Coronel cearense comanda missão no Haiti

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De vendedor de picolé no Interior do Ceará a coronel do Exército, hoje comandando a equipe médica brasileira no Haiti. Foi a trajetória de Francisco José Madeiro Monteiro, nascido há 46 anos em Brejo Santo, distante 409km de Fortaleza. Aos 17 anos, José terminou o 2º grau e rumou atrás de seus sonhos. Sempre quis ser médico. Fez o curso na Universidade Federal de Pernambuco. Casado com a enfermeira Maria do Carmo Madeiro, pai de duas adolescentes (Ana e Camila), é chefe de saúde do Sesc de Recife e mantém um dos consultórios de otorrinolaringologia mais procurados. Sempre que sobrava dinheiro, mandava para a mãe, Maria Madeiro, custear os estudos dos demais irmãos. Hoje, dois são dentistas (Fátima e Jacinto); Bosco é gerente do Banco do Brasil de Quixeré; Normando é servidor do TRT da Paraíba; Auxiliadora é professora; Wilson e Evandro são comerciantes. O prenome José transformou-se no sobrenome Madeiro na carreira militar. Leia a entrevista feita através de chat pela internet entre Fortaleza e Porto Príncipe.

Procuro representar bem o nosso querido Brasil, o Ceará e a cidade de Brejo Santo. Vivemos aí num paraíso diante do que vemos aqui.

Diário do Nordeste — Na próxima 5ª feira farão dois meses que seu contingente chegou ao Haiti. O Sr. tinha consciência do que ia encontrar?

Madeiro - Sabíamos das dificuldades, sim. O Haiti não tem nada. Não tem indústria, educação, emprego, saúde nem saneamento básico. O povo é muito sofrido. Estamos tentando resolver o problema de segurança, que também é precário.

— Isto significa que os brasileiros vivem num paraíso. Qual a comparação que o Sr. faz entre os dois países?

Madeiro - Vivemos aí num paraíso. Aqui, as coisas são muito difíceis.

— Como é seu dia-a-dia?

Madeiro - Nossa principal função é assegurar a integridade física do militar, mas, também envolve ações cívico-sociais. Saímos para atender ao povo e distribuir cestas básicas da ONU. Há momentos que ficamos na base de Bravo esperando as urgências médicas.

— Sua missão é de seis meses. Vocês têm folga?

Madeiro - Temos arejamento de três dias a cada 30 dias de trabalho. Vamos para a República Dominicana ou Miami.

— Noticia-se que quando o ex-presidente Jean-Bertrand Aristide renunciou, em 2001, os soldados haitianos ficaram com as armas. Alguns passaram a formar gangues e a assaltar. Isto é verdade?

Madeiro - Realmente, existem gangues infiltradas nas comunidades, mas estamos tentando resolver a situação. Nossa maior preocupação é manter a ordem para as eleições do próximo dia 7. Esperamos que as coisas se normalizem até lá.

— A eleição foi remarcada pela quarta vez para o dia 7. O que poderá acontecer? O que foi feito nos últimos meses em que vocês estão aí para garantir a eleição?

Madeiro - O problema da eleição no Haiti é administrativo. O pessoal responsável está fazendo o possível para que tudo dê certo. Do ponto de vista militar, estaremos dando o apoio necessário no controle das eleições. Esta é nossa missão.

— O Sr. comanda um grupo de médicos e dentistas brasileiros. Quantos estão sob seu comando?

Madeiro - Cada país tem sua equipe. Chefio a equipe de saúde do Brasil. Somos oito médicos e dois dentistas. São todos do Sul e do Sudeste do Brasil. Sou o único do Norte e Nordeste. Temos também a missão de dar assistência médica aos 1,2 mil brasileiros do nosso contingente

— Já houve algum problema de saúde com os brasileiros?

Madeiro - Graças a Deus até agora não houve nenhuma baixa de militar, como também não apareceu ninguém com doença.

— O que houve realmente com o general Urano Bacellar?

Madeiro - A perícia diagnosticou suicídio. Não tenho como duvidar.

— Dizem que o vodu, uma espécie de camdoblé, previu até o assassinato de John Kennedy. O Sr. sabe alguma coisa sobre o vodu. Eles consideram como religião ou é uma seita?

Madeiro - Não temos muito contato com a população no ponto de vista religioso. Aqui, eles falam muito do vodu. Temos o nosso capelão que nos ajuda muito no ponto de vista religioso. Toda semana ele celebra missa.

— O sucesso da missão brasileira no Haiti poderá valer uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, que é um sonho antigo do Governo brasileiro. O sr. acha que a missão será um sucesso? O Brasil vai conseguir a vaga na ONU?

