'Cacho' de cobra-verde é flagrado no Rio Grande do Sul e registro é publicado em revista científica

Fenômeno ocorre após fêmeas secretarem hormônios sexuais e muitos machos serem atraídos ao mesmo tempo para tentar copular

Legenda: As serpentes registradas por Telmo são cobras-verde (Philodryas olfersii), um tipo de espécie bastante distribuída na América do Sul
Foto: Reprodução/g1/Telmo L. L. Santos

Ainda em abril de 2020, um "cacho" de cobras-verdes aglomeradas sob os galhos de um pé de mexerica foram registradas por Telmo Santos, no município de Santo Antônio da Patrulha (RS), conforme o g1. Após a compartilhar a imagem para entender o fenômeno, o registro foi divulgado na revista científica "Herpetological Review" em janeiro deste ano. 

A publicação aconteceu no setor de notas de história natural dentro de um periódico acadêmico responsável por reunir dados, fotografias e informações essenciais para a melhor compreensão da biologia das serpentes.

Conforme a bióloga autora de nota científica Silara Batista, o registro deste fenômeno, que ocorre quando fêmeas secretam hormônios sexuais e muitos machos são atraídos ao mesmo tempo para tentar copular, é inédito no Brasil para a espécie de cobras-verdes (Philodryas olfersii).

“Apesar da riqueza de serpentes no País há relatos de agregação reprodutiva em poucas espécies, como a sucuri, a coral-verdadeira e, agora, na cobra-verde – descrita nesse trabalho”.
Silara Batista
Bióloga

Legenda: Bióloga aponta que pode ser o primeiro registro do fenômeno entre cobras-verde (Philodryas olfersii) no Brasil.
Foto: Reprodução/Herpetological Review

As serpentes cobras-verdes são amplamente distribuída na América do Sul e, mesmo não sendo considerada peçonhenta, desperta o interesse de médicos por conta de relatos de acidentes de gravidade baixa a moderada.

FUNCIONAMENTO DO FENÔMENO

O fenômeno é chamado de "agregação reprodutiva" no ambiente acadêmico, ocorrendo no período da reprodução da espécie. Conforme a bióloga especialista em répteis, Karina Banci, o objetivo é o "sucesso da reprodução da espécie por meio da cópula". 

Para isso, as fêmeas secretam pela pele hormônios sexuais chamados feromônios. Como reação, muitos machos são atraídos para ela.

No entanto, apenas um ou poucas cobras-verdes atraídas pela fêmea conseguem copular, já que "o macho secreta uma substância gelatinosa, chamada ‘plug copulatório’, que acaba bloqueando a cloaca da fêmea por algumas horas ou poucos dias, tempo suficiente para os outros machos dispersarem".

"Por meio do olfato, os machos são atraídos até a fêmea, conseguindo, inclusive, seguir as trilhas de feromônios que as fêmeas vão deixando por onde passam. Eventualmente muitos machos são atraídos ao mesmo tempo por uma fêmea só, o que faz com que eles se agreguem em volta dela, tentando copular”.
Karina Banci
Especialista em répteis

AUMENTO REPRODUTIVO DA ESPÉCIE

A bióloga Silara ainda explica que os cientistas ponderam que o fenômeno aumenta as chances de sucesso reprodutivo da espécie. A hipótese é que, durante a agregação de machos em volta, a fêmea "escolhe machos com maior ‘fitness’ reprodutivo, ou seja, indivíduos maiores, mais vistosos e mais saudáveis”.

Dessa forma, a espécie garante filhotes de machos com maior probabilidade genética de gerar filhotes saudáveis e, também, de se tornarem adultos com sucesso reprodutivo. 

Além disso, Silara ainda destaca que os relatos de agregações reprodutivas apontam duração de uma hora até alguns dias. O caso mais conhecido desse comportamento ocorre com a cobra-liga-comum, uma espécie norte-americana que costuma hibernar no inverno.

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