Uso da bicicleta é recomendado para deslocamento na quarentena

A prática ajuda a manter rotina saudável durante isolamento. Contudo, algumas medidas devem ser tomadas para evitar a infecção por Covid-19, mesmo em ambientes abertos como as vias da cidade

Legenda: Emanuel Lucas, 25, concilia o ciclismo com a caminhada para se manter ativo durante isolamento social
Foto: Thiago Gadelha

Durante o isolamento social motivado pela pandemia da Covid-19, a bicicleta aparece entre as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) como melhor forma de se deslocar entre os espaços. Seguindo a tendência, a administração pública de Fortaleza já vinha investindo no uso do transporte cicloviário. Se por um lado a bicicleta evita aglomerações em espaços públicos, por outro permite vivenciar a cidade de uma maneira mais próxima.

Pelo menos, é o que sente o assessor jurídico Emanuel Lucas Medeiros, 25. Acostumado a praticar exercícios com frequência, ele viu no ciclismo uma oportunidade para se manter em forma durante o isolamento. "Eu tenho uma rotina de exercícios bem corrida. Tendo em vista que as academias estão fechadas, foquei em pedalar para sair do sedentarismo", conta. O assessor concilia à prática com a caminhada para aliviar o estresse da quarentena.

"Diferente das outras pessoas com quem eu converso, meu isolamento foi até mais estressante do que minha vida normal. Eu estudo muito, trabalho muito. A bicicleta virou minha maneira de desopilar. Saio e às vezes até me estendo um pouco mais", admite Emanuel Lucas.

Os benefícios, de acordo com Mário Azevedo, professor do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), podem ser explicados pela relação da bicicleta com o meio urbano. "É um modo ativo em que você é o motor. Ela traz vantagens pro ambiente como um todo. Você faz o seu exercício para se manter saudável, ocupa menos espaço no trânsito. A bicicleta também é mais portátil, ela cabe em espaços bem pequenos", explica Mário.

Ele coloca ainda que aderir à bicicleta na quarentena rompeu com o que se espera do trânsito na Capital. "A gente pensa nossa cidade muito dependente desse transporte motorizado. Essas situações jogaram na nossa cara: o que a gente criou não funciona. Agora temos noção, se surgir outro momento semelhante, da importância que esses veículos ativos terão", pondera.

A socióloga Tereza Maciel encara o ciclismo de maneira semelhante. Integrante do coletivo Ciclanas, grupo de cicloativistas da Capital, ela encontrou na bicicleta uma fonte de bem-estar. "Não é a mesma coisa que andar de carro, por exemplo. A bicicleta entra como locomoção. Você cumpre o distanciamento físico e dá o bem-estar ao seu corpo", conta.

Com a bike cada vez mais vista como opção de transporte, Tereza projeta o impacto dessa adesão em uma Fortaleza pós-pandemia. "A bicicleta pode trazer avanços na mobilidade. Inclusive, na questão climática. Nós estamos passando por uma crise ambiental, uma crise econômica. Claro, a bicicleta não vai ser a solução de tudo, mas pode auxiliar", avalia a cicloativista.

Expansão

Em Fortaleza, a administração pública reforçou a malha cicloviária durante a quarentena. Desde maio, a Prefeitura de Fortaleza trabalha no Plano de Mobilidade em Resposta à Pandemia, programa voltado para promover transporte seguro no período de isolamento. Entre as medidas do programa, está a adequação de vias para ciclismo, de acordo com o secretário-executivo de Conservação e Serviços Públicos, Luiz Alberto Sabóia.

"Queremos colocar o uso de bicicleta por ser considerado o veículo mais seguro, do ponto de vista sanitário, mas também como resposta econômica. A bicicleta já é parte da mobilidade urbana de Fortaleza. É uma alternativa de baixo custo e que deve ser decisiva em um momento de crise financeira", avalia Sabóia.

No último dia 17, a Capital atingiu o marco de 300 Km de vias próprias para ciclistas. Desse total, 180 Km são ciclofaixas e 111 Km são de ciclovias, de acordo com o secretário-executivo.

"Estamos priorizando a ciclofaixa para aumentar o nosso aporte durante a pandemia", aponta. Diferentes das ciclofaixas, que consistem em sinalizar no asfalto o espaço destinado ao ciclista, as ciclovias são estruturas à parte, que separam fisicamente o usuário do trânsito.

Ainda de acordo com Sabóia, a Capital está cada vez mais disposta a usar a bike como meio de locomoção. "Aqui em Fortaleza, 5% da população usa a bicicleta como meio de transporte. Parece pouco, mas é equivalente a 250 mil pessoas em bikes por dia. Estamos traçando estratégias para comportar esse fluxo de pessoas. Nós pretendemos fechar o ano de 2030 com o total de 524 quilômetros de vias próprias para bicicleta", prevê.

Cuidados

Algumas medidas devem ser tomadas para evitar a infecção por Covid-19, mesmo nestes ambientes abertos. "É complicado falar em risco zero", ressalta o infectologista Roberto da Justa, membro do Coletivo Rebento - Médicos e Médicas em Defesa da Ética, da Ciência e do SUS. Ele faz o alerta sobre as chamadas 'nuvens de partículas' durante o exercício físico. "É preciso manter o distanciamento seguro, principalmente se o exercício acontecer em praias ou espaços com grande aglomeração. Nós transpiramos e as nossas secreções podem ficar suspensas e serem transmitidas entre pessoas que estão próximas", indica.

Ele ressalta que, ao contrário do que se acredita, a proteção facial não prejudica a respiração durante exercícios leves e moderados, que é o caso da maior parte dos usuários do modal. "A atividade física leve ou moderada é tolerada com máscara. Agora, a intensa, realizada por atletas, traz um desconforto e limita a capacidade", explica.

A troca da proteção também é recomendada à medida que a transpiração fica mais intensa. "Naturalmente, se a máscara ficar muito úmida pelo suor, ela acaba perdendo um pouco a capacidade de reter partícula", explica Roberto da Justa

Redução no Bicicletar

Na Capital, o uso do sistema de compartilhamento Bicicletar reduziu 61%durante o isolamento social. O fluxo atual de passageiros corresponde a 39% da demanda anterior à quarentena, de acordo com a Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos, responsável por administrar o serviço. As informações levam em consideração as retiradas de bicicleta entre os dias 20 de março e 13 de julho.

Mesmo com a disposição de 52 novas estações para retirada de bicicletas - agora, são 132 pontos, contra 80 em 2019 - o Bicicletar foi utilizado com menos frequência durante a pandemia. O secretário de conservação de Fortaleza Luiz Alberto Sabóia atribui a redução às campanhas de isolamento. "Nós pedimos para a população ficar em casa, evitar sair mesmo que de bicicleta. A demanda do transporte público caiu. O movimentos nos carros e motos particulares também caiu", reforça.

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