Madeiro - Isto é um assunto da diplomacia brasileira. Aqui estamos ajudando um povo que necessita muito de todos nós e do mundo. É um povo muito carente. Cada país deveria dar a sua contribuição. O nosso presidente Lula está fazendo o que pode.

— Queria que o Sr. mandasse um recado de paz, de esperança, de otimismo para os cearenses, especialmente para Brejo Santo.

Madeiro - O cearense, por natureza, é um forte. Brejo Santo é uma terra de paz e muita alegria. Desejo a todos os brejo-santenses que continuem assim. Aqui, estou procurando representar bem o Brasil, o nosso querido Ceará e a nossa querida cidade de Brejo Santo. Estou com muita saudade dos amigos que deixei, como também da minha família.

— Como sua família entende sua missão?

Madeiro - Todos entendem quanto isto é importante para a minha vida familiar, pessoal e profissional. Temos a consciência de que é importante também para um país que precisa de ajuda. Sempre tive uma vida sacrificada, desde o tempo que fui fazer vestibular em Recife. Fui de pau-de-arara e, enquanto estive na faculdade, morei na Casa do Estudante.

— O Sr. deixou Brejo Santo aos 17 anos para fazer vestibular para Medicina em Pernambuco. De seus amigos de adolescência de Brejo Santo, de quem lembra.

Madeiro - Lembro do meu querido Welington Landim, com quem jogava no mesmo time e sempre saíamos juntos para as festas. O Brejo Santo só tem duas fases. Uma antes e outra depois de Welington. Tenho certeza de que o povo de Brejo Santo reconhece isto. Tem Wider, que foi prefeito, meu colega de turma de Medicina. Tem o Eduardo do Bar, Chico de Sinésio, Nilvam de Pedro Tavares, José de Toinho. Tem o Arônio, que jogou futebol comigo. Tem o Arnou Pinheiro, que é da minha família. Todos meus contemporâneos.

— O Normando Madeiro (irmão do coronel) me disse que tem uma pessoa que lhe presenteou com o anel de formatura. Como é mesmo o nome dele?

Madeiro - (... pausa) Você tocou agora numa pessoa que devo muito. Não sei onde ele está morando. Chama-se Uchôa. Ele trabalhava no Banco do Brasil. Era nosso vizinho em Brejo Santo. Eu acordava 5 horas da manhã para aguar as suas plantas. Sempre dizia a ele que queria ser médico. Um dia, então, ele me falou: se você passar em Medicina eu darei o anel de formatura. Então eu lhe falei: você vai ter que comprar e ele cumpriu o que falou. Um dia, vamos nos encontrar para eu agradecer. Minha família não tinha condição de comprar nem o anel e ele comprou.

— E você ainda ganhava uns trocados limpando as gaiolas dos pássaros dele. É verdade? O que você fez mais para sobreviver na adolescência?

Madeiro - Revelo com muito orgulho: vendi picolé, retrato de Carnaval e trabalhei como contínuo. Minha mãe, Maria Madeiro, foi uma vitoriosa. Sempre nos estimulava a estudar. Devemos tudo a ela. Tenho certeza de que ela encontra-se no céu. Hoje, tenho orgulho de pertencer aos quadros de médicos do glorioso Exército Brasileiro.

— Que conselho o Sr. daria para os jovens de hoje?

Madeiro - Primeiro estudar. Sei que existe concorrência, mas se você realmente se preparar, seu dia chegará. É importante também ter muita fé em Deus. Não entrar para as drogas e sempre tentar seguir os conselhos dos pais.

— Um grupo está sendo preparado pela 10ª RM - cerca de 30 homens - para ir ajudar na missão de paz. São homens do Ceará, Piauí e Maranhão. O Sr. tomou conhecimento?

Madeiro - É o pessoal do próximo contingente. Este grupo sairá do Recife. Quem está comandando é o general Aguiar, do Recife, mas que também é cearense de Quixeré e comanda a 10ª Brigada de Infantaria em Pernambuco.

— Mande uma mensagem para este grupo que vai para o Haiti.

Madeiro - Como são voluntários, vão aprender muito. Vão conhecer o criolo, a língua do Haiti. Um francês misturado. Acho que passarão por uma boa experiência. O Exército Brasileiro é preparado. O grupo também vai-se orgulhar de ser brasileiro e servir a uma nação necessitada, como o Haiti. É uma questão humanitária.

— Quando você virá ao Ceará?

Madeiro - Saí cedo de Brejo Santo e um dos meus sonhos é conhecer Fortaleza... Depois aviso. Olha, minha filha há tempo está me chamando na outra linha do chat. Estou com saudade delas. Obrigado pela atenção. Boa noite e até outro dia. Madeiro.

— Ok, fique à vontade para conversar com seus familiares. Você merece, por ser um vitorioso. By.

Luciano Luque
luque@diariodonordeste.com.br