Guiné declara 'situação de epidemia' de Ebola, com pelo menos três mortes confirmadas

Pelo menos sete pessoas foram infectadas após funeral, no final de janeiro

Situação de epidemia de Ebola é confirmada em Guiné
Legenda: Hospital de tratamento para Ebola em Conacri, capital do Guiné, durante epidemia de 2014
Foto: CELLOU BINANI / AFP

A agência de saúde de Guiné, país da África Ocidental, afirmou neste domingo (14) que pelo menos três pessoas morreram devido a uma nova "situação de epidemia" de Ebola. O ressurgimento de casos ocorre cinco anos depois do fim do surto anterior.

"Muito cedo nesta manhã, o laboratório de Conakry confirmou a presença do vírus do Ebola", afirmou Sakoba Keita, chefe da Agência Nacional de Segurança Sanitária (ANSS), depois de uma reunião emergencial em Conakry. Já foram registrados ao menos sete casos

O ministro da Saúde Rémy Lamah mencionou, no sábado (13) à noite, um número de quatro mortos.

Keita afirmou à imprensa que uma pessoa morreu no final de janeiro em Gouecké, perto da fronteira com a Libéria. O seu funeral pode ter espalhado a doença.

Este é o primeiro ressurgimento registrado da doença na África Ocidental, onde começou o pior surto na história do vírus, que matou mais de 11.300 pessoas entre 2013 e 2016, entre os quase 29.000 infectados.

Mais de 99% das vítimas foram registradas na Libéria, Serra Leoa e Guiné. A OMS declarou o fim da epidemia NO país em março de 2016.

"O funeral aconteceu em Gouecké em 1° de fevereiro e algumas pessoas que participaram deste funeral começaram a ter sintomas de diarreia, vômito, sangramentos e febre alguns dias depois", disse o titular do órgão de saúde. 

As primeiras amostras analisadas por um laboratório instalado pela União Europeia em Guéckédou, na região, revelaram a presença do vírus do Ebola em algumas delas na sexta-feira, disse.

"Isso coloca a Guiné em uma situação de epidemia de Ebola", concluiu o médico.

OMS deve enviar auxílio

O representante da Organização Mundial da Saúde (OMS), Alfred George Ki-Zerbo, afirmou que Guiné receberá auxílio rapidamente, como doses de vacinas contra o Ebola.

"Vamos enviar rapidamente as capacidades necessárias para apoiar a Guiné, que já tem muita experiência", declarou à imprensa o professor Ki-Zerbo, no fim de uma reunião com as autoridades de saúde do país.

Existem duas vacinas experimentais contra o vírus. Mas não há nenhum tratamento contra a doença, que já provocou surtos várias vezes na África.

O desenvolvimento de vacinas contra o vírus do Ebola se acelerou depois da pior epidemia desta doença, particularmente fatal, que começou em dezembro de 2013 na Guiné e se propagou para a Libéria e Serra Leoa, mas acabou alcançando um total de dez países com casos na Espanha e Estados Unidos.

"A OMS está em alerta em todos os níveis: na sede e na relação com o fabricante (de vacinas), para que as doses necessárias sejam disponibilizadas o quanto antes para ajudar", afirmou Ki-Zerbo.

De onde vem o vírus?

O vírus do ebola foi identificado pela primeira vez em 1976 na República Democrática do Congo (RDC, então Zaire). É um vírus da família filoviridae (filovírus). Seu nome vem de um rio no norte do país, próximo ao local onde eclodiu a primeira epidemia.

Desde então, cinco "subtipos" do vírus do ebola foram identificados: Zaire, Sudão, Bundibugyo, Reston e e Floresta de Tai. Os três primeiros causaram graves epidemias no continente africano.

Como é transmitido? 

O vírus circula entre morcegos frugívoros, considerados o hospedeiro natural do ebola, mas eles não desenvolvem a doença. Outros mamíferos, como grandes símios, antílopes ou porcos-espinhos, podem ser portadores e transmiti-los às pessoas.

Durante uma epidemia, o ebola é transmitido entre humanos por meio de contato próximo e direto. Uma pessoa saudável é infectada pelos "fluidos corporais" de um doente: sangue, vômito, fezes etc.

Ao contrário da gripe, esse vírus não é transmitido pelo ar. Portanto, é menos contagioso do que muitas outras doenças virais, como a Covid-19.

Mas esse vírus é assustador pela alta taxa de mortalidade: em torno de 50% e até 90% no caso de algumas epidemias, segundo a OMS.

Quais são os sintomas?

Após um período de incubação de 2 a 21 dias (cerca de cinco dias em média), o ebola se manifesta com febre repentina, fraqueza, dores musculares e articulares, dor de cabeça e dor de garganta e, em alguns casos, hemorragia.

Os sobreviventes costumam ter sequelas: artrite, problemas de visão e audição e inflamação dos olhos.

Que tratamentos existem?

Uma primeira vacina, fabricada pelo grupo norte-americano Merck Shape and Dohme, mostrou-se altamente protetora contra o vírus, segundo ensaio realizado na Guiné em 2015.

A OMS pré-qualificou esta vacina em novembro de 2019 para ser homologada. Mais de 300.000 doses foram administradas em uma campanha de vacinação direcionada durante a última epidemia na República Democrática do Congo. 

Uma segunda vacina experimental, do laboratório norte-americano Johnson & Johnson, foi introduzida preventivamente em outubro de 2019 em áreas onde o vírus está ausente, e mais de 20.000 pessoas foram vacinadas.

Décima e décima primeira epidemia na RDC

A décima epidemia começou em 1º de agosto de 2018 na província de Kivu do Norte. A OMS declarou emergência sanitária de alcance internacional em julho de 2019, quando ameaçava países vizinhos. 

As autoridades do país proclamaram o fim desta epidemia, a segunda mais grave da África (com cerca de 2.280 mortes) depois da de 2013-2016, em junho de 2020. 

Sem ligação com esta epidemia, em junho de 2020, uma décima primeira epidemia de febre ebola estourou na província de Equateur. O país declarou seu fim em 18 de novembro (55 mortos).

Quero receber conteúdos exclusivos sobre o mundo