Os joões de São João: a devoção ao santo que batizou milhares de cearenses

O dia 24 de junho é a data dedicada pelo catolicismo a João Batista, o profeta que previu a chegada do Messias na pessoa de Jesus e que o batizou

São João Batista
Legenda: A devoção ao primo de Cristo vem de uma herança portuguesa e que se perpetua por gerações nas festas juninas
Foto: Shutterstock

Uma das poucas festas do cristianismo católico que celebram o nascimento de um santo ocorre neste 24 de junho. É a data tradicionalmente associada à vinda de João Batista ao mundo, profeta que previu a chegada do Messias na pessoa de Jesus e que o batizou.

A devoção ao primo de Cristo, principalmente no Nordeste, vem de uma herança portuguesa e que se perpetua por gerações de forma multicultural nas festas juninas.  

A fé no santo também vai chegar aos registros de nascimento com batismo de muitos joões.

No geral, na nossa herança colonial, tinha muito a ver com a crença generalizada no poder dos santos, época que o sobrenatural tinha muito mais poder que hoje. Ao dar o nome de um santo, os pais estão chamando a proteção dele”
Jucieldo Alexandre
Historiador e professor da Universidade Federal do Cariri (UFCA)

De acordo com o Censo de 2010 do IBGE, o Ceará possuía 148.903 pessoas com o nome de João, o que na época representava 0,8% de sua população com cerca de 8,45 milhões de habitantes.

Esse número dá uma incidência de 1.761,67 a cada 100 mil habitantes, sendo proporcionalmente o oitavo estado brasileiro que mais batiza seus moradores com o nome do antigo profeta. A liderança é do Rio Grande do Norte, com uma taxa de 2.284,17/100 mil habitantes.  

Capela de São João Batista no Sítio Riacho do Meio, em Barbalha
Legenda: São João Batista está no altar principal de duas capelas em Barbalha, uma delas na comunidade de Riacho do Meio
Foto: Luizi Rocha/Arquivo pessoal

Dá licença, Santo Antônio 

É impossível falar de Barbalha e não lembrar de Santo Antônio. A Festa do Pau da Bandeira em sua homenagem ganhou a dimensão de ser reconhecida como patrimônio imaterial brasileiro, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Contudo, na zona rural, São João Batista está no altar principal de duas capelas das comunidades de Riacho do Meio e Pelo Sina.

A Capela de São João Batista, no sítio Riacho do Meio, foi construída pelo casal Luís Coelho Sampaio e sua esposa Gertrudes Perpétua de Sá Barreto, há mais de 150 anos. “Os mais antigos diziam que ele mandou comprar estátua em Portugal”, conta a pesquisadora Luzi Rocha. Devido à devoção, muitas pessoas na família foram batizadas com o nome do santo, inclusive seu pai, João Saraiva Rocha.  

Também foi o caso do radialista e professor aposentado João Hilário Coelho Correia, que por duas vezes foi prefeito de Barbalha. Ele herda o “João” de seu avô, João Correia Sampaio, fazendeiro que morava no sítio Riacho do Meio. “Ele era daqueles tradicionais proprietários de engenho, numa área que ia da Cabeceiras até o Caldas. Aquela região era repleta de propriedades de parentes do meu avô, alguns dos quais se chamavam João. Todos esses nomes, creio, advieram da devoção ao santo”, acredita. 

Entre intendentes e prefeitos de Barbalha, quatro deles se chamaram João. Este nome só perde para Antônio, como o padroeiro, com sete gestores, no total. Porém, na região do Sítio São Joaquim, acima do Riacho do Meio, até o sopé da Chapada do Araripe, já na divisa com o Crato, os joões dominam. “Tios, primos, irmãos. Sempre foi mais comum, até mais que o próprio Antônio”, reforça o radialista. 

