Lula de volta ao cenário eleitoral deve impor dilema a Camilo Santana no Ceará, avaliam analistas

Anulação das condenações do ex-presidente tende a movimentar estratégias de aliados e oposicionistas

Legenda: Na avaliação de especialista, a polarização entre Bolsonaro e Lula. que ocorre nacionalmente, tem um terceiro elemento em Ciro Gomes no Ceará
Foto: Ricardo Stuckert

anulação das condenações do ex-presidente Lula (PT) confirmada na quinta-feira (15) pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal (STF), deixando caminho livre para que ele seja potencial candidato em 2022, pode também ter repercussões no xadrez político no Ceará. Para analistas políticos, a volta do petista ao cenário eleitoral deve impor ao governador Camilo Santana (PT) um dilema já visto em pleitos anteriores.  

Pertencente ao grupo político liderado pelos irmãos Ciro e Cid Gomes (PDT) no Estado, Camilo terá que demonstrar habilidade mais uma vez, em um possível cenário que, emulando o que ocorreu em 2018, Ciro seja adversário, no pleito, de um candidato do PT à Presidência da República.

Desta vez, no entanto, está colocada a possibilidade de que o líder da legenda petista apareça nas urnas, e não mais o ex-ministro Fernando Haddad, como ocorreu há dois anos. 

Lula, ainda na quinta, com a decisão do STF, conversou com aliados, entre eles o governador cearense. "Um exemplo vivo de que toda luta por Justiça vale a pena. Sempre”, escreveu Camilo, nas redes sociais, após conversar com o ex-presidente por telefone.

Lula no páreo, e agora?

Na avaliação de cientistas políticos entrevistados pelo Diário do Nordeste, ter Lula novamente no cenário eleitoral inviabiliza ainda mais uma aliança entre PT e PDT no Ceará, uma vez que o governador já tentou, sem sucesso, unir o líder petista e Ciro Gomes. A participação de Camilo no pleito de 2022 também está em aberto.

Em paralelo, oposicionistas também se articulam. Para a cientista política Monalisa Torres, professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), parte da oposição ao governador tende a "repetir a estratégia do antipetismo, principalmente se o candidato ao Governo do Estado apoiado pelo grupo governista apoiar um eventual candidato do PT à Presidência da República". 

Análise 

Ela, que integra o Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem), da Universidade Federal do Ceará (UFC), analisa, contudo, que independentemente das escolhas do grupo governista,” Camilo sairá muito forte” do posto de governador.   

 “Lula não é carta fora do baralho, tem um recall muito positivo. O PT, sim, ainda sofre reflexos da Operação Lava Jato, mas Lula enquanto presidente ainda tem uma memória positiva, diferente da ex-presidente Dilma”, avalia a cientista política.  

Monalisa Torres observa ainda que, no primeiro mandato como governador, Camilo preservava proximidade maior com o grupo dos irmãos Ferreira Gomes. Agora, ainda que o petista se mantenha próximo da cúpula do PDT, ela considera que o chefe do Palácio da Abolição desponta de modo mais independente como liderança,.  

Em 2018, o governador foi reeleito com cerca de 80% da votação, angariando mais de 3,4 milhões de votos dos cearenses.  

Há ainda uma ponderação que deixa mais explícita a divergência partidária que poderá ter peso em 2022. Na capital cearense, por exemplo, o PT atua de modo divergente do que ocorre em âmbito estadual.  

Na Câmara Municipal, os vereadores petistas fazem oposição ao governo de José Sarto (PDT), enquanto na Assembleia Legislativa, por outro lado, as duas siglas estão juntas na base governista.  

Reações

Quase que imediatamente após a confirmação pelo STF de que Lula estaria com caminho livre para se candidatar em 2022, políticos cearenses se posicionaram sobre o assunto por meio das redes sociais.  

Para o cientista político e professor universitário Cleyton Monte, que também integra o Lepem, a movimentação era esperada. Ele pondera que no Ceará “nunca houve um sentimento antipetista como se tem no sudeste do Brasil, e a maioria das figuras ligadas ao Lula irão agora se aproximar mais dele, enquanto a oposição continuará criticando”.  

O cientista político concorda que, no xadrez em a política regional se mistura com a nacional, o fator “Ciro Gomes” acaba sendo determinante para as eleições do ano que vem. 

“A divisão política no Brasil atualmente é sobre Lula e Bolsonaro. Já no Ceará, são três partes, onde entra Ciro Gomes. Mesmo aqueles que apoiam o fim das condenações de Lula se manifestam a favor do Ciro; isso já é um reinício, uma fotografia do que a gente vai ter em 2022: três forças políticas, a maior sendo a do Lula - vimos isso na campanha passada”, opina o analista.  

O deputado Capitão Wagner e o senador Eduardo Girão, de máscaras, durante a campanha para prefeito em 2020
Legenda: O deputado Capitão Wagner (Pros) e o senador Eduardo Girão (Podemos) são nomes atuantes na oposição no Ceará
Foto: Camila Lima

Oposição mobilizada, discurso pronto

Cleyton Monte observa ainda que ocorre uma espécie de disputa, mesmo que nos bastidores, sobre quem irá "surfar na popularidade" de Camilo Santana. O governador, no entanto, mantém o perfil político moderado, e, assim como ocorreu nas últimas eleições majoritárias, evita se posicionar até que aliados não disputem mais o páreo. 

Na última terça (13), em entrevista exclusiva ao programa PontoPoder, da TV Diário, o petista preferiu não responder sobre o cenário político em 2022, priorizando as ações contra a pandemia no Estado para este momento. 

Enquanto o jogo segue indefinido e os aliados do grupo governista tentam se reposicionar no cenário eleitoral já com a presença de Lula, a oposição no Ceará ensaia os próprios movimentos. 

Para Monalisa Torres, os adversários ao grupo que atualmente governa o Estado apostarão na "antipolítica" e na quebra da "hegemonia". 

"Será utilizado esse discurso do combate à corrupção, contra a política tradicional, e a oposição será mobilizada. A retórica antipolítica será mobilizada, independente do candidato ao Governo do Estado na base", finaliza.

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