Cansada, falta de ar e o pulmão não era mais o mesmo, diz fisioterapeuta jovem que teve Covid-19

A demanda por tratamento de reabilitação respiratória e motora cresce no Interior para pacientes que tiveram a doença, mas oferta dos serviços ainda é limitada

Foi graças às sessões de fisioterapia respiratória que Súria Viana se recuperou das disfunções herdadas da doença
Legenda: Foi graças às sessões de fisioterapia respiratória que Súria Viana se recuperou das disfunções herdadas da doença
Foto: Wandenberg Belém

“Fiquei me sentindo muito cansada, com falta de ar, e o meu pulmão não era mais o mesmo e precisei de fisioterapia”. A experiência desagradável foi enfrentada por Súria Monteiro Viana, 36 anos, fisioterapeuta, na cidade de Iguatu, que contraiu Covid-19 e se viu em uma situação inversa – passou de profissional de saúde que prestava serviços de reabilitação física e respiratória a paciente. “É uma doença muito séria, achava que ia melhorar e no outro dia, piorava”.

Foi graças às sessões de fisioterapia respiratória que Súria Viana se recuperou das disfunções herdadas da doença. A exemplo de outros pacientes, ela recebeu o atendimento em casa, graças a um projeto implantado em maio de 2020 por meio do Centro de Reabilitação de Fisioterapia de Iguatu (Crefi).

O serviço domiciliar ofertado pelo município é o único da região Centro-Sul e um dos poucos do Estado. “É mais seguro e favorável para quem não pode se deslocar, em particular os pacientes idosos”, pontua a coordenadora do Crefi, Dhébora Ricarte Barbosa.

Disfunções pós-Covid

Segundo levantamento da secretaria de Saúde de Iguatu cerca de 40% dos pacientes internados para tratamento de Covid-19 apresentaram “disfunções como fadiga, dispneia, dor torácica, fraqueza muscular”.

O aposentado, Valdeci Ferreira, 84 anos, que ficou internado no ano passado, em uma UTI, em estado grave, prefere não falar sobre os momentos vividos durante a internação, porque diz que ficou traumatizado, mas contou que “não conseguia andar e respirar direito depois que saí do hospital e foi graças a fisioterapia que melhoria bastante”.  

Outro aposentado, João Fernandes, 90 anos, venceu a doença, após dias internado em um leito de UTI em Iguatu. Agora em casa, recebe duas vezes por semana a visita de um fisioterapeuta e disse estar se sentindo bem melhor. “Foi horrível, triste, a idade e essa doença acabam com a gente, mas sou feliz porque confio em Deus, estou vencendo e os exercícios estão dando certo”.

João Fernandes, 90 anos, venceu a doença, após dias internado em um leito de UTI em Iguatu. Agora em casa, recebe duas vezes por semana a visita de um fisioterapeuta
Legenda: João Fernandes, 90 anos, venceu a doença, após dias internado em um leito de UTI em Iguatu. Agora em casa, recebe duas vezes por semana a visita de um fisioterapeuta
Foto: Wandenberg Belém

Para Thiago Alves, que é um dos sete fisioterapeutas que atende os pacientes com a chamada síndrome pós-covid em Iguatu, frisa que “depois de dez sessões, em média, os pacientes têm uma melhora substancial”.

O atendimento de fisioterapia começou quando surgiram os primeiros pacientes que apresentavam sequelas, após alta hospitalar. No início eram três profissionais, mas em agosto quando a demanda chegou ao pico da pandemia houve necessidade de disponibilizar mais quatro.

Hoje a equipe permanece com sete fisioterapeutas. O número de sessões pode ser ampliado se houver necessidade. “Houve casos de pacientes que ficaram assintomáticos ou tiveram casos leves e meses depois aparecem disfunção pulmonar, necessitando de suporte de fisioterapia”, pontuou o assessor técnico da secretaria de Saúde de Iguatu, Rafael Rufino.

Municípios que oferecem reabilitação respiratória

Na cidade de Sobral, polo urbano da região Norte do Estado, os pacientes, que tiveram Covid-19, após avaliação no Centro de Reabilitação Física e Auditiva, recebem atendimento especializado na unidade. Em média são disponibilizadas 15 sessões e o encaminhamento é feito por unidades básicas de saúde, mas não há serviço domiciliar.

Em nota, a secretaria de Saúde de Sobral frisou que “já foram atendidos 49 pacientes que apresentaram melhora significativa nos parâmetros de saturação, frequência respiratória e melhoria do condicionamento físico”.

A atual gestão municipal de Quixadá, no Sertão-Central, assumiu há 40 dias a administração, mas já reabriu o serviço de reabilitação fisioterapêutica. O atendimento é realizado por meio da Central de Regulação Fisioterápica (Crefi) para onde os pacientes que necessitam dos serviços são encaminhados.

Somente os casos de idade bem avançada ou elevada debilidade é que a sessão de fisioterapia é feita na casa do paciente. O serviço foi reaberto há duas semanas e ainda não dispõe de números de atendimento.

A secretaria de Saúde de Juazeiro do Norte informou que não há oferta de atendimento de fisioterapia para os pacientes pós-Covid que necessitam de exercícios de reabilitação motora e respiratória. Por meio de nota, a pasta esclareceu que “não descarta no futuro após contratação de profissionais aprovados em concursos e crescimento da demanda a oferta dos serviços”.

A assessoria da Prefeitura de Crato não informou até a publicação desta reportagem se há a prestação do serviço de fisioterapia por meio do SUS para pacientes que apresentam sequelas pós-covid e necessitam de suporte fisioterapêutico. 

A cidade de Horizonte, na Região Metropolitana de Fortaleza, é outra que oferece sessões de fisioterapia nas casas de pacientes mais graves, além de atendimento nas unidades básicas de Saúde (UBSs).

Especialistas defendem fisioterapia após doença

O médico cardiologista, Clécio Barbosa, destacou a importância da fisioterapia para evitar complicações cardiorrespiratórias, articulações e musculares durante a internação e frisou que a reabilitação motora e das funções respiratórias em pacientes que tiveram tratamento intensivo, receberam ventilação mecânica (foram intubados) e apresentaram disfunções “é fundamental e demonstra bons resultados”.

A fisioterapeuta, Ana Karine Gomes, que atende no Hospital São José, em Fortaleza, unidade especializada em doenças infectocontagiosas, e diretora do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito), defende a ampliação da oferta de atendimento fisioterapêutico. “A demanda triplicou nesse período de pandemia e as gestões municipais precisam sim oferecer o serviço que é importante na recuperação daqueles que apresentam disfunções respiratórias, pulmonar e de locomoção, por perda de massa muscular”.

Karine Gomes pontuou que “no cenário atual de pandemia o profissional de fisioterapia foi reconhecido e hoje não se concebe mais a sua ausência em uma UTI e enfermaria de forma permanente”. Ela pontuou que “infelizmente foi numa situação grave que a profissão passou a ser mais vista” e ressaltou que “ficou demonstrado que quem passa por sessões de fisioterapia se recupera melhor e mais rápido”.

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