Se Deus é brasileiro, a cidade não virará mar?

Escrito por Eustógio Dantas ,
Eustógio Dantas é professor do Curso de Geografia da UFC
Legenda: Eustógio Dantas é professor do Curso de Geografia da UFC

No mundo há registros incontáveis de como a maior invenção da humanidade não passa impune às mudanças climáticas. No Brasil, mesmo com pioneirismo de participação como organizador da Conferência Rio92 (NT - novas temáticas), tem-se dificuldades em compor pauta dos governos e mudar a forma dos pensadores entenderem a cidade. O país resta aprisionado ao reino das persistências (AT - antigas temáticas: habitação, saneamento, violência urbana ...), a não se adequar aos postulados das Conferências Internacionais sobre a cidade: o Habitat.

A agenda política sobrecarregada (NT competindo com AT), de difícil consenso, culmina hodiernamente em uma cidade desigual, confrontada à pauta ambiental e refém de posicionamentos extremos. À direita, gestores e pensadores (GP´s) criticam a ocupação ilegal (leia-se de pobres) de áreas de vulnerabilidade ambiental alta, transferindo a culpa aos afetados. À esquerda, GP´s negam a problemática ambiental e consoante seu aprisionamento às persistências.

Independentemente destas querelas pueris, os revezes do clima se impõem, afetando a todos e a não ser justificado na massa da pobreza urbana. Lembramos não serem somente os pobres a pressionarem o front marítimo. Vis-à-vis construção intensa de residências (permanentes e ocasionais) e empreendimentos imobiliários-turísticos, os segmentos mais abastados incorporam as praias a suas geografias, impondo custo ambiental elevado e às expensas dos governos.

Os municípios assumem os custos sem tripudiar, destinam fortunas às reconstruções das praias e reformas dos calçadões. Ninguém sabe ao certo o valor ou se dispõe a questionar tanto investimento voltado a anseios de um pequeno segmento assentado de frente para o mar, com o pé na areia e paisagem marcada mais pela escala vertical (dos arranha-céus) do que horizontal (dos vilarejos de pescadores).

Felizmente não só nos resta rogar a Deus e posto existência de número pequeno de gestores e pensadores a se empenharem na validação da problemática ambiental em uma cidade desigual. Assim nos lembram dos custos elevados envolvidos na construção de infraestrutura e, principalmente, na manutenção das obras construídas na praia, estas a serem pagas ad aeternum pelo contribuinte. 

 Eustógio Dantas é professor do Curso de Geografia da UFC

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