Jornalista Aline Oliveira relembra começo na TV: 'Achava que não tinha nascido para aquilo'

Com 27 anos de carreira, a repórter da TV Verdes Mares aponta as mudanças no jornalismo ao longo de mais de duas décadas, fala sobre como a morte do pai influenciou sua trajetória e os planos para futuro

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Redação producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 08:06)

Aline Oliveira está há 27 anos reportando os principais fatos que acontecem no Ceará na TV. Como repórter do Núcleo de Rede da Globo, ela integra uma equipe que tem a responsabilidade de contar para o Brasil o que acontece na vida do cearense e do Estado. A responsabilidade, ela entende, é grande. Mas a jornalista carrega o dom de saber ouvir. Se encanta pelo seu interlocutor e abraça a história para contar - de uma forma responsável e dedicada - a história de nossa gente.

Rosto e voz que entra na casa do telespectador há tanto tempo, ninguem nem imagina que Aline não cogitava sequer pegar num microfone para trabalhar. O sonho da então recém jornalista  era escrever para jornais impressos. O episódio desta quinta-feira (24) no Que Nem Tu é um mergulho na vida da premiada jornalista.

"O primeiro ano pra mim foi muito difícil porque eu achava que eu não tinha nascido para aquilo. A minha voz, eu escutava a minha narração, e eu achava muito ruim.  Eu chorava, sabe... Eu olhava a minha imagem e eu achava que aqui não era para mim,. Eu não me formei pra isso, me formei pra escrever", relembra Aline Oliveira sobre seu início no telejornalismo.

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Os planos da cearense não estavam no telejornalismo. No entanto, a morte prematura de seu pai, quando ela estava no último semestre da faculdade, fez com ela buscasse emprego para ajudar a mãe e as irmãs mais novas. Com a TV Diário nascendo, em 1998, surgiu a oportunidade de fazer parte da equipe que iniciou a emissora.

"Eu fui a última pessoa a falar com ele [pai] antes dele entrar em como induzido pra ser entubado, porque ele teve uma parada cardio respiratória. Ele falou: 'Cadê suas irmãs e sua mãe?'. Eu falei: 'Tão em casa, tão bem'. Aí ele falou assim: 'Não deixe suas irmãs sozinhas. Cuide delas'. Aí imagina né,  uma menina de 20 anos que ouve o 'cuide delas'. Foi extremamente forte, foi uma coisa que me acompanhou", revelou, emocionada, Aline Oliveira. O pai dela não saiu com vida do hospital. E a jovem, que tinha ido estudar na Paraíba, fica de vez em Fortaleza e, sem conhecer ninguem no mercado, vai em busca de um emprego no Sistema Verdes Mares.

Aline conta que bateu na porta da TV Verdes Mares. Sem vaga, ela foi encaminhada para fazer parte da primeira equipe de jornalistas da TV Diário. Foi lá que ela aprendeu a ser repórter. Não foi fácil. O primeiro ano, ela reconhece que foi de sofrimento, até que ela resolve virar a chave e "em vez de sofrer por achar que meu trabalho não era bom naquilo, eu decidi começar a aprender. E aí realmente vira. É o momento em que eu começo a me desafiar,  a tentar aprender a fazer um pouquinho de jornalismo de TV".

Da TV Verdes Mares para o Brasil 

Da TV Diário a TV Verdes Mares foram alguns anos. Na emissora da Sereia, fez um percurso que era comum na época: passou por todos os telejornais locais. Foi enviada para fazer um intercâmbio na Globo, no Rio de Janeiro. De volta para casa, conseguiu se enxergar mais empoderada de seu talento. Anos e anos cobrindo o local, recebeu o convite para integrar o Núcleo de Rede da Globo. 

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Operária da notícia, Aline não enxerga o jornalista como destaque. Discreta, ela brilha o olho para as boas histórias. Está sempre na posição de ferramenta para comunicar. Viu muita coisa mudar nesses mais de 20 anos e tem uma visão positiva e ao mesmo crítica da mudança que aconteceu no telejornalismo.

"Eu acho que hoje a gente ganhou muito com o jornalismo mais humanizado. No começo, para entrar na Globo entrar ao vivo, você tem que ter 50 segundos. Eu tinha que escrever o que eu ia dizer. Tinha que seguir aquele texto ou seja, praticamente, eu tinha que decorar, entendeu? E era uma tensão, isso te deixava com uma carga. Teve uma época que era assim. Hoje em dia não é mais assim. A gente faz um texto base porque o tempo continua sendo, né, numa paginação de jornais. Mas assim, não tem mais que ser aquela coisa,  E aí, assim, pra mim, o que mais mudou é que eu acho super normal você gaguejar, eu acho que o jornalismo se humaniza quando ele entende que eu sou uma pessoa, como que eu tenho que passar a notícia da forma correta e séria, mas que o gaguejado não vai comprometer o resultado do meu trabalho", explica.

Repórter Aline Oliveira, na redação da TV Verdes Mares, afiliada Globo no Ceará, conta sua trajetória profissional de 27 anos de carreira
Legenda: Com 27 anos de carreira, Aline Oliveira participou de importantes cobertura jornalísticas e aponta como alegria contar histórias de pessoas comuns na TV
Foto: Davi Nascimento

Apesar de defender essa leveza de hoje, Aline vê com preocupação o excesso de brincadeiras. "Existe um limite a depender do assunto...Eu acho que não dá para você querer tornar o jornalismo leve em todos os momentos porque não é. Tem assuntos, talvez a maioria não seja, leve. Então a gente realmente tem que ter essa noção, porque o que difere jornalista de todas as outras pessoas que estão aí nas redes sociais comunicando com seus canais, é o nosso aprendizado, o que a gente aprendeu, a nossa formação, a ética", alerta.

No episódio que relembra sua carreira, Aline falou sobre histórias que mais marcaram sua trajetória, o que mais mudou na rotina de jornalista, a diferença do trabalho de quem "vende uma pauta local" para o nacional  e a preocupação de mostrar a imagem do Ceará sem estereótipos. Ela também contou como equilibra a maternidade na rotina apressada do jornalismo.

Repórter ou apresentadora

Para o futuro, Aline não vai tão longe. Diz que gosta de ser repórter e de estar nas ruas, onde escuta de perto seus entrevistados. Até quando estará nessa função ela não ousa dizer. Mas faz questão de explicar porque nunca se candidatou a ser apresentadora dos telejornais da TV Verdes Mares.

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"Sempre que tem uma vaga de apresentadora, às vezes eu vejo nas redes sociais, o 'agora não é possível que que não reconheça o trabalho dela, Não é possível, que não dêem uma chance pra ela. E me marcam". E eu acho isso muito engraçado, porque assim, a televisão tem vários estereótipos.  E um deles é esse que você vai dar certo quando virar apresentador. Assim, primeiro que eu acho uma função difícil,  admiro muito e eu brinco que a gente tem que reconhecer na vida pro que a gente é, né? A gente nasce pro que a gente é. Eu já tive a oportunidade, e eu tirava férias da apresentadora do CETV2, que era a Cintia Lima. Gente, mas eu nunca me senti à vontade nesse lugar. Ninguém nunca me viu aqui pleiteando qualquer coisa de apresentação, porque realmente não é uma coisa que me faz o olho brilhar, entendeu".

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