Festa do Senhor do Bonfim marca 270 anos de devoção em Icó

Embora não seja do padroeiro da cidade, a manifestação religiosa perpassa gerações no município do Centro-Sul cearense. A celebração vai até 1º de janeiro de 2020, quando são esperados cerca de 20 mil católicos em procissão

Legenda: Imagem esculpida em madeira foi restaurada para os festejos do Senhor do Bonfim
Foto: Foto: Honório Barbosa

No início da noite deste domingo (22), quando o sino repicar na torre do Santuário do Senhor do Bonfim, no Largo do Théberge, centro histórico de Icó, convidando os católicos para a abertura do novenário dedicado ao Senhor do Bonfim, serão assinalados 270 anos de uma das festas religiosas mais antigas do Ceará.

A celebração é campal, ao lado do santuário, e termina no dia 1º de janeiro, quando ocorre uma caminhada com a condução da imagem do Senhor do Bonfim (Jesus Crucificado), devendo reunir cerca de 20 mil católicos, moradores de Icó e de outras cidades.

O altar do Santuário passa por serviço de pintura e a imagem esculpida em madeira, vinda de Portugal há quase 300 anos, foi restaurada. Os operários concluem hoje o serviço. "Aqui há uma devoção muito marcante, fervorosa", pontuou o frade Juraci Barbosa. "Celebrar o Senhor do Bonfim é aprender que devemos sempre amar uns aos outros".

Esse é o sentimento comum da maioria dos devotos. "Jesus nos amou até o fim, deu a vida por nós", ressalta a professora aposentada, Eleneuda Souza, uma das organizadoras da festa. "Icó é conhecido pela forte expressão de fé que sua gente tem ao Senhor do Bonfim", finaliza ela.

Reencontro

O novenário costuma reunir cerca de cinco mil devotos a cada dia, que rezam e cantam em homenagem ao Senhor do Bonfim. "Esse é um período em que os filhos ausentes voltam à cidade e chegam visitantes de outros lugares para participar da festa", conta a dona de casa Janaína Carola, integrante do Conselho Paroquial do Santuário. "Todo o espaço se transforma, a movimentação é intensa", fala.

A abertura oficial dos festejos começa com a celebração de uma missa na Igreja da Imaculada Conceição, no bairro Monte, a partir das 17 horas. Em seguida, haverá uma caminhada em que os devotos conduzem a bandeira e réplica, que representam o Santo, até o Santuário, aonde haverá a bênção dos veículos.

A cada noite é celebrada uma novena e pela madrugada existe a caminhada em direção a um bairro da cidade. A aposentada Francisca Custódio, 77 anos, costuma participar de todas as celebrações. "Enquanto puder, tiver saúde, venho para cada novena", disse. "Essa é a minha fé".

A comerciária Geovânia Rodrigues foi ao santuário na antevéspera de início dos festejos para um momento de oração. "Costumo passar aqui para rezar, agradecer a Deus", explicou. "Participo da maioria das novenas porque todos os católicos daqui são devotos do Senhor do Bonfim".

O Santo não é o padroeiro do Icó, mas tem a maior festa religiosa. A padroeira é Nossa Senhora da Expectação (Maria grávida na expectativa de dar à luz ao filho, Jesus), cujo novenário terminou no último dia 18. "Icó é um tesouro religioso, com muitas igrejas históricas, seculares, preservadas em meio a um rico patrimônio material", ressaltou o frei Juraci Barbosa. "Nós, padres carmelitas, ajudamos a preservar essa história e mantemos viva a fé dos devotos".

O advogado Getúlio Oliveira lembra que após a chegada dos frades carmelitas, em 2011, houve um crescimento na participação dos católicos. "Sempre foi uma festa grande, mas tornou-se ainda maior", frisou. O pesquisador da história local, Altino Medeiros, ressalta a beleza das edificações dos templos religiosos. "Quem visita o centro histórico, as igrejas e os altares se encanta com a arte do barroco sertanejo, com um traço, belo, singular".

Desde 1749, a tradição é mantida em Icó na celebração ao Senhor do Bonfim. A fé é repassada entre as famílias. "Minha mãe me trazia para as novenas, ficava brincando na praça com outras crianças e hoje levo minhas netinhas", contou a dona de casa Luzia Alves, que mora a três quarteirões do santuário.

Há, ainda, os pagadores de promessa. A aposentada Marlene Costa, acompanha a procissão do dia 1º com os pés descalços. "É uma promessa de três anos por uma graça alcançada". Crianças, jovens e idosos seguem a tradição herdada de seus antepassados e a cada ano a fé se renova.

A festa tem forte impacto no varejo local e coincide com o período das celebrações de Natal e fim de ano. "As vendas crescem mais de 50% neste mês em relação ao anterior", disse a presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Icó, Rosa Pinheiro. O coordenador municipal de Cultura disse que o fluxo de visitantes é em torno de 5 mil pessoas.

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