Polícia faz reconstituição da morte do menino Henry Borel no Rio de Janeiro

O padrasto da criança, o vereador carioca Dr. Jairinho (Solidariedade), e a mãe, a professora Monique Medeiros, devem participar do momento

Henry Borel
Legenda: O garoto morreu no dia 8 de março em circunstâncias ainda não esclarecidas. O caso é investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro
Foto: reprodução

A Polícia Civil realiza, nesta quinta-feira (1º), a reconstituição da morte do menino Henry Borel, de 4 anos, morto no dia 8 de março no Rio de Janeiro, em circunstâncias ainda não esclarecidas. Ele era enteado do vereador carioca Dr. Jairinho (Solidariedade) e filho da sua namorada, a professora Monique Medeiros.

A defesa do casal chegou a solicitar o adiamento da reprodução simulada na noite desta quarta (31), mas teve o pedido negado pela Justiça. O advogado André França Barreto também havia requisitado a suspensão das investigações e que elas passassem para as mãos da Divisão de Homicídios, o que também foi recusado.

Em frente à delegacia, ele disse à imprensa que orientaria seus clientes a não comparecerem. Questionado na manhã desta quinta se eles de fato o casal não iria, ele não respondeu e disse que daria mais informações antes da reconstituição, que está marcada para as 14h no condomínio onde o casal morava.

"Tendo em vista essa posição do delegado que se mostrou intransigente, porque o nosso pedido era que se adiasse para terça que vem [6], então três, quatro dias, inclusive num meio de um feriado [...] Ele sem uma motivação que eu acredite razoável indeferiu, acho que isso prejudica até a própria investigação porque mais gente estaria credenciada a participar e demonstrar os fatos como aconteceram. Por essa razão estou orientando os meus clientes a não comparecerem", disse à TV Globo.

O pai de Henry, o engenheiro Leniel Borel, também não deve estar presente na reprodução, segundo seu advogado, Leonardo Barreto. Um boneco representará o menino no procedimento, que terá peritos do IML (Instituto Médico Legal), do ICC (Instituto de Criminalística Carlos Éboli) e policiais da 16ª DP (Barra da Tijuca).

Boneco para simulação Corpo de Bombeiros
Legenda: Boneco que deve ser usado na reconstituição do caso
Foto: reprodução

"A reprodução simulada dos fatos é uma prova que diz respeito à polícia, à perícia, aos indiciados ou réus se for na fase processual, ou até ao Ministério Público se ele quiser participar. O Leniel não foi intimado para participar, bem como nós também não. Até mesmo para que evitássemos qualquer tipo de constrangimento na realização dos atos [...] achamos prudente não participar", disse o advogado à Folha.

Para ele, a reprodução simulada será a última prova do inquérito: "É a mais esclarecedora. É a prova final. Acredito que, após isso, o delegado deverá concluir o inquérito. E nós estamos aqui com a única certeza que nosso cliente não tem nada a ver com isso e que o casal tem, sim, muito a ver com a situação. Nós estamos aguardando, como toda a sociedade, o final dessas investigações e o pedido de prisão, principalmente do vereador Jairinho".

A morte

Henry passou o fim de semana anterior à morte com o pai, que o deixou no condomínio da mãe e do namorado na noite de domingo, 7 de março, sem lesões aparentes. Na mesma madrugada do dia 8 de março, Monique e Jairinho levaram o garoto às pressas para o hospital, onde ele chegou já morto.

Um exame de necropsia concluiu que as causas do óbito foram "hemorragia interna" e "laceração hepática" (lesão no fígado), produzidas por uma "ação contundente" (violenta). Ele tinha outras diversas lesões e hematomas pelo corpo.

No hospital, o casal disse que estava em outro quarto quando ouviu um barulho emitido pela criança e se levantou para ver o que havia acontecido. Chegando lá, teriam visto o menino caído no chão, com os olhos revirados, as mãos e pés gelados e sem respirar.

Depoimentos

Os investigadores já ouviram 17 pessoas sobre o caso. Entre elas, a faxineira que limpou o apartamento do casal um dia após a morte de Henry (antes da perícia), uma ex-namorada do parlamentar que o acusou de agressões contra ela e sua filha, na época criança, a psicóloga do menino e as pediatras que o atenderam no Hospital Barra D'Or.

Ao todo, 11 celulares foram apreendidos em diferentes endereços ligados à família da criança na semana passada. Diante de informações de que mensagens teriam sido apagadas dos aparelhos do casal, a polícia deve usar um programa de dados especial para resgatar as mensagens.

Segundo o advogado de Monique e Jairinho, "até agora isso se trata de fofoca" e é preciso aguardar o laudo oficial para confirmar se as mensagens foram de fato apagadas. Ele afirma que a professora teve seu celular hackeado, o que foi registrado em uma ocorrência online, já que a delegacia de crimes de informática está fechada em razão da pandemia.

Um dos endereços em que a polícia fez buscas foi o do ex-deputado estadual coronel Jairo, pai de Jairinho, em Bangu, onde o vereador estava.

Suposto envolvimento com a milícia

Jairo foi apontado como miliciano na CPI das Milícias e teve o nome envolvido nas investigações sobre a tortura de uma equipe do jornal O Dia na Favela do Batan (zona oeste), em 2008.

Ele chegou a ser preso preventivamente na operação Furna da Onça em novembro de 2018 por suspeita de corrupção e fraude em licitações. Está solto desde novembro de 2019, após habeas corpus concedido pela Justiça Federal. Ele negou envolvimento com todos os casos.

Nesta quinta, o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, informou que Dr. Jairinho ligou para o governador em exercício Cláudio Castro (PSC) no mesmo dia da morte de Henry, antes de o caso chegar ao noticiário. Ele teria dado sua versão do ocorrido e perguntado o que seria feito pelas autoridades.

Castro, ainda segundo a coluna, respondeu que caberia à Polícia Civil investigar o caso. Desde então, policiais e secretários de estado também teriam sido procurados pelo vereador para falar sobre as investigações.

Perguntas ainda não respondidas sobre o caso

  • Peritos apontam que as lesões no corpo de Henry não são compatíveis com acidente doméstico. O que as causou?
  • Por que a faxineira limpou o apartamento antes de a polícia fazer a perícia?
  • Uma ex-namorada de Dr. Jairinho o acusa de agredir sua filha, na época criança. A defesa diz que ele é perseguido pela mulher há 10 anos. O vereador estaria envolvido na agressão?
  • As mensagens nos celulares do casal realmente foram apagadas? Por qual motivo?
  • Uma outra ex-namorada do vereador contou à polícia que, seis horas após a morte do menino, teve uma conversa com Jairinho "como se nada tivesse acontecido". Por que ele não falou sobre a morte?
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