Profissão foi herdada do pai
Crato. O bonequeiro Antônio Brito tinha tudo para não dá certo. Ainda menino, perdeu uma perna quando trabalhava numa padaria, em Juazeiro do Norte. O pai, Raimundo Brito, vivia de “arribada” de sítio em sítio, cidade em cidade, “botando boneco”, ou melhor, promovendo apresentações de Cassimiro Coco, ou Mamulengo, uma das artes mais populares da cultura nordestina.
O jeito foi acompanhar o pai nas suas andanças por este sertão afora. Com o correr do tempo, o pai dividia os espetáculos com o filho. Antes de morrer, com 70 anos, Raimundo chamou o filho e disse: “Vou deixar para você a única herança que recebi de meu pai, a arte de ‘botar boneco’. Dê prosseguimento a esta tradição da família”.
Com os bonecos a tiracolo, o jovem seguiu os mesmos passos do pai numa época em que o sertão estava sendo invadido pela televisão.
Os heróis do mamulengo, como o negro Cassimiro, João Redondo, Mané Gostoso e Maria Frogoió, estavam sendo substituídos pelos heróis virtuais, dentre eles, Homem Aranha, Batman, Superman e Mulher Maravilha.
Entretanto, o amor pela arte e a necessidade de sobrevivência foram muito mais fortes. Hoje, aos 41 anos, casado, pai de três filhos, é o mais famoso “bonequeiro” do Cariri.
Famoso
Antônio Brito já tem até programa na TV Verde Vale, no qual apresenta o personagem “Seu Dunga”, numa alusão a “Seu Lunga”, personagem folclórico do município de Juazeiro do Norte que se notabilizou pelas suas respostas bruscas.
Tony Bonequeiro, um Cassimiro Coco, como é conhecido, não ganha nenhum tostão pela apresentação do personagem. “Estou investindo no futuro”, afirma. Na verdade, o futuro está dentro de casa. Trata-se do o filho Pedro Henrique Brito, de 2 anos, que já demonstra interesse pelos bonecos. Tony espera que o filho dê continuidade à tradição que ele herdou do pai e também do avô.
Dramatização
O mamulengo é uma representação dramática por meio de bonecos, em um pequeno palco elevado, sendo que, atrás de uma cortina, esconde-se uma ou mais pessoas que fazem com que os bonecos ganhem vida, movimentando-se e falando. Tony Bonequeiro dá vida e voz aos bonecos de acordo com a personalidade de cada um. Os bonecos são animados pela mão do encenador da seguinte forma: o dedo indicador movimenta a cabeça; já os dedos médio e o polegar, os braços. Os bonecos (de pano e madeira, fabricados pelo próprio Tony) representam gente e bichos e participam de narrativas — falas e danças — de interesse social ou de puro entretenimento.
O tradicional mamulengo que Tony herdou do pai é uma família. O principal personagem é o Cassimiro Coco, um negro boêmio e namorador, irmão de Benedito, que namora com Maria Frogoió, filha de Chico Cabeludo e irmã de Florzinha. A galeria de bonecos é complementada pelo boi “baigado”, uma onça, um urubu e, ainda, um padre.
A dramatização é fundamentada no cotidiano sertanejo. Cassimiro Coco, além de namorador, é um cabra valente que enfrenta a onda e o boi e o pai de sua namorada, Chico Cabeludo, que não quer o casamento dos dois. No final, todos terminam unidos.
Mas, além da história tradicional, Tony improvisa outras cenas ao gosto do consumidor. Ele costuma participar de campanhas educativas com o objetivo de atingir a criançada. Também é convidado para festas de aniversário. Cobra de R$ 50,00 a R$ 100,00 por apresentação. Os bonecos entraram no Brasil sob a forma do presépio. A origem do nome mamulengo é controversa. Acredita-se que se originou de mão molenga - mão mole, ideal para dar movimentos vivos ao fantoche.
Mais informações:
Antônio Brito, conhecido por Tony Bonequeiro
(88) 3523.5608
(88) 9118.2350
(88) 9218. 0736
Antônio Vicelmo
Repórter