me fez um líder mais atento e, acima de tudo, mais disposto a ceder espaço.
Ainda são tímidos os avanços no reconhecimento de diferentes formatos familiares no ambiente profissional. Mas acredito que estamos escrevendo uma nova história, que coloca o profissionalismo acima dos modelos tradicionais. Uma história que entende que famílias diversas não são exceção, são parte da sociedade.