Cooperativas cearenses investem no 'delivery' e têm aumento nas vendas durante a pandemia

As feiras livres estão proibidas de funcionar para evitar a propagação do novo coronavírus. Diante da crise, produtores e produtoras cearenses se reivindicam para escoar a produção.

Caroá
Legenda: A Cooperativa Caroá - primeira formada por jovens na região do Vale do Curu, traz em seu catálogo alimentos orgânicos produzidos por pequenos agricultores e agricultoras de cinco municípios cearenses.
Foto: Arquivo Adel

Das dificuldades enfrentadas para continuar comercializando insumos da agricultura familiar durante o isolamento social, necessário por conta da pandemia da Covid-19, pequenos produtores de diferentes regiões do Ceará que utilizam a produção agroecológica, encontraram a fonte para empreender e se adaptar ao novo modelo econômico. Com vendas pela internet e entregas ‘delivery’, cooperativas da agricultura familiar encontraram uma forma de escoar a produção e se prevenir contra o novo coronavírus.

Segundo a Plataforma IntegraSus, da Secretaria da Saúde (Sesa) do Ceará, atualiza às 9h46 desta quarta-feira (2r), o Estado já passa de 99,3 mil casos da doença e contabiliza 5.742 óbitos.

Desde março, as feiras livres estão proibidas no Ceará com o objetivo de evitar aglomerações e a propagação do vírus. Com dificuldade para vender seus produtos, pelo menos três iniciativas - no Maciço do Baturité, Vale do Curu e Vale do Jaguaribe, se organizam para facilitar a comercialização dos insumos agroecológicos a um preço acessível e com medidas de higienização adequados. O Sistema Verdes Mares conversou com os agricultores e agricultoras envolvidos para conhecer a realidade, desafios e conquistas durante este momento.

“Do Chão Maciço”

No Maciço do Baturité, a gastrônoma e produtora familiar Izamara de Paula, 28, passou a contar com o auxílio da tecnologia para vender seus doces artesanais, pães, bolos e bombons que usam como base a banana, negócio que mantém com o esposo, Leo Vasconcelos, no Sítio Jordão, na cidade de Baturité: “Essa ideia surgiu a partir da necessidade. Nossa comercialização (da produção familiar) ocorre mais em feiras e, na pandemia, foi reduzida drasticamente”.  

Ela faz parte da Rede de Agricultores Familiares do Maciço de Baturité, que lançou o ‘Do Chão Maciço’, com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Ceará), com o objetivo de levar alimentos agroecológicos para a mesa do consumidor durante a pandemia. O fomento veio do Escritório do Sebrae na região. O nome: ‘Do Chão Maciço’ faz referência ao solo do Maciço, de onde as comunidades retiram seu sustento

O projeto consiste em uma plataforma on-line onde o usuário pode acessar 120 produtores e receber os pedidos em casa. No catálogo estão hortaliças, frangos, ovos caipiras, mel, queijo, temperos, e doces e bolos de frutas da região. 

Projeto no Maciço
Legenda: A gastrônoma Izamara de Paula faz parte da Rede de Agricultores Familiares do Maciço de Baturité e passou a contar com o auxílio da tecnologia para vender seus doces artesanais, pães, bolos e bombons que usam como base a banana, negócio que mantém com o esposo.
Foto: Arquivo Pessoal

“"Pelo projeto, o consumidor consegue ter acesso a nossos produtos por meio das midias sociais. Como produtora, está sendo muito importante. Nós tomamos todas as medidas higiênicas e conseguimos estar chegando no consumidor. Estamos conseguindo manter uma renda boa e o cliente está tendo acesso. Abriu-se um leque de possibilidades”, aponta Izamara.

Segundo ela, os clientes preenchem um formulário e entram em contato com o produtor. As entregas são feitas, geralmente, nos dias 1º e 15 de cada mês. “Há a possibilidade de entregas em outras datas. Isso pode ser conversado [entre as duas partes]. A previsibilidade das datas é para haver uma melhor organização”, explica. “Desde março, o Sebrae Escritório Regional iniciou a organização das plataformas para facilitar o comércio”.

Ao todo, sete cooperativas do Maciço do Baturité fazem parte do projeto de fomento - como a Cooperativa do Agricultor Familiar de Ocara (COOAF) e a Feira Agroecológica de Baturité. As entidades estão reunidas em um cartão virtual, que pode ser acessado gratuitamente. As entregas são realizadas, também, em bairros de Fortaleza e, segundo Izamara, a ideia é seguir com o projeto mesmo após o fim do isolamento social.

  • Contato: (85) 99133 4490

Maciço do Baturité
Legenda: O projeto “Do Chão Maciço”, da Rede de Agricultores Familiares do Maciço de Baturité, é uma plataforma on-line onde o usuário pode acessar 120 produtores e receber os pedidos em casa.
Foto: Arquivo Pessoal

Caroá

Na Grande Fortaleza, a Cooperativa Caroá - primeira formada por jovens na região do Vale do Curu -,  traz em seu catálogo alimentos orgânicos produzidos por pequenos agricultores e agricultoras de Pentecoste, São Gonçalo do Amarante, Pindoretama, Trairi e São Luís do Curu. Atualmente, a entidade atende mais de 200 clientes, por semana, dos municípios de Fortaleza, Caucaia, Maracanaú, Eusébio, Paracuru e, desde a última semana, Pentecoste.

