Justiça marca júri de acusados de matar turista que seguiu GPS e entrou em domínio do CV em Fortaleza
Visitantes do Piauí tentavam chegar a um hotel, quando dobraram em uma rua errada e foram parar na Comunidade do Oitão Preto. O caso ocorreu em agosto de 2024.
O júri popular dos três acusados de matar um turista do Piauí que seguiu um caminho indicado pelo GPS e foi parar na Comunidade do Oitão Preto, em Fortaleza, acontece no próximo dia 22 de junho. O carro do empresário Aldete Rogério Saldanha foi alvejado por integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV) após entraram em uma rua com uma "barricada", na madrugada do dia 22 de agosto de 2024.
Os réus são Francisco Kauã Lobato da Silva, o 'Cachorrinho', e Igor Victor da Silva Fernandes, o 'Igor Café'. A dupla foi pronunciada pela Justiça Estadual, ou seja, teve o julgamento confirmado, em 7 de outubro de 2025. Já a marcação do júri foi definida pelo magistrado Antônio Josimar Almeida Alves, da 2ª Vara do Júri, no último dia 20 de abril.
Os acusados serão julgados pelos crimes de homicídio qualificado e dupla tentativa de homicídio qualificado, além de roubo, corrupção de menores e organização criminosa.
Um terceiro réu também foi denunciado e pronunciado, mas teve o processo desmembrado e já foi julgado sozinho no dia 27 de abril deste ano. Raphael Feitosa Paiva, o 'Raphael Café', foi absolvido de todas as acusações pelo Conselho de Sentença da 2ª Vara do Júri, e teve sua soltura expedida pela Justiça.
Para o segundo júri, foram intimados os sobreviventes do ataque, João Paulo Henrique de Freitas, e Antônio Damilton Rodrigues da Silva, além de outras testemunhas que moram no Piauí.
O caso ganhou repercussão nacional e, na última semana, foi relembrado no documentário "Territórios - Sob o Domínio do Crime", da Globoplay. Na produção, o Ceará é apontado como um dos estados em que diferentes facções criminosas exercem controle de territórios.
'É um milagre ter ficado para contar a história'
Em entrevista ao Diário do Nordeste, o sobrevivente Antonio Damilton, que era passageiro do carro alvejado por tiros, conta que foi um "milagre" ele e o outro amigo terem sobrevivido para "contar a história". O empresário informou que deve acompanhar o júri por meio de videoconferência e diz esperar que a Justiça seja feita.
"Reviver os momentos é muito tenso. A gente espera que seja feita justiça, porque, se você for ver como tudo aconteceu, foi somente por motivos banais. Não há nada que justifique o que foi feito", declarou.
No dia do crime, Damilton e João Paulo não foram atingidos pelos tiros e conseguiram sair do carro e correr em direção a um beco com a ajuda de uma idosa. Eles conseguiram chegar a uma avenida e encontraram uma composição da Polícia Militar.
"O que passou na cabeça é que a gente não conseguiria sair vivo, pela quantidade tiros que foi dada", comenta.
Turista seguiu GPS
O turista, identificado como Aldete Rogério, e outros colegas estavam a caminho de um hotel e estavam na Capital cearense para participar de um evento para fazer negócios. Eles haviam saído em uma caminhonete com placas de Teresina (PI), e seguiam o GPS para chegar ao hotel.
Antes de conseguirem chegar ao local, o motorista do carro perdeu um acesso e acabou entrando no Oitão Preto. No local, estariam 'Cachorrinho', 'Igor Café', 'Raphael Café' e uma adolescente não identificada. Os criminosos haviam colocado uma barricada para dificultar a circulação pela região, mas o turista não parou o carro.
Segundo as investigações policiais, os turistas se depararam com "pessoas que estavam fazendo uso de entorpecentes na entrada da comunidade", que "passaram a arremessar pedras na direção do veículo". "Ao tentarem fugir, as vítimas entraram ainda mais na comunidade e ultrapassaram uma barricada, que dificultava a circulação na via", diz o documento.
Os criminosos começaram a atirar contra a caminhonete, e a vítima, que estava no banco de trás, foi atingida e morreu ainda dentro do veículo.
A denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE) aponta que as vítimas eram empresários do ramo de autopeças. Eles levavam uma quantia de R$ 8 mil em dinheiro vivo, que foi roubada pelos executores do crime.
Defesa diz que faltam provas
Nos memoriais finais do processo de instrução criminal, a defesa de Francisco Kauã Lobato da Silva e Igor Vitor da Silva Fernandes disse haver falta de provas. Os sobreviventes "descreveram a dinâmica (barreira, tiros, fuga), mas não identificaram qualquer atirador" e "não reconheceram sexo, cor da pele ou traços fisionômicos" dos criminosos, segundo o documento.
"A análise conjunta de todos os elementos constantes dos autos revela que não há substrato probatório mínimo capaz de sustentar um decreto condenatório contra Igor Victor (e Francisco Kauã). A jurisprudência pátria é pacífica no sentido de que a condenação deve estar amparada em prova robusta e harmônica, jamais fundada em indícios frágeis, boatos comunitários ou reconhecimentos eivados de nulidades formais", indicou a defesa.
O Diário do Nordeste solicitou um posicionamento atualizado à defesa dos réus, após a marcação do julgamento, mas não recebeu resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.