Comunidade cigana sofre perda de seus costumes
Vivendo do comércio ambulante de animais, morando em barracas pelos campos e festejando em comemorações que duravam a noite inteira ao som do violão. Assim era a vida dos ciganos que chegaram a Sobral por volta de 1936. Quase setenta anos depois, as barracas foram trocadas por casas, a família cresceu devido aos casamentos com gente da terra e os costumes foram se perdendo ao longo do tempo. À frente da comunidade cigana de Sobral, desde sua chegada à cidade, o cigano Valdemar Pires Cavalcante, o Capitão Valdemar, 88 anos, lamenta a perda de identidade dos mais jovens, mas ainda carrega com muito orgulho a bandeira do povo que domina.
Cristiane Vasconcelos
sucursal Sobral
Nos bairros do Alto Novo e Sumaré, se concentram os pouco mais de 500 ciganos que fazem parte da Comunidade Cigana de Sobral. Dos cerca de 100, que chegaram no Município no início do século passado, se originou essa grande família. Os laços, antes mantidos somente entre ciganos, foram se alargando e os casamentos entre eles e a população “não-cigana”, tanto entre os homens e como entre as mulheres, acabaram unindo o destino desse povo à cidade. Como lembra o chefe Valdemar, com a formação das famílias, os ciganos foram, aos poucos, deixando as viagens de lado e se estabelecendo em casas e trabalhos fixos.
Ainda muito conservadores, uma das características mais marcante entre os mais antigos, os ciganos prezam pelo respeito ao chefe, aos mais velhos e à família. Com a evolução dos tempos modernos, a maior liberdade e exposição da mulher cigana, por exemplo, ainda é vista com maus olhos por eles. “Antes a mulher usava saias longas e rodadas. Hoje, elas andam semi-nuas por aí”, reclama Capitão Valdemar. Ainda assim, é possível ver ciganas que mantêm resquícios dessas vestimentas. Mais uma vez, são as mais velhas, como algumas irmãs de Valdemar, levando o costume adiante. Além disso, a desobediência e o distanciamento dos mais jovens das tradições ciganas também são motivos de preocupação para os chamados “cabeças” da comunidade. Um exemplo forte da perda para esta comunidade, conseqüência desse comportamento, é o risco de desaparecimento do dialeto falado por eles.
Por ser uma língua apenas oral, o dialeto era passado para as gerações mais novas por meio da convivência. Como vivem mais afastados atualmente, só se reunindo em datas festivas, os mais jovens já não aprendem mais a língua. Segundo o sobrinho do chefe Valdemar, Francisco Benoar Cavalcante, de 61 anos, “antes a gente não precisava ensinar o dialeto para as crianças, elas aprendiam com a convivência. Hoje, a gente ensina para aqueles que se interessam. Para fortalecer a cultura e não deixar ela morrer”.
Benoar, conhecido como Bena, se fixou em Sobral por volta da década de 70. Casado por três vezes, ele assume que os dois primeiros relacionamentos, com uma cigana (sua prima em 2º grau) e com uma sobralense, não deram certo. O primeiro porque “eu achava que não dava para ser decepcionado”, pensa o cigano. Já o segundo foi desfeito pois a esposa foi vista em “lugar muito inadequado para mulher”. No terceiro e sem filhos, Benoar diz que agora está tudo bem, pois tem uma mulher que o respeita e trata bem seus amigos. Perguntado sobre o futuro da comunidade cigana, Bena também expressa o mesmo medo da perda dos costumes pelos mais jovens. Mas, o cigano revela seu grande sonho, construir uma escola cigana no bairro para ensinar os costumes e o dialeto para a 5ª geração que já vive no local.
Para ele, o cigano é um povo muito inteligente e, dada a oportunidade, não há nada que ele não aprenda. “Eu só fui alfabetizado, mas me formei numa universidade que foi a principal para mim e minha família: a universidade da vida. Com obediência aos meus pais, filhos e a pessoa que me representava”, se orgulha Bena.
Longe do estereótipo de pessoas selvagens e perigosas, que muitas vezes a história criou desse povo, os ciganos de Sobral, apesar de serem bem receosos em se expor, mostraram uma nova imagem. Educado, preocupado com o rumo de sua extensa família e muito católico, Capitão Valdemar faz questão de mostrar uma pasta inteira de documentos que atestam sua boa conduta e de seu povo, pelos mais diferentes estados brasileiros pelos quais passaram.
“Antes de ir embora, eu ia procurar as autoridades para pedir um atestado de boa conduta. Meu maior orgulho é, hoje, ser considerado pela cidade”, assume Valdemar. “Vivemos de acordo com a terra que estamos”, afirma o Capitão, numa forma de demonstrar o respeito e o cuidado com os costumes do local que se fixam.
Benoar Cavalcante lembra quando chegavam nas cidades, ainda na época de nômades, quando viviam em barracas e, antes de entrar numa cidade, os ciganos aguardavam em campos fora do Município até que o chefe da comunidade fosse se apresentar às autoridades políticas e eclesiásticas pedindo autorização para armarem acampamento na cidade. Além do respeito aos costumes das cidades, a missa aos domingos e os casamentos católicos eram outro diferencial dos ciganos desconhecidos ainda pela maioria das pessoas.
Para Bena, muito ainda não se sabe sobre o povo cigano. Segundo ele, que hoje é o mais cotado para assumir a chefia da comunidade cigana de Sobral, após seu padrinho Valdemar, “nossa história vai começar a ser contada agora”, diz Bena se referindo a uma pesquisa que vem sendo realizada há dez anos por professores da Universidade Vale do Acaraú (UVA).
O cigano também tem outra mágoa. “Todo mundo tem seu dia na agenda, o motorista, a mulher, o índio, a criança. Só o cigano que não tem seu dia”. Assumindo ser profundo pesquisador da família cigana de Sobral, Benoar revela algumas características que defende serem únicas dos ciganos. “Não tem cigano preto. Se você encontrar algum negro, pode pesquisar as raízes dele que não vai ser cigano legítimo. E também muito dificilmente você encontra um cigano louro. Todo cigano tem nariz longo, cabelos e olhos castanhos e a pele é um pouco clara”, garante.
Mesmo com todos esses anos, a cultura dos ciganos ainda é alvo de preconceitos de algumas pessoas da cidade. Demonstrando não se importar com isso, os ciganos, decididos e impondo respeito, principalmente os mais velhos, mantém a força da tradição “nas rédeas” do chefe que conduz a comunidade com mão de ferro. Tanto nas dificuldades, quanto nas alegrias, Capitão Valdemar é sempre o primeiro a ser consultado. “Aqui é da água ao fogo. Tudo que precisam, me procuram”.
Já Bena, se assumir um dia a chefia da comunidade, afirma: “em roda de diálogo já falei que vai ser difícil vocês serem dominados por mim. Mas pode ser fácil também, se vocês forem para o lado que eu quero. Não é com estupidez, nem com valentia, é no caminho da verdade. Eu faço a trilha e vocês vão abrindo o caminho”.