Dia dos Pais: paternidade responsável vai além do sangue e dos rótulos

No segundo domingo de todos os agostos, só um fator básico e indispensável pode sustentar todas as celebrações: a presença afetiva, mostrando que relações parentais não são apenas sobre compartilhar a genética

Há pais que nascem antes dos filhos, enquanto os planejam ou esperam a chegada. Há os que nascem junto, ao segurar as mãos pequenas já nos primeiros segundos da vida. Há os que nascem anos depois, reconhecendo o amor num gesto ou olhar. Mas há ainda os que nunca nascem. E sobre eles não há o que falar além do vazio. Ser pai, então, é sobre presença. Sobre homens que, no físico ou na memória, transbordam afeto, amor e afago para além dos rótulos, da genética e das imposições sociais – que vão além de si para cuidar e fazer parte do outro.

Jurema Dantas, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), ressalta que as relações que se estabelecem no campo afetivo são, muitas vezes, “distintas das fórmulas prontas” instituídas pela sociedade.

“Os vínculos são construídos por presença, diálogo, e são muito importantes para o processo de maturação e acompanhamento da criança e adolescente. Ser pai não se esgota no papel social nem no laço biológico, mas se edifica na relação que se estabelece”, define.

As influências e imposições externas sobre as “famílias ideais”, alerta a psicóloga, não podem condicionar as escolhas sobre como viver ou não a paternidade. “Somos apresentados a papéis e padrões em torno da família, e eles atravessam nossas decisões. Mas o que vai iluminar a relação com os filhos são os sentimentos. Isso não se traduz em identidade ou sobrenome. Constituir-se como pai ou mãe de alguém é exercício diário de cuidado – de presença física ou afetiva.”

Responsabilidade

No Ceará, quase 1,5 milhão de domicílios são chefiados por mulheres, grande parte deles por mães solo. Milhões de cearenses sequer têm o nome do pai no registro de nascimento. A demanda por reconhecimento ou exercício da paternidade responsável é uma das mais frequentes na Justiça do Ceará, segundo o defensor público e supervisor das Defensorias de Família, Sérgio Luís de Holanda. “A lacuna sobre isso provoca no indivíduo consequências psicossociais, num contexto de ausência de referências. Para contornar essa situação é que temos as medidas judiciais cabíveis”, pontua.

Na análise de Jurema Dantas, a importância não está apenas na presença do pai em si, mas de uma “figura paterna”. “É importante haver alguém que ocupe esse lugar para a criança e adolescente, porque pode haver repercussões no desenvolvimento afetivo, cognitivo ou social, seja na infância ou na vida adulta. Eles sentem o impacto desse distanciamento, sobretudo afetivo, e isso reflete em sentimentos de abandono, desvalorização, insegurança, baixa autoestima e até mesmo dificuldade de relacionamentos. Essa ausência de uma figura parental pode, sim, favorecer determinados impactos emocionais”, alerta.

A reclamação da mãe sobre a ausência paterna, danosa aos filhos, é outra situação comum nas causas familiares atendidas pela Defensoria Pública do Estado, de acordo com Sérgio Luís. “Uma vez reconhecida a paternidade, surgem as obrigações legais, como assistência material e afetiva – esta que deveria ser cumprida de forma voluntária. Se a ausência paterna ocasionar problemas psicológicos, é possível que o filho, no futuro, ingresse com medidas judiciais para minimizar esse prejuízo”, pontua o defensor.

A importância do reconhecimento, contudo, vai além das questões legais, como aponta a psicóloga Jurema Dantas. “A presença da parentalidade é essencial, sobretudo na primeira infância, para possibilitar cenários de interações saudáveis na formação da pessoa. Isso traz possibilidade de experiências e vivências de bons relacionamentos, auxilia na geração de valores, habilidades cognitivas e sociabilidade muito importantes. Ter alguém que cuide, se coloque enquanto presença afetiva e suporte, pode, sim, viabilizar alicerces significativos”, finaliza.

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