Liberação de atividades e eventos não significa relaxar cuidados contra a Covid, dizem especialistas

Psicólogo e epidemiologista explicam comportamentos de risco relacionados ao atual cenário epidemiológico no Estado.

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Metro
Legenda: Mesmo as pessoas vacinadas devem continuar os protocolos sanitários, orienta epidemiologista.
Foto: Fabiane de Paula

Com os indicadores da pandemia em baixa, o Governo do Ceará segue ampliando o horário de atividades comerciais e a capacidade de público em instituições e eventos. Porém, especialistas indicam que essa transição após meses de isolamento mais rígido exige atenção a comportamentos de risco.

A plataforma IntegraSUS revela que os últimos três meses foram os menos severos na ação da Covid-19 no Estado, segundo dados colhidos até a atualização das 9h de 1º de outubro.

Setembro encerrou com 70 óbitos, praticamente metade dos 139 registrados em agosto - que já foi 70% menor que julho. Os três períodos também apresentaram queda expressiva de casos confirmados: somados, eles ainda são menores que os de janeiro.

Os números de casos e óbitos seguem em queda em todo o estado, e o processo de vacinação [está] avançando no Ceará. Reforço a importância de todos os cearenses acima de 12 anos se vacinarem. Só com a vacinação em massa conseguiremos superar de vez essa pandemia.
Camilo Santana
Governador do Ceará, ao anunciar novo decreto na última sexta (1º)

Comportamentos reforçados

O psicólogo comportamental Ramonn Mariano pondera que o histórico comportamental de cada pessoa é influenciado pela cultura, que atua de forma constante nos hábitos e costumes. No caso brasileiro, ela carrega forte tradição de festas e confraternizações.

Essa facilidade de aceitação de uma ‘falsa normalidade’ é o resultado da forte influência de um conjunto de fatores: os comportamentos preestabelecidos (sair, confraternizar, participar de festas, etc), cultura (burlar regras, jeitinho brasileiro) e privação social (longos períodos com socialização limitada ou até mesmo sem socialização).

Além da maior liberação, o psicólogo também analisa a relutância de alguns indivíduos em continuar seguindo os protocolos básicos, como uso de máscaras e álcool em gel. Segundo ele, como a pandemia é um evento histórico inédito, as pessoas estabelecem comportamentos que servem como “tentativa e erro”.

Por exemplo: 

  • Um determinado indivíduo vai até a padaria sem máscara (por esquecimento), compra o pão e volta para casa. Chegando em casa, percebe que estava sem máscara, mas que não contraiu nenhuma doença. Aqui, ocorre um reforço para o comportamento de não usar máscara.
  • Em outra situação, a mesma pessoa precisou sair com pressa e não tinha máscara à disposição, mas novamente percebeu que não contraiu doença alguma. Mais uma vez, seu comportamento de não usar máscara foi reforçado, criando um histórico comportamental.

Legenda: Atos praticados repetidas vezes tendem a normalizar um comportamento.
Foto: Fabiane de Paula

“Esse tipo de comportamento pode ser reforçado também por pessoas que, por não terem contraído nem conhecerem ninguém que contraiu a Covid-19, não acreditam que exista uma doença real, logo essa cascata de comportamentos pode ganhar força e proporções enormes, como pode ser constatado no início da pandemia e nos picos de internações e mortes”, observa Mariano.

Risco de infecção continua

A epidemiologista e professora universitária Daniele Queiroz, reforça que o Ceará atravessa um momento de “lua de mel”, um intervalo entre ondas quando há cenário de queda nos indicadores. 

Porém, alerta que, a nível mundial, a velocidade de transmissão da doença está aumentando e, ao que tudo indica, conduzindo para uma terceira onda.

Há necessidade de manter os cuidados porque, embora tenhamos avançado na vacinação e ainda termos proteção da última onda, já temos identificadas as variantes Delta e Mu. Há dados na literatura científica mostrando que elas causam perda de eficácia das vacinas, então as pessoas podem voltar a adoecer.

Eventos monitorados

A Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) tem feito o acompanhamento de eventos de maior porte, analisando as propostas sanitárias dos organizadores.

Para a volta das torcidas aos estádios de futebol, por exemplo, a Pasta tem recomendado a obrigação de comprovar o esquema vacinal completo (duas doses ou dose única), o uso de máscaras e o respeito ao distanciamento social.

Realizado em setembro, o primeiro evento-teste durante a pandemia de Covid-19 no Ceará, o Festival Jazz & Blues, em Guaramiranga, recebeu as mesmas orientações. O público presente, as equipes de trabalho e os artistas também foram monitorados pela Secretaria.

Dificuldade em sair do isolamento

A pandemia é vivenciada de formas particulares. Há pessoas que aguardam ansiosamente o retorno presencial a atividades comuns, como trabalho, escolas e lazer, mas também há quem tenha se acostumado a ficar em casa e, agora, hesite em sair e se contaminar.

Legenda: Psicólogo recomenda procurar atenção especializada quando houver sofrimento psíquico e/ou físico.
Foto: Camila Lima

O psicólogo Ramonn Mariano considera esse receio “totalmente natural e aceitável”, devido à grande quantidade de mortes noticiadas no período de isolamento social e à divulgação de como vírus e bactérias nos contaminam. Nesse processo, porém, pessoas que já tinham tendências ao exagero com limpeza podem ter sentido mais os efeitos da pandemia. 

O especialista recomenda atenção clínica quando algum comportamento passa a prejudicar o indivíduo, seja física ou psicologicamente, ou seja, “quando a pessoa passa a ser prejudicada por algum comportamento que ela está mantendo por medo ou receio”. 

“Quando há um sofrimento psicológico, é indicado que se procure a clínica psicológica, não só relacionado à limpeza, mas ao bem-estar geral do indivíduo”, orienta.

Assuntos Relacionados