Dia Mundial das Cidades: como a pandemia mudou a relação do fortalezense com a cidade?

Numa metrópole dia a dia mais desigual, ocupar ruas, espaços públicos e até a própria casa não será como antes

Escrito por
Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
Parque do Cocó durante a pandemia de Covid-19, em Fortaleza
Legenda: Maior busca por espaços públicos ao ar livre deve ser legado da pandemia para relação das pessoas com a cidade
Foto: José Leomar

O longo isolamento social em Fortaleza, em proteção pela Covid, nos rendeu saudades – assim, no plural. De abraços e do outro, mas também da praia, do parque, da rua, do Centro, do movimento. Mas o retorno gradual à “normalidade”, ainda na pandemia, impõe uma questão: como o isolamento mudou a relação do fortalezense com a urbe?

Neste 31 de outubro, Dia Mundial das Cidades, o Diário do Nordeste conversou com especialistas para entender as marcas – positivas e negativas – que as distâncias pregadas pela pandemia deixaram a Fortaleza.

Veja também

‘Redescoberta’ dos parques e praças

Mesmo com o avanço da vacinação, a consciência de que o coronavírus continua circulando exige uma adaptação da “normalidade”, no retorno gradual das pessoas à rua: o que incentivou a redescoberta de espaços abertos, como observa José Borzacchiello, pós-doutor em geografia humana e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O fortalezense começou a reaprender a ocupar a cidade valorizando os espaços públicos. Com isso, há a redescoberta do Parque Adahil Barreto, do Cocó, e de praças como a Ceart, pro passeio com crianças, com cachorro, pra feirinhas.
José Borzacchiello
Geógrafo e professor da UFC

Na contramão, porém, o geógrafo avalia que a crise sanitária congelou o processo de ocupação da área central de Fortaleza como opção de lazer. “O Passeio Público, por exemplo, que a classe média vinha valorizando muito, com atividades aos fins de semana, não continuou nesse ritmo”, lamenta.

Já Jefferson Lima, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no Ceará, opina que “a ocupação do espaço público, como praias, praças e calçadões, não mudou tanto, o que mudou foi a relação de consumo das pessoas, e isso interfere na dinâmica urbana”.

Aplicativo de delivery Fortaleza
Legenda: Aumento exponencial do uso de aplicativos para compras altera dinâmica urbana, aponta especialista
Foto: Thiago Gadelha

O arquiteto e urbanista pontua que a possibilidade de teletrabalho e de fazer compras por meio de aplicativos, eliminando a necessidade de sair de casa, por exemplo, “agradou a muitas pessoas”, modificando a relação com a rua.

Outra parcela da população, por outro lado, passou a enxergar a ocupação de parques e outros espaços como possibilidade – demandando do poder público a ampliação e a qualificação desses locais.

Política pública que é construída de baixo pra cima, demandada pelo povo, a administração se obriga a fazer. E o desenho dos espaços urbanos não está fora disso. As pessoas passaram a ver que precisam frequentar os parques, e demandam isso.
Jefferson Lima
Arquiteto e urbanista

Migração para Região Metropolitana

Outra mudança estimulada pelo isolamento social foi no estilo de morar do fortalezense, como analisa Borzacchiello, uma vez que “a classe média descobriu incômodo na habitação que atendia a todas as suas necessidades antes”.

Um dos impactos disso é o “boom” imobiliário, com valorização de novos espaços e surgimento de condomínios e empreendimentos em áreas até então ocupadas por comunidades – movimento que “empurra” a periferia ainda mais para a margem.

A partir do momento em que as pessoas tiveram de ficar em casa, com crianças com aulas remotas, tiveram necessidade de espaços maiores. Vamos perceber a migração da classe média para casas, principalmente na Região Metropolitana, a exemplo do Eusébio.
José Borzacchiello
Geógrafo e professor da UFC

Não apenas a relação com o espaço público e com a localização das moradias, mas com o próprio âmbito privado passou por mudanças, segundo observa o professor. “A cozinha era uma área de produção, restrita à empregada, confinada na diferença de classe; e passa a ser ressignificada, ocupada pelas famílias.”

Parque Adahil Barreto, em Fortaleza
Legenda: Parque Adahil Barreto foi um dos espaços "redescobertos" pelo fortalezense
Foto: Fabiane de Paula

Questionados sobre o que de fato mudou em Fortaleza com a pandemia, os especialistas são unânimes: a cidade que já era desigual ficou ainda mais. “É uma dádiva falar de Fortaleza como cidade turística, luminosa, de praia. Mas quando falamos da perspectiva social, a parte opaca não aparece”, reflete Borzacchiello.

Para o presidente do IAB/CE, mostrou-se urgente expandir iniciativas e serviços também às periferias da cidade. “Quando se fala de parques na cidade, só lembramos do Cocó. Mas temos o Rio Maranguapinho, por exemplo, que sai do Maracanaú e desemboca no Rio Ceará. É preciso investir em parque linear, criar atrativos. Temos belezas incríveis”, finaliza Jefferson.

 

Assuntos Relacionados