Mesmo com o dobro de leitos, ocupação de UTIs Covid no Ceará segue acima de 90% há dois meses

Especialistas atribuem manutenção da taxa alta à circulação de novas variantes e ao relaxamento de medidas de controle da doença.

Legenda: Maior permanência de pacientes internados também colabora para o não decréscimo da taxa.
Foto: José Leomar

A taxa de ocupação nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) para tratamento da Covid-19 no Ceará segue acima de 90% há dois meses. Nesta terça-feira (20), ela está em 96,95%, mesmo com praticamente o dobro de leitos do tipo em relação a fevereiro.

O dia 20 daquele mês foi a primeira vez, em 2021, que a ocupação geral de UTIs passou de 90%. De lá pra cá, a média subiu e oscila em torno de 95%, somando as redes pública e privada. Ambas estão próximas do limite.

Os dados foram coletados da plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), na tarde desta terça. Segundo o sistema, em 20 de fevereiro, havia 761 leitos Covid ativos no Ceará. Hoje, já são 1.444, um valor 89% maior.

A quantidade de leitos ativos varia diariamente, pois a atualização do sistema ocorre “mediante informações das próprias unidades hospitalares”. Neste mês, ela oscila entre 1.300 e 1.700, dependendo da ocasião. Em fevereiro, variou de 500 a 900.

Para o infectologista Ivo Castelo Branco, coordenador do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade Federal do Ceará (NMT-UFC), o relaxamento das medidas de controle da doença e o aparecimento de novas variantes do coronavírus justificam a manutenção do alto índice de ocupação.

Estamos começando a fazer uma diminuição devido ao lockdown, atualmente, mas ainda continua muito alto. O número de pessoas infectadas ainda é muito grande. E Covid é uma proporção: quanto mais gente infectada, mais gente vai ter forma grave”
Ivo Castelo Branco
Médico infectologista

O especialista também crê que a capacidade das UTIs já chegou ao limite porque também é preciso desinfectar os equipamentos antes da rotatividade.

“Quando você tem um índice de ocupação acima dos 90%, significa que está tudo ocupado, porque um leito desse precisa ser limpo primeiro, não é só tirar um paciente e colocar outro”, explica.

Mesmo com a tendência de redução de diagnósticos de novos casos no Estado, a resposta na ocupação de leitos UTI será mais lenta, de acordo com o epidemiologista e também professor da UFC, Luciano Pamplona.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, ele pontuou que outra explicação para a alta ocupação é o maior tempo de permanência da população mais jovem nos leitos hospitalares. Logo, a rotatividade no ambiente hospitalar se torna mais demorada.

“Uma vitória a cada dia”

Um dos que luta contra a doença em UTI, em Fortaleza, é o motorista Marcelo Staut, de 46 anos. Diagnosticado com Covid em 29 de março, ele precisou ser internado no dia 3 de abril. No hospital, descobriu que já tinha comprometimento de 50% dos pulmões.

Três dias depois, foi intubado numa UTI. Nos 17 dias de internação, até agora, a esposa dele, Eliane Staut, considera que há “uma vitória por dia” - alguns deles assustam, outros trazem alívio. No geral, o quadro tem sido estável.

Vamos nos manter confiantes para que os pulmões comecem a responder melhor, e que comece a diminuir a quantidade de oxigênio que ele está utilizando. Eu creio muito no poder do Deus do impossível”
Eliane Staut
Autônoma

Ela, que conversa com Marcelo mesmo sem ele estar acordado, renova as próprias esperanças a cada boletim médico relatando a cessação de febre e a regressão nos índices da infecção.

Expansão da rede

Apenas na rede pública estadual, foram abertas 1.295 UTIs Covid, de acordo com o governador Camilo Santana. Os equipamentos seguem em ampliação desde fevereiro. No dia 1º de março, por exemplo, 824 unidades já haviam sido abertas.

“O Governo do Estado segue ampliando o número de leitos de Covid para atender da melhor forma possível os nossos irmãos e irmãs cearenses”, escreveu Camilo nas redes sociais.

A gestão também tem investido em leitos de enfermaria em anexos de campanha, possibilitando a ampliação de leitos de UTIs nos hospitais, com foco em pacientes mais graves. Em 1º de março, eram 2.287 enfermarias Covid no Ceará. Hoje, são 3.746.

O chefe do executivo estadual garantiu ainda que, “nos próximos dias”, também serão entregues mais 50 leitos de enfermaria na unidade de campanha anexa ao Hospital Regional do Cariri (HRN), em Juazeiro do Norte

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