Todas as segundas-feiras, a lista de produtos para venda fica disponível no site oficial da Caroá. “A gente ainda passou as três primeiras semanas (quando decretado o isolamento) sem comercializar, e os clientes já estavam cobrando bastante. Ficamos com medo de fazer por delivery, mas acabamos começando”, lembra Vitor Esteves, agricultor e diretor executivo da Caroá. Ele reside em São Gonçalo do Amarante, de onde organiza as vendas.

"Faz parte da nossa filosofia levar o ambiente saudável para todos os públicos. [Com o delivery], conseguimos descentralizar o nosso serviço. Aumentou a quantidade de vendas e público atendido, e também a necessidade de produção”. 

A maior parte das vendas ainda é feita para Fortaleza, que contava com a Feira Caroá presencialmente e que, agora, recebeu o incremento “Em Casa” no nome. “Entregamos duas vezes na semana e temos uma taxa de entrega”, explica. “Assim que é feito o pedido no site, fecho tudo para cada produtor. Eles trazem e a gente realiza a entrega. Usamos muito o critério se a pessoa está cumprindo a quarentena”, conta. O lucro fica quase integralmente com os agricultores.

  • Contato: (85) 99997-8674

Caroá
Legenda: Atualmente, a Feira Caroá em Casa atende mais de 200 clientes por semana de sete municípios. Na foto, Rayssa Duarte, companheira e uma das fundadoras da Cooperativa.
Foto: Arquivo Adel

Apoio

Assim como acontece na Caroá, jovens de outras cooperativas cearenses são atendidos pelo Programa Jovem Empreendedor Rural (PJER), da Agência de Desenvolvimento Econômico Local (Adel). Durante o distanciamento social, a Adel vem apoiando de forma on-line iniciativas rurais de 11 municípios. A Adel atua em todo o Nordeste com o objetivo de estimular o desenvolvimento local com o protagonismo de jovens de comunidades rurais.

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Segundo a Adel, o acompanhamento está acontecendo por três vias: assessoria virtual, que até maio, realizou 370 sessões; produção de conteúdo por meio das redes sociais; e plano de contingência financeira, por meio do Fundo Veredas (microcrédito da instituição, onde os beneficiados podem fazer negociações de prazos e dívidas por 90 dias). Segundo a Agência, a implementação do plano tem permitido que os empreendedores se organizem diante da crise.

CooperBoa

Em Boa Viagem, a Cooperativa Agropecuária de Boa Viagem (CooperBoa) chega a anunciar mais de 90 produtos agrícolas pelo site e aplicativo disponível para Android e iPhone. “Preparamos os produtores para fornecer o Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar) nas escolas, mas, com as instituições fechadas, eles nos solicitaram uma solução”, explica o secretário da Agricultura e Pecuária da cidade, Ronilson Abreu.

Os pedidos são feitos pelo celular e os produtos encaminhados à Lojinha do Aplicativo - um espaço onde são guardados os alimentos. A partir de então, acontece a entrega por delivery ou no próprio local, com as visitas agendadas e com número reduzido de pessoas. “No decorrer desse processo, as pessoas também começaram a entrar na Cooperativa. Compensa financeiramente. Com o aplicativo, eles estão vendendo diretamente para o consumidor".

“Não aceitamos o produto se for produzido com o defensivo químico. No município, adotamos uma fabricação de defensivos naturais à base de plantas. Para o algodão, já utilizávamos os defensivos agroecológicos e incorporamos isso à cooperativa. Acredito que está sendo bom para os produtores”, avalia o secretário.

Ainda em março, a plataforma on-line e gratuita foi criada para concentrar os produtores interessados. O serviço, que contou com a parceria da Prefeitura de Boa Viagem e Sebrae, foi expandido com o aplicativo, que custou R$ 150 para ser desenvolvido.

Em Boa Viagem
Legenda: Os pedidos são feitos pelo celular e os produtos encaminhados à Lojinha do Aplicativo - um espaço onde são guardados os alimentos. A partir de então, acontece a entrega por delivery ou no próprio local, com as visitas agendadas e com número reduzido de pessoas.
Foto: Arquivo Pessoal

“Chamamos todo mundo e foi um sucesso. São 54 cooperadores (da CooperBoa) e 30 da agricultura familiar, de feirantes da Feirinha da Agricultura Familiar e de produtores dos assentamentos”, explica Abreu.

Acredito que hoje tivemos um aumento em torno de 60% em relação a antes da pandemia. Temos produtos que estão vendendo mais, como o queijo, e produtos que cresceram menos. Isso mostra o poder da agricultura familiar e que os consumidores absorveram o tipo de venda no aplicativo como muito cômodo”, argumenta, acreditando que, mesmo com o fim do distanciamento social, o modelo deve continuar funcionando.