Falta de vacinas e falhas causam atraso na vacinação domiciliar

Pessoas com idade avançada, que vivem acamadas ou em bairros mais infectados (grupos prioritários para imunização), ainda estão sem data para receber vacina; Prefeitura afirma que doses insuficientes prejudicam processo

Na manhã de ontem, uma equipe de agentes de saúde municipais aplicou vacinas no Centro da cidade
Legenda: Na manhã de ontem, uma equipe de agentes de saúde municipais aplicou vacinas no Centro da cidade
Foto: Camila Lima

"Tava esperando a mensagem no meu celular, mas até agora não chegou". A ansiedade constante na fala da aposentada Maria Helena Girão, 82, reflete a sentida por muitos fortalezenses: cadastrados, eles ainda estão sem data para receber em casa a vacina contra Covid-19. Falhas na comunicação entre idosos e a Prefeitura de Fortaleza e na execução do plano de vacinação têm atrasado o processo de imunização domiciliar, que foi iniciado no último dia 27 e atingiu, até ontem (8), cerca de 3 mil pessoas do grupo prioritário.

Maria Helena, cadastrada no site Vacine Já desde o primeiro dia de funcionamento do sistema, assistiu à imunização da vizinha pelo portão de casa. "A menina me avisou que tava vacinando aí do lado, e pensei logo que vinha aqui pra mim também, né? Tô louca pra me vacinar, sinto falta de visitar meus parentes e de eles virem me visitar. Deus queira que venha logo. Mas por que veio aí pra vizinha e não veio aqui?"

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Aline Gouveia, secretária adjunta da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), justifica que o problema tem uma raiz bem definida: a quantidade insuficiente de doses para contemplar todos os idosos da primeira fase do plano.

"Não estamos recebendo o número total de doses da fase, e aí surgem essas situações. Quando a gente recebe, precisa fazer a delimitação dos mais expostos, que são os idosos com idade mais avançada, os acamados e os que estão nos bairros com maior circulação viral. Muitas vezes, quando recebemos novas doses, precisamos retornar a bairros onde já fomos antes", pontua.

Ao todo, 70 equipes de saúde percorrem a cidade e vacinam entre 25 e 30 usuários por dia, "a depender da rota e do trânsito que percorrem", segundo Aline. Neste ritmo, em dez dias de imunização domiciliar (contando apenas os dias úteis de 27 de janeiro a ontem), já deveriam ter sido vacinadas em domicílio cerca de 17.500 pessoas. Mas, até essa segunda (8), pouco mais de 3 mil receberam a dose em casa, do total geral de 72.210 vacinados em Fortaleza. O ritmo também é atribuído pela secretária adjunta ao baixo número de doses recebidas.

Desencontros

Na manhã de ontem, a reportagem do Sistema Verdes Mares acompanhou uma equipe de agentes de saúde municipais na aplicação de vacinas no Centro da cidade: em quatro de seis residências visitadas, os idosos já haviam sido vacinados. Na quinta casa, a família já havia alterado o agendamento da imunização de domiciliar para drive-thru, e mesmo assim constava na lista de visita dos profissionais. Já os idosos do sexto domicílio deveriam ter recebido a equipe três dias antes, e também não foram comunicados do atraso na imunização.

A situação põe em xeque não só a eficiência da comunicação entre a Prefeitura e a população, mas também as prioridades e a coerência logística das rotas traçadas pela SMS para distribuição das doses, que deveriam ser otimizadas para dar celeridade à imunização. A secretária adjunta de Saúde atribui essa situação às próprias estratégias adotadas pelo município para dar agilidade ao processo de vacinação.

"Semana passada, já em razão da demanda, publicizamos que idosos acima de 90 anos poderiam ir para os pontos de vacinação mesmo sem agendamento. E ainda ampliamos a vacinação do fim de semana. Também fizemos uma rota das pessoas remanescentes, que por alguma razão a equipe não vacinou, e estamos fechando isso hoje. Ao fim do dia, vamos fazer um balanço e todos os filtros necessários para que possamos prosseguir", esclarece a secretária Aline Gouveia.

Drive-thru

Diante dos passos lentos com que caminha a vacinação domiciliar, idosos cadastrados para recebimento da dose em casa têm tentado mudar o local do agendamento de domiciliar para drive-thru - muitos deles sem sucesso. "Quem não estava agendado foi no drive-thru e se vacinou, mas a vacinação de casa não anda. A Secretaria disse que poderíamos trocar pelo link, mas olho o e-mail de minuto em minuto e esse link não chega. Ligo pros telefones de minuto em minuto, e sempre dá ocupado ou diz que o número não existe. A gente fica de mãos atadas. Tô ansiosa de tanto esperar", relata a aposentada Maria Nazira Cavalcante, 76.

Em isolamento social total desde o início da pandemia, ela foi cadastrada pela filha "na primeira hora quando o prefeito anunciou", mas até agora continua sem saber quando será imunizada. "Entendo que em situação de vacina não é quem se cadastra primeiro, mas poderia ser um fator. Tenho diabetes, hipertensão e problema cardíaco. Sem contar o emocional, porque vivemos nessa espera. Se eles não têm como atender essa demanda em casa, por que colocam?", questiona.

Ir até a vacina diante do cansaço de esperar que ela chegue já é considerado como último recurso por Maria de Jesus dos Santos, 73, que aguarda a imunização para o esposo, Raimundo Nonato Bezerra, 86, desde que se cadastrou, no dia 26 de janeiro. Além da idade avançada, o aposentado está acamado desde março de 2020, outro fator que deveria colocá-lo como prioridade entre as prioridades. "Não recebemos nenhum comunicado de nada. Se a gente tivesse condições, botava ele num carro pra ir. Mas a gente não tem transporte pra levar. Fica difícil", lamenta.

Situação semelhante é vivenciada por Ana Cláudia Alves, 49, que é cuidadora da mãe, Ana Lúcia Alves - idosa de 81 anos, acamada, hipertensa, diabética e com sequelas de três Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC).

"Ela está prostrada há três anos, não tem nenhuma possibilidade de ir a drive-thru. Meu pai também é doente, tem 81 anos, e eu até poderia levar ele, mas não tenho com quem deixar ela. Desde o início, a esperança virou ansiedade. Foram muitos estudos bem feitos pra essa conquista, mas não conseguimos nada de retorno".

A quem está no mesmo cenário, a secretária adjunta da SMS reafirma: "conforme recebemos as doses, fazemos essa delimitação para operacionalizar e fazer com que chegue àquelas pessoas mais expostas dentro do grupo. Quem ainda não recebeu a vacina e está cadastrado, pode aguardar que receberá na modalidade escolhida, seja ela drive-thru, seja visita domiciliar", garante.

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