A Umbanda em Limoeiro do Norte
Em todo o Estado do Ceará, o número de terreiros registrados na União Espírita Cearense de Umbanda é de 19.652
Limoeiro do Norte. Abrigando a sede da Diocese Católica na região do Vale do Jaguaribe desde 1940 e marcado por um proeminente catolicismo, Limoeiro do Norte abriga pessoas que podem se surpreender ao ficar sabendo que no município existem 11 terreiros de Umbanda, que popularmente são conhecidos pelo termo pejorativo de “macumba”. Estes terreiros estão registrados na União Espírita Cearense de Umbanda, que é o órgão jurídico-burocrático onde todo terreiro precisa se filiar para poder funcionar legalmente. No Ceará como um todo, o número de terreiros registrados na União é de 19.652.
A Umbanda é uma religião autenticamente brasileira que nasceu na década de 20, no Rio de Janeiro, e logo depois espalhou-se por todo o território do País. Seu cosmo religioso formou-se a partir de uma fusão entre elementos culturais diferentes, como espíritos e símbolos indígenas, o Espiritismo kardecista, o Catolicismo popular brasileiro e religiosidades de origem africana, daí fazer parte do conjunto de religiões chamadas de afro-brasileiras, onde também se incluem o Candomblé, o batuque, o tambor-de-mina, entre outros.
Em Limoeiro, os terreiros passam quase desapercebidos para grande parte da população, pois nenhum possui fachada com o nome do terreiro e nenhum se localiza nas ruas principais da cidade, o que denota a posição social que essa religião ocupa. Funcionando quase sempre nas periferias da zona urbana, situam-se predominantemente nos fundos das casas dos próprios pais e mães-de-santo. Além disso, dos 11 terreiros limoeirenses apenas quatro realizam gira, que é o culto umbandista aberto a todas as pessoas. Os quatro terreiros são o de Pai Gledson e o de Pai Salviano, ambos localizados no Bairro Luiz Alves de Freitas, o de dona Terezinha, na Cidade Alta, e o de dona Luíza, no bairro Casas Populares. Nesses terreiros há uma procura constante por “trabalhos” que visam resolver problemas de saúde, financeiros ou amorosos.
Os terreiros que não realizam giras dedicam-se somente à realização de trabalhos particulares. Entre eles podemos citar o terreiro de dona Leuda, muito conhecida por “botar baralho”, e o terreiro de Zé de Telvina, que exerce a função de pai-de-santo já há cinqüenta anos, sendo o umbandista mais antigo da cidade.
Não obstante eu tenha presenciado, enquanto desenvolvia minhas pesquisas, um grande fluxo de pessoas à procura dos serviços mágicos oferecidos nos terreiros de Umbanda limoeirenses. O último censo realizado pelo IBGE, no ano de 2000, apresenta que, dos 49.620 habitantes de Limoeiro apenas 11 declararam-se umbandistas. Este número, extremamente pequeno diante do quadro que presenciei, leva a supor que os pais e mães-de-santo foram os únicos que responderam pertencer à religião umbandista, levando-se em conta o número exato de 11 terreiros que Limoeiro possui registrados na União Espírita Cearense de Umbanda. Ora, em cada terreiro que realiza gira pude perceber uma média de quarenta freqüentadores semanais. Sem falar nas inúmeras pessoas de outras religiões, ou sem religião, que vão ao terreiro encomendar um trabalho particular para tentar resolver algum problema de sua vida.
Os sociólogos, antropólogos e historiadores que dedicam seus estudos sobre os fenômenos religiosos há bastante tempo já reconhecem o papel da religião como um meio pelo qual o ser humano ameniza suas angústias e sofrimentos. No mesmo sentido, a busca de práticas mágico-religiosas, como os trabalhos da Umbanda, é encarada como uma das formas em que o homem moderno encontra respostas para suas aflições cotidianas, para problemas que causam insegurança como o desemprego e a doença, não esquecendo da necessidade afetiva, que é posta em primeiro plano para muitos. Seja como for, quem pôr os pés em um terreiro de Umbanda vai se deparar com alguns elementos de influência da cultura africana que ainda só são possíveis de ser vistos devido a um grande poder de resistência às perseguições sofridas durante séculos. Durante o período colonial, a perseguição vinha da Igreja Católica, que posteriormente, no período republicano, deu lugar à Polícia.
Hoje, quando as religiões afro-brasileiras já têm direitos garantidos por lei, elas são duramente perseguidas pelas Igrejas pentecostais e neopentecostais. Assim, o preconceito sobre essas religiões não deve ser entendido como um fato atual, mas como uma construção histórica que se erigiu através de perseguições socialmente legitimadas.
KELSON OLIVEIRA*
Especial para o Regional
* É escritor e graduando em História pela Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (Fafidam-Uece)