Incêndios em vegetação nos primeiros 10 dias de agosto já superam todo mês de julho, no Ceará

Dados do Monitoramento de Queimas do Inpe revelam crescimento de queimadas no bioma Caatinga

Legenda: A tendência é de que nos próximos meses o número de queimadas no Ceará cresça ainda mais
Foto: Wandenberg Belem

A temporada de queimadas no Sertão começou e os números podem exemplificar a intensidade - e velocidade - com que as vegetações estão sendo consumidas pelo fogo. No Ceará, nos dez primeiros dias deste mês, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já registrou 68 focos ativos de queimadas. Em todo o mês de julho passado, foram 63. A persistirem os índices atuais, a projeção média é de que agosto termine com mais de 200 registros.

O monitoramento de queimadas do Inpe registrou, em julho passado, destruição de 528 quilômetros quadrados e, em junho anterior, 79km². Um aumento significativo de 85%. Ao longo de 2019 foram observadas queimadas em uma área de 55.536km² e em 2018, 25.432km², ou seja, mais do que o dobro de 2018 para 2019. Ainda não há um dado parcial do que já foi consumido pelo fogo neste ano.

As queimadas estão se concentrando, neste início de mês, nas regiões Norte e Centro-Sul cearense. Neste domingo, uma área de 80 hectares de mata foi destruída pelo fogo no distrito de José de Alencar, na zona rural de Iguatu. Uma equipe do 4º Batalhão de Incêndio levou cerca de duas horas para debelar as chamas. Os bombeiros utilizaram bombas costais, abafadores e sopradores, além da ajuda de populares. 

Já em Santa Quitéria, na região Norte, dois focos se alastraram e perduram por quatro dias causando destruição de pastagem nativa e morte de animais. Populares e uma guarnição dos Bombeiros trabalharam para controlar as chamas.

De acordo com o coronel Nijair Araújo, comandante do 4º Batalhão de Bombeiros em Iguatu, apesar do alto número, os próximos meses devem ser ainda mais delicados. 

“Geralmente, o problema se intensifica a partir da segunda quinzena de setembro”, pontuou.

Ele explica que “a vegetação mais seca, altas temperaturas e baixas umidades favorecem o surgimento de queimadas" Ainda segundo Nijar, a maioria decorre de ação humana, criminosa”.

Degradação

O agrônomo e ambientalista, Paulo Maciel, critica a "cultura arraigada" entre produtores de fazer fogo no campo para preparar a terra para o plantio. Ele também mostra preocupação com a abertura, a cada ano, de áreas com matas nativas para formação de pastagens (plantio de capim) com o objetivo de alimentar o rebanho bovino, em substituição ao cultivo tradicional de grãos.

“Pouco se preserva e há muitas áreas ociosas sujeita a erosão. Muitos são incêndios propositais para facilitar limpeza de terrenos a partir da queima de restos culturais ou da mata nativa, e algumas queimadas fogem do controle”.

O secretário de Agricultura de Iguatu, Edmilson Rodrigues, também se diz preocupado com o alto número de queimadas já registradas em 2020. “Este ano veio com tudo. Nosso temor é a perda de controle e que o fogo possa chegar às casas, trazendo maiores problemas”, disse. “A cada ano a gente faz campanha de conscientização em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais", acrescenta.

Emergência ambiental

O Ceará decretou no último dia 27 de julho estado de emergência ambiental para reforço no combate aos incêndios florestais e queimadas, mais frequentes no segundo semestre do ano. A medida vale para os meses de julho a janeiro de 2021. Foi a primeira vez na história que isso acontece para combate aos incêndios florestais, já que, normalmente, a medida é adotada em outras adversidades, como escassez hídrica ou inundações. 

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