Desertificação avança em países da América Latina

Pesquisadores de Portugal, Itália, México e Espanha, entre outros países, estão em Sobral discutindo o tema

Sobral.
Países da América Latina como Brasil, Chile, Argentina e Uruguai apresentam áreas em intensos processos de desertificação. Fatores sociais, econômicos e históricos devem ser considerados neste fenômeno crescente de degradação ambiental. A semiaridez não pode ser considerado como único fator para ocorrência do empobrecimento dos solos.

Durante três dias, o Centro de Convenções de Sobral estará concentrando os principais estudos sobre a temática, e apresentando soluções FOTO: JÉSSYCA RODRGUES

Estas, entre outras questões, foram apresentadas ontem, durante o primeiro dia da programação da I Conferência Científica da Iniciativa Latinoamericana e Caribenha de Ciência e Tecnologia (Ilacct) para Implementação da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (UNCCD), que acontece até amanhã no Centro de Convenções de Sobral.

O evento reuniu somente ontem um público flutuante de cerca de 500 pesquisadores de diversos países, além de professores e estudantes de universidades de todo o Estado.

Segundo o coordenador da UNCCD, Heitor Matallo, o Ilacct é de suma importância não apenas para o cenário local, mas para todos os países. Trazê-lo para Sobral foi uma grande conquista. "Sobral é uma cidade muito importante do ponto de vista cientifico no cenário internacional", disse ele.

Heitor explica que a América Latina possui muitas áreas em processos intensos de desertificação. As pesquisas apresentadas e temas discutidos possuem sempre uma boa base histórica. "Com a falta de um forte apoio a longo prazo, acabamos sempre retomando algumas discussões de cinco, seis anos atrás, mas agora com os dados atualizados".

Ele avalia que muitas pesquisas que estão sendo mostradas durante a conferência podem ser praticadas no dia a dia de parte da população. "O projeto Base Zero, do engenheiro mecânico José Artur Padilha, por exemplo, é a reunião de uma série desses elementos aplicados dentro de uma propriedade que se tornou sustentável".

Cursando Mestrado em Geografia e formado na área pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), o acadêmico Valdelúcio Nascimento Fonseca possui hoje um estudo sobre as influências do uso e ocupação da cidade no clima de Sobral.

"Já estou com seis meses de pesquisa e deve durar dois anos no total. Dentro de uma das abordagens será tratada a desertificação como fator social", adianta ele.

Segundo a professora Isolanda Caracristi, que participará da palestra sobre "Análise Ambiental Geográfica na Compreensão da Relação entre Uso e Ocupação de Espaço, Degradação Ambiental e Processo de Desertificação no Semiárido Brasileiro", a semiaridez não deve ser considerado único motivo para a área sofrer um processo de desertificação.

"Fatores socioeconômicos e históricos devem ser levados em consideração. O uso e ocupação do território são fatores de bastante influência. Processos de degradação ambiental podem se tornar processos de desertificação. Isso ocorre aqui não apenas em Irauçuba, que já é conhecida nacionalmente como uma área deserta, como também, em médio prazo, nas margens do Rio Acaraú".

Na sua avaliação, muitas políticas públicas não conseguem sair do papel. "O Ceará é um dos Estados que mais desmata e não compensa esse desmatamento. Precisamos de medidas que levem em consideração nossos aspectos culturais. Políticas efetivas para a qualidade de vida do sertanejo", defende ela.

A degradação da mata ciliar do rio Acaraú está bastante avançada. Segundo aponta, a recuperação dessa vegetação pode ser um dos projetos efetivos para ser implantado na cidade.

Terras áridas

O primeiro evento dentro da programação de ontem foi a Conferência de Destaque das Terras Áridas e Semiáridas no contexto global, com o representante do Institut de Recherche pour le Développement (IRD), o francês Richard Scadafal.

Ele destacou alguns pontos do cenário mundial como dados de desertificação atual de alguns países. Apontou que, no Chile, 62% do território nacional possui problemas devido ao fenômeno. No Peru, 3% do solo está desertificado. No Uruguai, 30% do território possui indicadores nesse sentido. Já na Costa Rica, já atinge 20%. "No mundo existem 2,6 milhões de pessoas que trabalham com a agricultura. 52% do território usado é afetado por problemas de degradação de terra cujo principal é a desertificação".

Ele destacou ainda que o Produto Interno Bruto (PIB) é quase 50% inferior ao PIB de países que estão localizados em terras não secas. "Esse problema tem importância mundial. Sob a expansão da agricultura, 20% das terras sob irrigação tem problemas de salinização do solo. 30% das pastagens têm problemas de desertificação", destacou.

O Ilacct foi criado em 2009 com o objetivo de organizar o conhecimento científico sobre as questões referentes ao desenvolvimento sustentável das regiões secas da América Latina e Caribe. Em particular, referente ao combate à desertificação, de forma a disponibilizar as pesquisas aos tomadores de decisões. A idéia é alertar as autoridades sobre a necessidade de construção de políticas mais claras e eficazes para as regiões da seca.

JESSYCA RODRIGUES
COLABORADORA

Quero receber conteúdos exclusivos sobre as regiões do Ceará