Parentes de presos foragidos relatam abuso, ameaças e agressões de policiais durante buscas

"Chegaram perguntando se a gente tinha plano funerário", disse ter ouvido uma das vítimas quando não soube dar informações sobre o paradeiro do familiar que fugiu da prisão

Escrito por Emanoela Campelo de Melo, emanoela.campelo@svm.com.br

Segurança
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Legenda: Um dos presos fugiu quando seria transferido da Decap para o presídio, na Região Metropolitana
Foto: Foto: Kid Júnior

Familiares de presos que recentemente fugiram de delegacia e presídio vêm relatando ameaças e coação por parte de policiais. Conforme denúncias recebidas pelo Diário do Nordeste, desde o último fim de semana, parentes têm suas casas invadidas sob a justificativa que as autoridades procuram pelos foragidos.

Em um dos casos, uma vítima relatou que foi questionada por um agente "se ela e a mãe tinham plano funerário", dando a entender que caso não respondessem sobre o paradeiro do suspeito, seriam elas a "pagar pelo crime dele com as próprias vidas".

Os recém-foragidos são Lucas Rosa Gonçalves de Sousa, suspeito pelo latrocínio de um comerciante no bairro Mondubim, José Anderson Pereira de Freitas e Dannys Ronnys Almeida dos Santos. Lucas fugiu quando seria transferido de uma delegacia na Capital para um presídio. Já Anderson e Dannys realizavam atividades laborais quando se aproveitaram para se evadir do Centro de Detenção Provisória (CDP).

A reportagem ouviu parentes dos suspeitos, que não serão identificados nesta matéria por temerem represálias. Dentre as famílias que disseram ter recebido ameaças está a de Lucas. Ao relatarem o que vêm sofrendo nos últimos dias, desde o latrocínio, os parentes pedem desculpas à viúva do comerciante José Reginaldo Campos Pinheiro e pedem que as autoridades saibam distinguir quem deve ser punido.

"Foram na casa da mãe dele, botaram tudo abaixo e revistaram o celular dela sem autorização. Fizeram pressão nela, uma pessoa já idosa, doente. Isso foi um dia. Depois foram de novo e da segunda vez eu estava. Perguntaram se a gente tinha plano funerário, disseram que quando pegassem o Lucas iam matar ele, que ia ser sangue por sangue", conta uma familiar.

QUEM PAGA PELO CRIME?

Conforme a vítima, os policiais entraram no imóvel sem estar em posse de nenhum mandado de busca e apreensão: "Eles já chegam afirmando coisas. Nós não acobertamos ninguém. Eu sinto pela família da vítima e peço perdão, mas a forma como chegam na nossa família eu não acho certo. Não tenho problema de responder perguntas, desde que seja algo dentro da lei".

"Os vizinhos viram a forma como eles nos trataram, como eles gritaram na rua, como se ninguém fosse cidadão. A gente não tem culpa do que o Lucas fez, é o erro de outra pessoa"

Outro episódio de ameaça por parte dos policiais foi contra a família de Dannys Ronnys. A  pessoa ouvida pela reportagem alegou ter sido abordada nessa terça-feira (11) e disse que teve "a casa inteira revirada". De acordo com o parente, ele tem medo de ser perseguido por um crime que não cometeu.

"Os policiais chegaram dizendo que queriam me ajudar, que eu falasse onde o Ronnys estava. Aí depois quando disse que não tinha notícia dele eles falaram que, se eu não quisesse ajuda, da próxima vez eles já não vinham na minha casa só para conversar", conta.

O familiar destacou que enquanto os agentes iam em todos os cômodos da casa diziam: "se a gente encontrar alguma coisa aqui, já sabe, né", em tom de ameaça. A busca, segundo o entrevistado, teria acontecido na frente de uma criança de dois anos de idade.

A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Secção Ceará disse não ter recebido formalmente a denúncia. Por meio da presidente da Comissão, Leila Regina de Souza, a OAB se posicionou dizendo ser "importante lembrar que casa é asilo inviolável, ou seja, ninguém pode entrar sem o consentimento do morador, havendo ressalva em caso de flagrante delito, desastre ou determinação judicial durante o horário diurno. Assim, caso isso esteja acontecendo é preciso formalizar a denúncia junto às diversas estruturas garantidoras de Direitos, sobretudo, Ministério Público, Defensoria Pública e comissões de Direitos Humanos".

"É inadmissível que esse tipo de ameaça seja efetuada por agentes do estado. Vivemos sob a égide do Estado Democrático de Direito, é preciso denunciar esse tipo de prática que certamente não conta com o aval da direção da estrutura de segurança"
Leila Regina Paiva de Souza
Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-CE

O advogado Alexandre Sales, representante de duas das famílias ameaçadas pontua que: "A Constituição Federal no Artigo 5º Inciso XLV diz que pena não pode passar da pessoa do condenado, assim sendo o Estado não pode coibir ato ilegal com ilegalidade, o tratamento dado aos familiares dos acusados sejam eles presos ou foragidos tem que ser dentro dos ditames legais".

As famílias alegam ainda não terem feito boletim de ocorrência porque estão com medo

BUSCAS

A Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) informou que"não recebeu denúncia acerca de conduta inadequada de policiais penais". A Pasta disse por meio de uma nota que repudia qualquer ato que atente contra a dignidade humana e reafirma seu compromisso com a legalidade.

"A SAP também informa que age com total transparência e que toda e qualquer denúncia dessa natureza deve ser encaminhada e apurada pelos órgãos de fiscalização e controle da Segurança Pública", conforme trecho do posicionamento.

A reportagem também entrou em contato com a Polícia Militar do Ceará (PMCE), que disse não ter conhecimento acerca das referidas denúncias.

"Com base apenas nas informações repassadas, não foi possível identificar os policiais militares que, supostamente, teriam praticado os atos mencionados. Além disso, repudia condutas dessa natureza, pois não condizem com os valores da Corporação", comunicou a Corporação.

 

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