De símbolo de distinção a alvo de suspeita
Diante desse quadro, algumas perguntas se impõem. O que aconteceu com a advocacia? Será que a OAB, outrora escudo firme da classe, deixou de cumprir seu papel de proteção institucional?
Houve um tempo em que ser advogado era sinônimo de distinção. O simples anúncio da profissão abria portas, gerava respeito e estabelecia uma posição de prestígio no convívio social. A advocacia era vista como uma verdadeira instituição dentro da sociedade, com trânsito livre e força moral inquestionável.
Esse cenário, no entanto, já não corresponde à realidade atual. Cada vez mais, advogados são confundidos com réus. Tornaram-se comuns buscas e apreensões em escritórios, prisões cautelares e manchetes que expõem a imagem do profissional antes mesmo de qualquer julgamento. O episódio recente envolvendo o advogado Nelson Williams — que teve bens apreendidos, inclusive sua adega de vinhos — é ilustrativo dessa mudança: a toga perdeu a deferência histórica diante da beca.
Diante desse quadro, algumas perguntas se impõem. O que aconteceu com a advocacia? Será que a OAB, outrora escudo firme da classe, deixou de cumprir seu papel de proteção institucional? Será que o corporativismo saudável — aquele que preservava a dignidade profissional — desapareceu? Ou será que muitos advogados passaram, de fato, a trilhar caminhos tortuosos, confundindo-se com os mesmos criminosos que deveriam defender ou combater?
Não há respostas fáceis. Talvez estejamos diante de uma conjugação de fatores: um Judiciário mais ousado, que avança sem limites sobre prerrogativas históricas; e uma advocacia fragmentada, enfraquecida pelos maus exemplos internos e pela ausência de união corporativa.
O fato é que, nesse ambiente, a figura do advogado perde parte de sua autoridade simbólica. E isso não é apenas um problema da classe, mas de toda a sociedade. Afinal, quando o advogado deixa de ser reconhecido como defensor da lei e da cidadania, o espaço para os abusos do poder se amplia perigosamente.
A advocacia, enquanto instituição, precisa se reencontrar. Se não recuperar o respeito que já teve, corremos o risco de naturalizar o absurdo: viver em um país em que o advogado é visto não como guardião de direitos, mas como suspeito em potencial.