Reitor acolhe ‘Future-se’, programa rejeitado por representantes da UFC

Empossado há oito dias, o novo reitor fala sobre o início da gestão, os protestos, o não comparecimento à reitoria e os planos para a UFC

Legenda: O Reitor da UFC Cândido Albuquerque defende que a Universidade não pode ter medo de bater todas as ideias
Foto: FOTO: Camila Lima

Oficialmente empossado reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC), há 8 dias, o advogado Cândido Albuquerque, até ontem ainda não havia conseguindo despachar do prédio da reitoria da instituição, no Benfica, em Fortaleza. O reitor segue trabalhando em diversas unidades da UFC e prefere não revelar por quais departamento passou nesses dias de itinerância. A posse de Cândido segue sendo alvo de protestos de grupos de estudantes e professores, que manifestam-se contra a escolha, pois o presidente Jair Bolsonaro quebrou a tradição de nomear o candidato de preferência da comunidade acadêmica. A posse de Cândido foi a segunda da história da UFC a contrariar a consulta pública feita a estudantes, professores e servidores. 

Em uma entrevista realizada na quarta-feira (28), em um dos departamentos da UFC, Cândido, embora questionado, não detalhou programas e projetos a serem desenvolvidos na instituição nos próximos anos. Bem como não aprofundou os dilemas da falta de verba para financiamento. Apesar disso, ressaltou que o rumo é a inovação e tecnologia e reiterou sua aposta firme em pesquisa para elevar a UFC à lista das 200 melhores universidades do mundo. A entrevista durou apenas 16 minutos, devido à alegativa de agenda lotada do reitor. Além disso, embora a UFC, por meio do Conselho Universitário (Consuni) já tenha rejeitado o Future-se – programa do Governo Federal que, dentre outros pontos, cria um fundo de recursos privados para o financiamento das universidades do País –, Cândido ressaltou que o programa está “em concepção e não é possível alguém ser contra ou a favor”. 

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Cândido, o senhor está despachando de outras unidades e ainda não foi na reitoria? 
Fui, mas não vou ficar indo lá. Estou indo e saindo... é até uma maneira de interagir com as unidades. 

Pode dizer em quais unidades já passou?
Não. Tem várias unidades, já tive passando em algumas. Eu estou abrindo o diálogo. Por conta de uma animosidade. No momento oportuno, a gente vai lá. (Conforme apurado, o reitor já esteve na Faculdade de Direito e na Casa José de Alencar). 

O senhor já esperava a indicação do presidente?
Não. Ninguém esperava. Estávamos todos concorrendo. 

Mas o senhor já tinha tido interlocução com o MEC antes?
Todos tiveram. Todos os candidatos. 

Mas havia indicativo?
Eu soube por terceiros. Foi um amigo que me ligou dizendo que tinha visto meu nome no Diário Oficial.

Sobre o fato de o senhor ter sido escolhido mesmo tendo tido a menor quantidade de votos, qual o seu entendimento?
Nenhuma universidade no mundo faz eleição direta. É um equívoco você imaginar que o reitor de uma universidade pode ser eleito em uma eleição direta. Isso divide a universidade. Nenhuma das 200 melhores universidades do mundo faz escolha direta, exatamente porque essa divisão, essa disputa ideológica ela atrapalha. Ela é prejudicial para a ciência. Qual é a universidade fora do Brasil que tem eleição direta? Em toda universidade tem um comitê que escolhe o melhor gestor. Esse nosso processo precisa ser discutido e eu discuto isso desde que eu era candidato. Eu participei do processo porque é o que está posto. E se o pessoal da esquerda que está agora reclamando da minha indicação teve no poder tanto tempo, por que não mudou o processo? Exatamente porque não é bom para a universidade. A universidade tem peculiaridades que reclamam que a escolha dos seus governantes, dos seus gestores, seja feita de maneira muito específica. A universidade precisa estar unida para produzir ciência. Hoje, o que se vê é uma disputa ideológica e isso é ruim. A universidade tem que ser plural. Nós temos que conviver com as ideias de esquerda, de centro e de direita. É um absurdo que, por exemplo, agora, por razões ideológicas, as pessoas não queiram aceitar. Isso não existe. Nós precisamos é repensar o processo. 

Como o senhor tem lidado com os protestos?
Os protestos representam uma parte muito pequena da universidade, menos de 1%. Então eu estou abrindo o diálogo. Eu quero dialogar com a universidade. Eu tenho projeto de transformar a universidade na principal referência de produção de tecnologia e conhecimento no Brasil e para isso nós precisamos de união. A universidade está funcionando normalmente e um pequeno grupo está se opondo.
 
A que o senhor atribui a escolha do seu nome?
A um projeto que eu tenho para a Universidade. Tenho um projeto absolutamente moderno para a universidade. No mundo inteiro as universidades estão focadas em inovação e empreendedorismo. Você precisa dar a seus alunos habilidades para que eles possam se situar bem no mercado de trabalho 10 anos depois. Hoje, estudos mostram que 60% das profissões que existirão daqui a 10 anos, elas não existem hoje. Então, a universidade precisa está focada nessa inovação. E se faz isso através de pesquisa e é preciso dar ao nosso aluno conhecimento de empreendedorismo para que ele possa se sentir habilitado para o mercado de trabalho. Nós temos um problema de evasão estudantil muito grande. Isso é grave. Nós precisamos saber porquê isso está acontecendo. Em alguns cursos a evasão é muito alta. Precisamos saber discutir. Qual é a explicação para o Brasil não ter nenhuma universidade entre as 200 melhores do mundo? Conheço a comunidade acadêmica brasileira, nós temos pesquisadores de alta qualidade. Nós temos que estabelecer uma política institucional que estimule a inovação, a pesquisa e o empreendedorismo. 

