Projeto do Instituto Myra Eliane visa cuidar da saúde emocional de professores durante a pandemia

Por meio de reuniões online, iniciativa desenvolvida no ano passado tem o intuito de contribuir para o bem-estar dos docentes

Suporte emocional para docentes lidarem com dificuldades do ensino remoto é uma das premissas do projeto.
Legenda: Suporte emocional para docentes lidarem com dificuldades do ensino remoto é uma das premissas do projeto.
Foto: José Leomar

Uma das classes profissionais mais importantes desde que a pandemia desembarcou no Ceará, os professores são, muitas vezes, uma linha de frente esquecida. Sob a premissa de que é preciso “cuidar de quem cuida”, porém, uma iniciativa do Instituto Myra Eliane desenvolvida durante a crise sanitária tem um objetivo principal: ouvir, acolher e contribuir para o bem-estar social e emocional dos docentes.

“Todos os profissionais de educação estão também na linha de frente da pandemia, e percebemos que eles não tiveram essa visibilidade. Porque as escolas pararam fisicamente, infelizmente, mas no campo virtual, os professores se desdobraram para encontrar meios de acolhimento e assistência aos alunos e às famílias em muitas dimensões”, pontua Vinícios Rocha, diretor pedagógico do Instituto.

Por meio de reuniões online nas chamadas “web salas”, o Myra Eliane passou a acolher os profissionais de municípios parceiros em atividades de incentivo ao autocuidado, num momento que tem exigido de todos a reinvenção da docência. “Temos uma base de trabalho a partir da educação em valores humanos, e mesmo diante das dificuldades a energia positiva do amor, da paz, da verdade, da retidão e da não-violência podia continuar fluindo por outros canais. Então, nas web salas, foram realizadosa escuta ativa e o acolhimento, construindo espaços de escuta sensível e empatia”, explica o diretor.

Além disso, as reuniões estimulam momentos de meditação, trabalho de respiração e até canto, a fim de que os participantes entrem em sintonia.

“Os professores também estão passando por processos de adoecimento, ansiedade, tristeza e luto, assim como todos nós. Eles são seres epistêmicos, trabalham com o saber, mas também com sentimentos. Precisam ser cuidados, receber amor, ter essa escuta ativa. É preciso que os sistemas e gestores se mobilizem para isso”, alerta Vinícios.

Cuidados

Laurione Costa, professora há 18 anos, é uma das profissionais beneficiadas pelo projeto, e o avalia como “fundamental” diante desse momento “bem delicado e atípico” para os profissionais da educação. “Trabalho com o público infantil, e o contato é primordial, sentimos essa necessidade de socializar os conhecimentos e sentimentos. Não é a mesma coisa sendo virtual, isso nos deixa inseguros e descontentes”, reconhece.

Além da insegurança, “os medos e incertezas” também são compartilhados durante as reuniões, que funcionam, segundo Laurione, como “acalantos” no cenário atual. “Sem o projeto, estaria sendo bem mais difícil. Nossa profissão já exige muito da nossa saúde mental, e conheço colegas que estão em situação mais complicada do que nós, que podemos fazer parte desse projeto. É importante que a gente se sinta bem. Foi um acalanto pra alma, um afeto sentido, não só falado. Quando a gente se sente importante, dá mais importância ainda ao nosso trabalho, às crianças e às famílias”, analisa.

Para ela, se sentir apoiada é imprescindível para a execução correta e bem sucedida do dever profissional.

“Porque quando a gente se sente apoiada, a gente sente mais facilidade de apoiar o outro. É um trabalho de grupo: comunidade escolar, professores, famílias, todos unidos no objetivo que é o bem-estar das nossas crianças. A gente se reinventa pensando nelas”, emociona-se Laurione Costa.

Suporte

A psicopedagoga Ticiana Santiago observa que as dificuldades técnicas, por falta de equipamentos e formação para o ensino remoto; e a responsabilidade de manter e fortalecer o vínculo escola-aluno-família pesaram sobre os ombros dos profissionais da educação, evidenciando a necessidade de oferecer suporte.

“Esse momento é prejudicial se o professor não encontrar uma rede de apoio para lidar com o período. É preciso que se garanta um suporte, uma escuta e uma orientação. Cuidar deles é ter suporte estratégico pro desenvolvimento de saúde mental das famílias, dos alunos e deles mesmos”, finaliza.

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