Programa pioneiro de irrigação assegura produção da agricultura familiar no Ceará

A execução dos trabalhos chegou a 15% dos kits a serem instalados, mas onde está funcionando, os resultados são animadores

Legenda: O pequeno agricultor, geralmente, tem pouco acesso ao crédito bancário por falta de garantias
Foto: Honório Barbosa

Nesta época do ano, mais de 90% dos agricultores de base familiar não têm meios de produzir no sertão árido. As dificuldades impactam a segurança alimentar e nutricional das famílias e dos animais, uma vez que as reservas já começam a se esgotar.

Para mudar essa realidade, mesmo de forma parcial, em setembro do ano passado, começou a ser implantado o Programa de Irrigação na Minha Propriedade (PIMP). Cada projeto prevê a irrigação de um hectare de culturas variadas – capim, sorgo, grãos, frutas e hortaliças. É o agricultor que define o que quer produzir.

Um ano depois, os frutos já começam a ser colhidos e se não fosse a pandemia do novo coronavírus que atrasou o cronograma de implantação dos projetos de irrigação em dezembro próximo o trabalho no campo já estaria concluído, beneficiando os agricultores de base familiar.

As regiões do Salgado, Médio e Baixo Jaguaribe, Sertão Central e Centro-Sul cearense são beneficiadas nessa primeira etapa. O PIMP só conseguiu executar 15,3% do cronograma e definir 50% de todos planos. A ação foi contratada por meio de convênio firmado entre a Ematerce e o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), no valor de R$ 8 milhões, para elaboração e instalação de 1345 kits de irrigação.

O prazo final previsto no convênio é dezembro próximo. Até o momento, foram concluídos 205 projetos em 38 municípios e contratados outros 680.

Em face dessa situação, a Ematerce vai solicitar em dezembro próximo um aditivo de prazo de pelo menos um ano por causa da pandemia que paralisou as ações no campo por mais de seis meses.

Na localidade de Faé, zona rural de Quixelô, os agricultores Gilson Pereira e Francisco Gomes se uniram e dividiram informalmente um kit de irrigação do projeto e plantaram sorgo forrageiro para alimentar o rebanho de 10 vacas leiteiras. Ainda sobrou um pedaço de chão, onde foi feito o cultivo de feijão-de-corda.

“Foi a melhor coisa que apareceu, porque sem essa irrigação a gente não tinha essa silagem (forragem de sorgo) que está aqui na roça e alimentando as vacas que continuam dando leite”, explicou Gilson Pereira. A produção diária é de 50 litros de leite. “A gente já sofreu muito no tempo seco para dar comida aos bichos”.

Ajuda ao pequeno agricultor

O coordenador de Irrigação da Ematerce, Nizomar Falcão, lembra que, para o pequeno agricultor, falta acesso ao crédito bancário por falta de garantia. “Sem dinheiro não há como implantar projeto de irrigação, mesmo em pequena escala”, pontuou. “Esse projeto está tendo boa receptividade e todos dizem que era para ter vindo há mais tempo”.

O agricultor de base familiar, Francisco Gomes, mostra-se satisfeito e vende a produção do leite para uma queijeira por R$ 1,80, um preço melhor 10% em relação ao ofertada por um laticínio. “A irrigação assegura a produção no verão e o gado alimentado continua dando leite, dando renda”, disse. “Não tenho o que reclamar”.

O objetivo do programa é fornecer, aos produtores, kits de irrigação modernos e com preços acessíveis. “O PIMP estimula a irrigação no campo e diminui os custos na produção”, pontua o diretor técnico da Ematerce, Itamar Lemos. “O equipamento reduz o consumo de água e de energia”. Em média, cada kit custa R$ 12 mil, mas o produtor só paga a metade, após dois anos de carência e em cinco parcelas anuais, sem juros e sem correção. “A contrapartida é uma forma de educação o agricultor para a importância de valorizar o sistema”.

Para Nizomar Falcão, o PIMP modifica a dura realidade vivida no segundo semestre no semiárido. “Sem produção a alimentação fica escassa, as reservas do primeiro semestre, período de chuva, chegam ao fim, daí a importância de se produzir durante todo o ano”, explicou. “É um projeto de largo alcance social”.

O técnico de campo da Ematerce, Joaquim Virgulino Neto, mostra que os agricultores em Quixelô optaram por produzir capim para formação de pastagem para o gado. “São 21 agricultores atendidos e o aproveitamento tem sido bom”, pontuou. “Temos mais de 30 produtores querendo porque viram o exemplo dos outros, que está dando certo”. O governo do Estado ainda não definiu se vai solicitar um segundo convênio para continuidade do PIMP.

Quero receber conteúdos exclusivos sobre as regiões do Ceará