Técnico de sanfona faz história entre músicos

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Irineu José prefere chamar o instrumento de acordeom. Entre seus clientes, nomes de expressão do forró regional
Foto: Francisco Viana

Fortaleza. O instrumento é maravilhoso. Dele sai o som que agrada ao ouvido de muitos brasileiros, especialmente, dos nordestinos. No entanto, para que a sanfona esteja bem afinada, é necessário um cuidado esmerado. Se algo estiver errado, é preciso consertar. Para este trabalho meticuloso, o nome Irineu José Silva Araújo já é bastante conhecido dos músicos. O dom de ser técnico de sanfona, segundo ele destaca, foi uma herança do pai, Mário Araújo.

Natural da localidade de Macaoca, em Madalena, Irineu, desde pequeno, via o pai com a sanfona, consertando ou tocando. “Vendo a noite chegar, ele tocava e a gente dormia”, relembra.

Veio morar em Fortaleza em 1970, mas seu pai continuou no Interior. Somente cinco anos depois, também chegou à Capital. Em 1980, o pai faleceu. “Daí em diante, eu passei a consertar as sanfonas, abraçando a profissão de vez”. Como bom técnico, prefere chamar o instrumento de acordeom.

Além de trabalhar para cantores e bandas do Estado, ele também atende a músicos de Manaus, Belém e Recife. Entre os seus clientes, figuras como Waldonys, Sirano, Banda Líbanos, Calcinha Preta, Mastruz com Leite, Forró Saborear, Forró Real, entre outros.

Esses são nomes conhecidos no “mundo” do forró. Porém, Irineu fez questão de ressaltar que a “sanfona desenvolve qualquer estilo”. Segundo conta, há utilização do instrumento inclusive no jazz. “Estão partindo para o clássico também. A sanfona é dinâmica. Vai do profissional saber utilizá-la. Não serve só para o forró, pelo contrário, é completo para todos os ritmos”.

Neste saber como usar, o técnico ressalta a importância da teoria musical. “Tem muito menino novo já tocando sanfona, muita gente nova surgindo. Pena que a maioria não está voltada para o estudo. Eles acham que é só pegar uma música e pronto. É necessário ter, também, a teoria”.

Uma dica de Irineu para quem quer começar é não puxar o fole com muita força. “Os sanfoneiros precisam ter consciência de que isso não é preciso. Existem pessoas que, na empolgação, passam a puxar com mais intensidade. Dessa forma, vai desafinar mais rápido. O truque é trabalhar com mais calma e lembrar que nem sempre a força é essencial”.

Em sua opinião, a sanfona sempre vai ter espaço na música. “Hoje existe espaço para todos os gostos”. Mas lembra que, na década de 70 e 80, com a chegada da guitarra e do teclado, o espaço diminuiu. “O eletrônico tomou conta. A crise foi grande. Mas, atualmente, o pessoal descobriu o valor do acordeom. Os novos redescobriram a sanfona”.

´VELHOS SANFONEIROS´ - Publicação é resultado de palestra e pesquisa

Fortaleza. A professora Sulamita Vieira conta que a idéia de publicar o livro “Velhos Sanfoneiros” surgiu em 2006, quando foi convidada a abordar esse tema, em uma palestra no Museu do Ceará. Em seguida, o diretor do Museu, Régis Lopes, e o professor Gilmar de Carvalho propuseram que ela escrevesse um livro, para ser publicado na Coleção Outras Histórias. O lançamento aconteceu em dezembro do 2006.

Na realidade, a obra é fruto de uma pesquisa que Sulamita vem desenvolvendo há três anos sobre o “mundo da sanfona e dos velhos sanfoneiros”.

Ela conta que coletou material sobre a vida dos velhos músicos, abordando a sua iniciação na sanfona, o gosto pela música, os antepassados, as oportunidades, entre outros assuntos, realizando entrevistas com os próprios. “Alguns eu já conhecia. De vez em quando um amigo, gentilmente, me dá uma referência. Aqui e ali, um entrevistado me sugere nomes. É assim, como se uma história fosse puxando outra”.

O técnico de sanfona, Irineu Araújo, foi um dos seus colaboradores. “Conheci-o, nesta pesquisa. Ele é um profissional muito competente, autodidata e tem sido muito atencioso comigo, muito prestativo, me indicando nomes, fazendo intermediações. Enfim, lhe sou muito grata”, contou. Ela faz questão de destacar que “a pesquisa continua. Pretendo entrevistar ainda muita gente. Preciso dispor de mais tempo para isso, até porque há muitos sanfoneiros no Interior. É um trabalho que faço com enorme prazer”, ressalta ela.

Um dos pontos destacados por ela, sobre a conversa com os velhos sanfoneiros, é que “eles me falam de música numa perspectiva em que a idéia de mercado não é relevante ou não está em primeiro plano. Aliás, grande parte deles não olha para o ‘mundo da sanfona’ como um espaço profissional. Encontro, entre os meus entrevistados, agricultor, carpinteiro, motorista, relojoeiro, sapateiro, pequeno comerciante etc. Alguns vivem, sim, da música desde sempre. Outros a ela se dedicam, após a aposentadoria em uma atividade que lhes garantia o sustento e da sua família”, disse.

Mais informações: Técnico de sanfonas, Irineu José Silva Araújo. (85) 9986-6098

Evelane Barros
Repórter