Agricultor mantém vivo teatro de bonecos
Iguatu. A arte original do teatro de boneco ou mamulengo ainda resiste nas mãos do agricultor aposentado e ator de teatro de boneco, José Izaquiel Rodrigues, mais conhecido como “seu Zai”, 65 anos, morador do Sítio Cantinho da Barra I, na zona rural deste município. Sem saber ler, improvisa as narrativas cômicas e satíricas entre os diversos personagens que integram o seu acervo particular. Os bonecos ele mesmo cria, esculpe em madeira, pinta e manipula, dando vida à imaginação das histórias que fazem parte do imaginário popular e cultural do sertão nordestino.
No estilo de seu Zai, as apresentações dos bonecos devem ser feitas com a participação de músicos. Instrumentos como sanfona, zabumba, triângulo e pandeiro compõe o regional que anima o teatro de fantoches. “Fiz muitas apresentações, nos sítios de toda essa região, mas agora parei”, conta. “Até que dava muita gente. Era menino demais”.
Nos últimos três anos, seu Zai suspendeu as apresentações. “Resolvi parar”, disse. “Existem alguns convites de vez em quando e vou ver se volto a me apresentar”. A mulher dele, Expedita da Silva, entra na conversa. “Os bonecos originais quase ele não tem mais, mas esses aí ele fez na semana passada”, contou. A renovação do estoque seria um sinal de que o marido tem vontade de continuar na arte do teatro de boneco mamulengo?
Quando abre a sua mala fantástica, seu Zai vai tirando um por um dos personagens. O principal é Cassimiro Coco, tradicional, que está em todas as histórias, protagonizando situações diversas, com outros personagens: Maria Ciforosa, a namorada, Joana preta de Caruaru, soldado Setenta, padre, mãe, noiva, boi, cobra e até uma alma branca. Os bonecos saem e parecem ganhar vida, nas mãos do artista popular. Faz a alegria da criança, netos e vizinhos, que olham tudo com admiração.
O bonequeiro resolve pendurar um pano azul na sala de casa para fazer algumas encenações. Os netos gostam, dão risadas e pedem histórias. O avô, um pouco preocupado com as fotos, quase não dá atenção às crianças que param em frente da empanada.
O agricultor nasceu na cidade do Crato, mas aprendeu a arte com um artista em Juazeiro do Norte, Zé Francisco, que quase não lembra o nome dele. Veio para Iguatu em 1961. Trabalhou muitos anos na colheita de algodão. Mas somente na década de 1970, resolveu puxar da memória as apresentações que via no Cariri e criou os personagens e fez várias apresentações na zona rural. “Muitas coisas mudaram, mas as crianças gostam muito dessas historinhas”, disse. “É só começar a fazer”.
O ator de teatro de boneco, Cleodom de Oliveira, que pertence a uma geração nova, acompanhou a visita ao seu Zai no Sítio Barra I. Aproveitou para entregar um exemplar do livro “Cassimiro Coco de cada dia – Botando boneco no Ceará”, de Ângela Escudeiro, com dedicação. Afinal, ele faz parte da publicação fruto de uma pesquisa sobre o teatro de boneco. Oliveira destaca a arte de seu Zai. “É original e ele tem facilidade, mesmo sem curso, sem saber ler, interpretar vozes diferentes e criar as histórias”.
Projeto
Cleodom é um dos fundadores do Projeto Arte Criança, que desenvolve ações culturais e educacionais com adolescentes neste município. Há 20 anos, tem uma dedicação especial ao teatro de boneco. Possui um acervo de 40 bonecos, uma tenda e uma empanada que formam a Cia de Chocoalho de Bonecos. Faz apresentações em aniversários e em escolas. Tem muitas idéias e um projeto que precisa de apoio para sair do papel. Reunir quatro grupos de teatro existentes nesta cidade, incluindo o seu Zai, para realizar uma mostra cultural de teatro de boneco nas escolas e nos bairros. “Não podemos deixar essa arte desaparecer. Apesar do mundo tecnológico que rodeia as crianças, a cultura popular está viva no imaginário. Precisa apenas ser despertada”.
Honório Barbosa
Repórter