Ex-parteira, de 104 anos, fez nascer mil crianças
Mãe Ana, de Várzea Alegre, dona Maroca, de Sobral, e Vovó Cristina, de Assaré, já passaram dos 100 anos. Suas lembranças, algumas ainda bem marcantes, são histórias de seca, da política e da vida do Interior. São conversas faladas de um jeito manso, mas sempre amoroso, próprio das mães que já são avós, bisavós e até tataravós.
Com 104 anos de idade, a parteira Ana Alves Bezerra, conhecida por “Mãe Preta” e “Mãe Ana”, carrega consigo os resquícios da escravidão e o estigma das maiores secas do Nordeste. Mas foi justamente a adversidade que a transformou em uma das personagens mais conhecidas e queridas do Nordeste: a parteira. Num raio de 20 quilômetros do Sítio Juazeirinho, Município de Várzea Alegre, onde ela mora, todos a tratam como mãe. Pelas suas mãos nasceram mais de mil crianças que se espalharam por todo o Brasil e no exterior, como a médica geriatra, Paula Mary Correia Bezerra, que trabalha no Hospital dos Veteranos de Guerra, em Miami (EUA). O primeiro parto foi feito num campo de concentração dos flagelados. “Era um grande galpão, onde a gente escapava da fome”, diz Mãe Preta, lembrando os gemidos de uma velha ex-escrava que tentava sobreviver.
O objetivo dos campos era evitar que os retirantes alcançassem Fortaleza, levando “o caos, a miséria, a moléstia e a sujeira”, como informavam os boletins do poder público à época. Naquele ano, criou-se o campo de concentração (era assim mesmo que se chamava) do Alagadiço, nos arredores da Capital cearense, cenário do livro de Rachel de Queiroz, que chegou a juntar oito mil esfarrapados, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados.
As lembranças tristes das secas ainda estão presentes no subconsciente de Ana que, no meio da entrevista, pergunta se ainda vai chover. “Se não chover, tá tudo perdido, é tristeza e a desgraça é geral”, adverte, com voz grave e forte. Seu genro, Cícero Clementino, primo do compositor Zé Clementino, recentemente falecido, avisa que vem chuva no nascente. Mãe Preta retoma a conversa e diz: “Graças a Deus”.
“O campo de concentração era o inferno dos vivos”. Com esta frase, ela descreve um dos piores momentos de sua vida. Saiu de lá com um filho na barriga e a roupa do corpo, em companhia do marido amado, que morreu, cinco anos depois, em conseqüência do coice de um burro. O filho, hoje com 90 anos, mora no Estado do Pará. Com a morte do esposo, que era romeiro do Padre Cícero, Ana enfrentou sozinha a vida aperreada de sertaneja. Um forasteiro quis casar com ela. Mas o pai aconselhou a pedir os conselhos do Padre Cícero que, segundo Ana, teria dito: “não case com quem você não conhece. Quem sabe se não é um ladrão ou criminoso? Volte para casa para cuidar dos seus três filhos”.
O conselho do “Padim” foi atendido à risca. Ana dispensou todos os pretendentes. Mas a seca de 32 a empurrou novamente para o campo de concentração. “Um curral onde a gente era tratada como bicho bruto. Mas era melhor do que ficar em casa, esperando a morte”, afirma. Foi lá que ela se viu obrigada a fazer o primeiro parto. Terminada a seca, voltou para o Sítio Juazeirinho, com as marcas do sofrimento e o “diploma” de parteira.
O sofrimento fortaleceu o espírito de luta de Ana Alves que dividiu o seu tempo entre o trabalho na agricultura, a fabricação de potes e panelas e o atendimento a parturientes. Passou as madrugadas nos pés das camas de varas do sertão, à espera do nascimento de mais um “filho”. Atravessou rios cheios, com água na cintura, para salvar uma vida. Além de não cobrar um tostão pelo trabalho, ainda levava roupas e alimentos para as pacientes mais carentes.
Foram 63 anos de sofrimento, que era recompensado pelo milagre da vida que brotava de suas mãos calosas. O último parto foi feito em 1995. A criança, Francisco Cláudio Ferreira, hoje com 10 anos, todos os dias pede a bênção a Mãe Preta. Cláudio repete o gesto de uma legião de varzealegrenses que a têm como mãe.
Aos 104 anos de idade, numa cadeira de rodas e ouvindo com dificuldade, Mãe Preta continua lúcida, ao lado da neta Josefa Alves da Silva, conhecida por Juraci, 65 anos. “No mês passado, ela foi receber o dinheiro da aposentadoria na garupa de uma moto, a 14 quilômetros de distância”, conta Juraci, acrescentando que, nestes últimos dias, ela perdeu as forças nas pernas, mas não quer nem ouvir falar em morrer. No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, Ana foi homenageada pela Prefeitura de Várzea Alegre. Cercada do respeito e admiração de seus conterrâneos, Mãe Preta se tornou o símbolo da coragem e do sofrimento da mulher varzealegrense. O peso da idade não lhe tirou a coragem de viver. Só vai quando Deus quiser. “Mesmo assim, é dois tangendo e um puxando”, diz, brincando.
Antônio Vicelmo
sucursal Crato