Uma estratégia vinda do interior do Ceará tem ajudado pequenos produtores a escoar 90 mil pares de calçados femininos por mês para outras regiões do País.
Há quatro anos, o Grupo Sassá, com sede em Juazeiro do Norte, deixou de fabricar apenas tiras de couro e sintético para produzir todos os insumos da cadeia e verticalizar a produção de rasteiras.
Com a marca SS Shoes, a empresa estruturou uma parceria ativa com 50 fabricantes locais, fornecendo material e pagando adiantado parte do trabalho, para que essas pequenas oficinas produzam os calçados.
Segundo o diretor do Grupo, Pitágoras Sarmento, a empresa já mapeou 180 microfabricantes da região — muitos dos quais ainda atuariam na informalidade — para sustentar a rede produtiva.
Ele explica que a empresa atua como uma "ponte" para garantir que os pequenos produtores tenham pedidos o ano todo, combatendo a ociosidade das fábricas no período de entressafra (entre as produções para as festas juninas e o fim de ano).
“A gente uniu a demanda nacional com a produção regional”, afirma o diretor.
Conforme o executivo, atualmente, o impacto dessa rede alcança 500 famílias, direta e indiretamente, em Juazeiro do Norte, com potencial de crescimento de acordo com a demanda de pedidos — que podem, inclusive, levar a marca do cliente final (private label).
Como funciona o modelo de gestão
A segunda vez participando da BFShow, feira nacional do setor calçadista, ocorre após o grupo registrar um salto de 70% na fabricação no último ano.
O diferencial do modelo de gestão, conforme Sarmento, inclui o fornecimento de todos os componentes para a fabricação da rasteira e suporte financeiro para que os produtores modernizem suas oficinas por meio de crédito sem juros.
“No pedido, nós fornecemos todo o material e adiantamos 30% do pagamento da produção para viabilizar a entrega", explica.
Já para os fabricantes com maior potencial e mais organizados, o grupo concede empréstimos sem juros para a compra de maquinário, pagos com a própria produção.
Para o diretor, o esforço foca na revitalização do polo local. “Nosso objetivo era resgatar o setor calçadista de Juazeiro do Norte, que estava adormecido”.
Ele também explica que a meta de dobrar o faturamento de R$ 10 milhões, atingindo R$ 20 milhões neste ano, apoia-se em uma logística própria e na ocupação estratégica de mercados, principalmente, nas regiões Norte e Centro-Oeste.
Os produtos possuem um ticket médio, entre R$ 16 e R$ 19.
Cenário nacional e concorrência asiática preocupam pequenos produtores
Paralelamente ao otimismo dos polos regionais, os grandes debates da BFShow trouxeram alertas para o setor.
Os dados apresentados pelo presidente da Abicalçados, Haroldo Ferreira, indicam uma perspectiva de recuperação geral, impulsionada pelas exportações, que cresceram 40% para os Estados Unidos em abril.
O segmento também projeta ganhos com o acordo Mercosul-União Europeia, que prevê a eliminação progressiva de tarifas de importação que hoje variam entre 3,5% e 17%.
Entretanto, Ferreira manifestou preocupação com o impacto das remessas internacionais e as discussões em torno da "taxa das blusinhas".
Segundo a Abicalçados, a atual estrutura tributária ainda gera um desequilíbrio concorrencial em relação à indústria nacional frente aos competidores asiáticos, afetando principalmente os pequenos e médios fabricantes.
O setor estima que o atual cenário coloca em risco 54 mil postos de trabalho na cadeia produtiva calçadista brasileira. As importações de calçados cresceram 70% entre 2022 e 2025, consolidando-se como um desafio para as fábricas nacionais.
* A jornalista Paloma Vargas viajou a São Paulo a convite da BFShow