O senhor tem um mandato de 4 anos, tem a meta de alcançar determinada marca até 2022?
Sim. Nós temos a meta de colocar a UFC como a principal referência no Brasil na produção de novas tecnologias que tenham impacto social, tecnologias que melhorem a condição da população. No Brasil temos ainda muitas pesquisas que não têm impacto social e é preciso que a pesquisa tenha impacto social. Então nós vamos buscar isso.

Isso está longe?
Nós temos todos os elementos necessário para chegarmos lá. Temos bons pesquisadores, bons laboratórios. Nós precisamos, portanto, ter política institucional dirigida para esse fim. Nós precisamos investir em tecnologia e inovação. A universidade brasileira ainda está muito presa ao ensino e esquece um pouco a pesquisa e a extensão. Então precisamos focar na pesquisa e quando você faz pesquisa você faz inovação. 

Em relação ao diagnóstico, o que o senhor já sabe sobre a UFC? O que se sabe que a UFC tem de mais problemático? A UFRJ não tem dinheiro para custear a energia. Como está a UFC?
Essas questões na UFC estão administradas. Temos uma boa estrutura administrativa, a nossa pró-reitoria de planejamento e administração funciona muito bem. Nosso problema hoje é focar em pesquisa, inovação, empreendedorismo. 

E o que temos de orçamento para bolsas, por exemplo?
Nós vamos buscar mais. Ontem mesmo discutimos esse assunto aqui. Fazendo convênios. É preciso nos reinventar. A situação é penosa com todas as universidades brasileiras, mas nada que a gente não possa superar. 

Cândido, nas coisas que o senhor escreve, tem batido muito em uma suposta ideologia política que se assentou em uma parte da universidade, isso poderia afetar a sua gestão?
Não. O que tenho batido é que a universidade precisa ser plural. Ela precisa conviver com todas as ideias. A universidade não pode ter medo de debater todas as ideias. Por exemplo, nós temos aí o Programa Future-se que está em concepção, como alguém pode ser contra ou a favor? Você tem que fazer o programa. Construir o programa tendo alguns princípios. Não podemos abrir mão da autonomia universitária, da liberdade de cátedra. Mas o programa está em construção. Está inclusive em consulta pública. Você agora ser contra ou a favor é preconceito. Tem que estudar. Melhorar. Nós temos que inovar as nossas universidades. 

Em relação ao Future-se o que se sabe de concreto e qual o diálogo com o MEC? A UFC pediu para esclarecer algum ponto?
A sua pergunta pode ser respondida daqui a seis meses. Agora, há uma ideia em discussão. As pessoas agora precisam apresentar suas ideias. Não tem como se contra ou a favor. Vamos construir o projeto. A universidade brasileira precisa ser repaginada.

Hoje mesmo o ministro Marcos Pontes praticamente pediu a ministro Paulo Guedes que não corte mais verbas. No começo desse ano verbas foram contingenciadas das universidades federais, qual a sua ideia sobre essa política de contingenciamento que afetou as universidades públicas?
Eu acho que a sociedade brasileira precisa ter a compreensão que precisamos produzir ciência. Produzir tecnologia. E todos os esforços devem ser feitas no sentido que a universidade devem estar capacitada para produzir inovação. Não adianta discutirmos pontos específicos. Todos devem se esforçar para dar a universidade as condições para que ela possa pesquisar. 

Mas o contingenciamento não afeta esse objetivo?
Qualquer tipo de contingenciamento precisa ser discutido e superado. Nós estamos no país que está em crise e nós precisamos ter iniciativas para superar essa situação. Não adianta ficar chorando em cima do que aconteceu. A universidade precisa ficar unida.

O senhor tem temor que esse contingenciamento possa se repetir e possa afetar seus planos para a UFC?
Eu não vou ficar fazendo exercício de futurologia. Eu tenho uma realidade e preciso trabalhar em cima dela e estamos buscando projetos que possam nos dar condições de mantermos a nossa pesquisa e melhorar a qualidade da nossas pesquisas. Temos que pensar a universidade de maneira positiva. 

Nos primeiros dias de gestão já tiveram decisões estruturais ou o que foi resolvido até agora foram questões burocráticas-administrativas?
Estrutural sim. O que estamos pensando é essa nova universidade. Nós vamos ter uma nova estrutura focada. Nossa grande missão é colocar a universidade como referência na área de produção de conhecimento. Hoje passamos o dia pensando isso. Discutindo isso. 

O senhor falou várias vezes em diálogo, mas como o senhor pensa em abrir esse diálogo com a comunidade acadêmica?
Em primeiro lugar o grupo que está insatisfeito é muito pequeno. Estou disposto ao diálogo, estou procurando todos eles para o diálogo.

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