A tragédia e suas lições

Escrito por
Gilson Barbosa producaodiario@svm.com.br
Jornalista
Legenda: Jornalista

O Brasil inteiro assiste há semanas, contristado, o drama de centenas de milhares de vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. É mesmo impossível não nos comovermos com a situação dessas pessoas que, nos mais diversos pontos daquele Estado, foram atingidas com as terríveis inundações. Estas literalmente destruíram tudo o que aquelas famílias construíram ao longo de décadas. Não há como não nos emocionarmos diante das histórias de perdas, de dor, dos dramas mais profundos que têm sido apresentados aos brasileiros pelos gaúchos. E, claro, não me refiro apenas aos inúmeros danos materiais, mas, principalmente, às vítimas do cataclismo, nem de longe semelhante ao evento similar acontecido em 1941, que já causara muitos prejuízos, embora cidades e população fossem bem menores à época.

Situação mais grave ocorre agora, quando a própria capital gaúcha teve toda a sua região mais baixa atingida pelas inundações do lago e do rio Guaíba – este último, receptor das águas de tributários como os rios dos Sinos, Jacuí, Taquari e Caí, que igualmente atingiram níveis muito acima de todos os historicamente registrados na hidrologia gaúcha. O evento climático, que caminha para o total de quase 200 mortes oficialmente contabilizadas, devastou amplamente, destruiu a infraestrutura do Estado e atingiu duramente a economia.

Como resultado, famílias enlutadas e desabrigadas, que agora dependem da ajuda e da mobilização do governo federal, das forças armadas e de brasileiros de todos os rincões para receberem a assistência necessária e urgente num momento tão difícil. Além das pessoas – principalmente idosos enfermos, deficientes e até crianças recém-nascidas - , milhares de animais domésticos têm sido resgatados por equipes de salvamento, em ações perigosas e heroicas, praticadas igualmente por cidadãos que perderam o que possuíam, mas que, em momento algum, deixaram de lado o sentimento de amor, fraternidade e solidariedade, socorrendo seus semelhantes.

As águas não levaram apenas as perdas materiais, que custaram anos e grandes esforços para serem conquistadas, na maior parte dos casos, por gente humilde, ordeira, trabalhadora. Difícil, penoso e longo será o processo de recuperação. Lembranças e registros familiares, sonhos, projetos de vida, empregos,… Tudo foi carregado, literal ou figuradamente, pela catástrofe. A tragédia, com todas as consequências que trará ao Rio Grande do Sul pelos anos que virão, serve como alerta assustador a todos aqueles que, ao longo do tempo, costumam agredir a natureza e seu fluxo, interferindo indevidamente no equilíbrio ambiental e esquecendo-se dos dramáticos resultados.

E aqui finalizo, arrematando apenas com a fala do ambientalista gaúcho José Lutzenberger (1926-2002), defensor da natureza e que há 50 anos, em 1974, assim declarava, profeticamente, anunciando o que hoje estamos a ver: “À medida que progride a desnudação das montanhas, das cabeceiras e margens dos rios; à medida que desaparecem os últimos banhados, outros grandes moderadores do ciclo hídrico, a paisagem mais e mais se aproxima da situação do deserto, os rios se tornam mais barrentos e mais irregulares. Onde havia um fluxo regular, alternam-se então estiagens e inundações catastróficas. Só uma inversão no processo de demolição das paisagens pode inverter a corrida para calamidades sempre maiores”. Tal inversão, proposta por ele, não se verificou. E, infelizmente, o tempo se encarregou de confirmar suas palavras.

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