O radialista e professor aposentado João Hilário foi por duas vezes prefeito de Barbalha
Legenda: O radialista e professor aposentado João Hilário foi por duas vezes prefeito de Barbalha
Foto: Wesley Lima/Arquivo pessoal

O próprio “Hilário”, que o ex-prefeito traz como segundo nome, também é em homenagem ao Santo Hilário de Poitiers, já que nasceu entre os dias 13 e 14 de janeiro, que data a sua festa cristã. Porém, no seu caso, nenhum dos dois que o batiza traz importante devoção como outros santos. “Como cresci na cidade, acabei ficando com o Santo Antônio e o Padre Cícero, pois trabalho há muitos anos em Juazeiro. As pessoas de Barbalha sabem tão pouco a história de São João que não vai ter uma entranha histórica, mas sobrevive em função dos ancestrais”, acredita.  

Promessa 

Se preparando para a noite de São João, o agricultor João Fernandes Souza, de 69 anos, do sítio Serrote, em Milagres, se enfia no mato para buscar a madeira e acender a tradicional fogueira. Por preceitos ecológicos, só retira a matéria-prima de árvores mortas. Paralelo a isso, sua família prepara a tradicional “renovação” — espécie de encontro para rezar que, segundos os mais antigos, foi criada pelo Padre Cícero para exercitar a fé e realizar a partilha de alimentos com familiares e a comunidade.  

A herança do seu nome também é muito ligada à fé no profeta que batizou Jesus, mas também é resultado de uma tragédia: a morte do seu tio, também chamado João, assassinado quando era seminarista. 

A partir disso, sua avó, dona Ana Santana Freire, muito devota de São João Batista, definiu que dali em diante, todos os seus filhos que tivessem um menino eram obrigados a batizá-los de João. “Aí na nossa família é João que não acaba mais”, brinca o agricultor.

Sua mãe, a agricultura Maria dos Anjos Fernandes da Costa, abraçou a “causa” de sua sogra e além de cumprir, batizando seu filho com o nome ordenado, instituiu a renovação na noite de São João, dia 23 junho. Mesmo após sua morte, a família de João Fernandes mantém. “Fazemos a tradicional fogueira e ofertamos bolo de milho, pamonha e a reza”, detalha.  

A gratidão a João Batista também vem de uma importante promessa. Com seu filho muito doente até os seis anos de idade, Maria dos Anjos clamou por sua saúde. “Eu era pequeno, magrinho e vivia doente, com problema de garganta. Ela se apegou com São João”. E deu certo. Com altivez, construiu sua família. Fernandes possui duas filhas e duas netas, mas ainda aguarda um menino, outro netinho, para quem sabe, levar o "João" para frente.  

João Fernandes, agricultor de Milagres
Legenda: João Fernandes, agricultor de Milagres, tem o nome em homenagem ao santo e a um tio falecido tragicamente
Foto: Arquivo pessoal

Devoção

Por além de ser conhecido como santo dos casados, São João Batista ficou popular por proteger os enfermos e, nesta tradição, ao lado de São Sebastião — santo contra a fome, guerras e pragas — ganhou altares sertão adentro, principalmente no século XIX, consequência das mais variadas epidemias e doenças que atingiram o povo.

No distrito de Araripe, em Exu (PE), por exemplo, há uma imponente igreja construída há mais de 150 anos por Guálter Martiniano de Alencar Araripe, o Barão de Exu. Segundo Thereza Oldam de Alencar, que é bisneta e uma das herdeiras do templo religioso, a edificação surgiu a partir da seguinte promessa: se o surto de cólera, que assolou o Brasil na segunda metade do século XIX, não atingisse o Município, ergueria uma paróquia para São João Batista.  

Igreja de São João Batista, em Exu, Pernambuco
Legenda: No distrito de Araripe, em Exu (PE), há uma imponente igreja construída há mais de 150 anos em homenagem ao santo
Foto: Antonio Rodrigues

Em 1862 a doença chegou à cidade vizinha de Crato, já no Cariri cearense, e matou aproximadamente 1.200 pessoas em três meses. Para a época, era muita gente, já que a cidade possuía pouco mais de 8 mil habitantes. Temendo que acontecesse o mesmo em Exu, Guálter Martiniano, que era muito religioso, fez o pedido. E deu certo.

“Não houve um caso de cólera em Exu. Um verdadeiro milagre”, conta Thereza. Dois anos depois, começaram as obras com auxílio de construtores da Corte, do Rio de Janeiro. Já no dia 23 de junho de 1868, foi inaugurada a Igreja de São João Batista.

 

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