Liberação de atividades e eventos não significa relaxar cuidados contra a Covid, dizem especialistas

Psicólogo e epidemiologista explicam comportamentos de risco relacionados ao atual cenário epidemiológico no Estado.

Com os indicadores da pandemia em baixa, o Governo do Ceará segue ampliando o horário de atividades comerciais e a capacidade de público em instituições e eventos. Porém, especialistas indicam que essa transição após meses de isolamento mais rígido exige atenção a comportamentos de risco.

A plataforma IntegraSUS revela que os últimos três meses foram os menos severos na ação da Covid-19 no Estado, segundo dados colhidos até a atualização das 9h de 1º de outubro.

Setembro encerrou com 70 óbitos, praticamente metade dos 139 registrados em agosto - que já foi 70% menor que julho. Os três períodos também apresentaram queda expressiva de casos confirmados: somados, eles ainda são menores que os de janeiro.

Os números de casos e óbitos seguem em queda em todo o estado, e o processo de vacinação [está] avançando no Ceará. Reforço a importância de todos os cearenses acima de 12 anos se vacinarem. Só com a vacinação em massa conseguiremos superar de vez essa pandemia.
Camilo Santana
Governador do Ceará, ao anunciar novo decreto na última sexta (1º)

Comportamentos reforçados

O psicólogo comportamental Ramonn Mariano pondera que o histórico comportamental de cada pessoa é influenciado pela cultura, que atua de forma constante nos hábitos e costumes. No caso brasileiro, ela carrega forte tradição de festas e confraternizações.

Essa facilidade de aceitação de uma ‘falsa normalidade’ é o resultado da forte influência de um conjunto de fatores: os comportamentos preestabelecidos (sair, confraternizar, participar de festas, etc), cultura (burlar regras, jeitinho brasileiro) e privação social (longos períodos com socialização limitada ou até mesmo sem socialização).

Além da maior liberação, o psicólogo também analisa a relutância de alguns indivíduos em continuar seguindo os protocolos básicos, como uso de máscaras e álcool em gel. Segundo ele, como a pandemia é um evento histórico inédito, as pessoas estabelecem comportamentos que servem como “tentativa e erro”.

Por exemplo: 

  • Um determinado indivíduo vai até a padaria sem máscara (por esquecimento), compra o pão e volta para casa. Chegando em casa, percebe que estava sem máscara, mas que não contraiu nenhuma doença. Aqui, ocorre um reforço para o comportamento de não usar máscara.
  • Em outra situação, a mesma pessoa precisou sair com pressa e não tinha máscara à disposição, mas novamente percebeu que não contraiu doença alguma. Mais uma vez, seu comportamento de não usar máscara foi reforçado, criando um histórico comportamental.

“Esse tipo de comportamento pode ser reforçado também por pessoas que, por não terem contraído nem conhecerem ninguém que contraiu a Covid-19, não acreditam que exista uma doença real, logo essa cascata de comportamentos pode ganhar força e proporções enormes, como pode ser constatado no início da pandemia e nos picos de internações e mortes”, observa Mariano.

Risco de infecção continua

A epidemiologista e professora universitária Daniele Queiroz, reforça que o Ceará atravessa um momento de “lua de mel”, um intervalo entre ondas quando há cenário de queda nos indicadores. 

Porém, alerta que, a nível mundial, a velocidade de transmissão da doença está aumentando e, ao que tudo indica, conduzindo para uma terceira onda.

Há necessidade de manter os cuidados porque, embora tenhamos avançado na vacinação e ainda termos proteção da última onda, já temos identificadas as variantes Delta e Mu. Há dados na literatura científica mostrando que elas causam perda de eficácia das vacinas, então as pessoas podem voltar a adoecer.

Eventos monitorados

A Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) tem feito o acompanhamento de eventos de maior porte, analisando as propostas sanitárias dos organizadores.

Para a volta das torcidas aos estádios de futebol, por exemplo, a Pasta tem recomendado a obrigação de comprovar o esquema vacinal completo (duas doses ou dose única), o uso de máscaras e o respeito ao distanciamento social.

Realizado em setembro, o primeiro evento-teste durante a pandemia de Covid-19 no Ceará, o Festival Jazz & Blues, em Guaramiranga, recebeu as mesmas orientações. O público presente, as equipes de trabalho e os artistas também foram monitorados pela Secretaria.

Dificuldade em sair do isolamento

A pandemia é vivenciada de formas particulares. Há pessoas que aguardam ansiosamente o retorno presencial a atividades comuns, como trabalho, escolas e lazer, mas também há quem tenha se acostumado a ficar em casa e, agora, hesite em sair e se contaminar.

O psicólogo Ramonn Mariano considera esse receio “totalmente natural e aceitável”, devido à grande quantidade de mortes noticiadas no período de isolamento social e à divulgação de como vírus e bactérias nos contaminam. Nesse processo, porém, pessoas que já tinham tendências ao exagero com limpeza podem ter sentido mais os efeitos da pandemia. 

O especialista recomenda atenção clínica quando algum comportamento passa a prejudicar o indivíduo, seja física ou psicologicamente, ou seja, “quando a pessoa passa a ser prejudicada por algum comportamento que ela está mantendo por medo ou receio”. 

“Quando há um sofrimento psicológico, é indicado que se procure a clínica psicológica, não só relacionado à limpeza, mas ao bem-estar geral do indivíduo”, orienta.

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