Vacinação fica 30 pontos percentuais abaixo da meta na pandemia

Cobertura vacinal da BCG, por exemplo, dose que protege contra a tuberculose, está em 52,7% no Ceará, quando ideal é de 95%; receio de levar filhos aos postos de saúde é apontado pelos pais como principal motivo para baixa

Legenda: Apesar da pandemia, especialistas alertam para a importância da vacinação de crianças e adolescentes contra doenças já conhecidas
Foto: Thiago Gadelha

A busca por postos de saúde em Fortaleza e no Estado, nos últimos meses, predominou entre pacientes que apresentaram sintomas gripais, suspeitos da infecção pelo novo coronavírus. Nesse contexto, outro serviço fundamental à saúde prestado pelas unidades básicas deixou de ser procurado por pais de crianças e adolescentes: a vacinação. No Ceará, a cobertura vacinal média para sete das principais imunizações obrigatórias totalizou 66,6%, entre janeiro e junho, quase 30 pontos percentuais (pp) abaixo da meta de 95%, segundo dados da Secretaria da Saúde (Sesa).

No primeiro semestre de 2019, a média de cobertura totalizou 96,8%, quantidade acima do mínimo de 95% preconizado pelo Ministério da Saúde. Isso significa que quase todas as pessoas do público-alvo garantiram as doses das imunizações. Já no mesmo período deste ano, entrecortado pela Covid-19, o índice ficou em 66,6%, 30,2 pp a menos que o ano passado, e 28,4 pp abaixo da meta.

Os dados, compilados pela Sesa, consideram as vacinas BCG, que previne contra formas graves da tuberculose; a meningocócica C, contra meningite e infecção generalizada; a pentavalente, contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e meningite; a pneumocócica, contra pneumonia, otite e outras infecções; a rotavírus humano, que previne diarreia causada por esse agente; e a tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola.

O receio de ir ao posto de saúde em meio à disseminação da Covid-19 foi a principal razão para a produtora de eventos Damires Gentil, 33, atrasar por três meses quatro vacinas obrigatórias para a filha Ísis, hoje com 1 ano e meio.

"Já tenho trauma de vacina e médico, então o máximo que eu puder evitar, evito. Nesses locais circulam todos os tipos de vírus, e a imunidade dela ainda é muito baixa. Com a pandemia foi que não tive coragem mesmo. Tava no ápice, então dei uma segurada. Não me orgulho, porque sei que é importante. Mas fiquei com medo", confessa.

Na semana passada, Damires iniciou a atualização do calendário vacinal da filha, que deveria ter tomado, aos 15 meses, as imunizações tríplice bacteriana (contra difteria, tétano e coqueluche), poliomielite (contra "paralisia infantil"), hepatite A e tetraviral (contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela). "As de 1 ano e 6 meses vão ficar atrasadas, porque preferi não dar todas de uma vez. Quando fomos ao posto, meu esposo ficou com ela no carro, e só entrou na hora de tomar a vacina, porque ela não pode usar máscara", descreve.

O mesmo temor fez com que a confeiteira Ivi Nogueira, 33, adiasse por um mês a aplicação da vacina pentavalente em Malu, hoje com 9 meses de vida. "Tive medo de ir ao posto e ela ficar muito exposta, porque deveria ter ido exatamente no período de quarentena rígida. Quando fomos, usei álcool em gel ao entrar e sair, e tomei o cuidado de não tocar em nada no caminho, como paredes, corrimão e portas", relata Ivi.

Risco-benefício

Para a empresária Bruna Nascimento, 26, mãe de Gabrielly, de 2 meses e meio, a preocupação com as doenças preveníveis se sobressaiu. "Fui nos primeiros dias de vida dela, pela BCG, e o posto tava lotado. Tinha uma fila com idosos e crianças. Fiquei com ela no carro, e quando chegou a nossa vez, entrei na sala, vacinou e já saí. Tive medo de ir, mas como eu já tinha sido acompanhada lá no pré-natal, fiquei com o contato e me informei sobre a movimentação antes de ir. Se eu não fosse, seria pior pra ela", opina.

A BCG, citada por Bruna, teve a maior queda de cobertura vacinal no Ceará, no primeiro semestre: no ano passado, a taxa ficou em 98%; neste ano, 52,7%, bem aquém da meta. O infectologista Robério Leite alerta que a relação "risco-benefício" deve ser considerada pelos pais.

"Num cenário em que a Região Metropolitana de Fortaleza tem uma tendência de queda dos casos, o risco de a criança não ser vacinada é muito maior que o de contrair Covid-19, até porque essa doença não tem tanto impacto quanto nos adultos, idosos e pessoas de risco, mesmo podendo acometer crianças de forma grave", avalia.

O infectologista aponta que a vacina contra sarampo, neste momento em que outros estados registram casos, "é a prioridade número um", mas destaca que todas as vacinas são indispensáveis. "O atraso das imunizações no primeiro semestre de vida, quando as crianças são mais vulneráveis, oferece maior risco. O problema maior é em relação à vacina contra o rotavírus, que tem um prazo curto para imunizar. As outras, colocando o calendário em dias, a criança fica imunizada. O importante é que se busque recuperar esse atraso", alerta Dr. Robério.

Renata Dias, assessora técnica de imunização da Secretaria de Saúde de Fortaleza (SMS), estima que a cidade alcançou cerca de 80% de cobertura vacinal, abaixo dos 95% obtidos em 2019. Para ela, a redução foi, de fato, causada pelo medo dos pais da infecção pela Covid-19. "Preocupados com isso, deixamos algumas escolas funcionando como postos de vacinação, inclusive durante o lockdown em Fortaleza. Hoje, oito ainda estão abertas para isso. Nas escolas, há distanciamento físico, espaços amplos, não tem lotação, não tem riscos", enumera.

Solicitamos à SMS as taxas de cobertura vacinal das principais imunizações em Fortaleza, mas a Pasta não enviou os dados até o fechamento desta edição. Porém, de acordo com o Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SIPNI), do Ministério da Saúde, atualizado na última terça-feira (4), a cobertura na capital cearense está em 50,17%. O valor considera 21 vacinas, entre primeiras doses e reforços. Uma das principais, a BCG, só foi aplicada em 29,4% das crianças que deveriam tê-la tomado, conforme o SIPNI.

A assessora técnica da SMS reforça, contudo, a importância de todas as doses, sobretudo na atual situação sanitária. "Temos focado muito na tríplice viral, porque protege contra o sarampo, e tem casos em estados no Brasil. O que nos preocupa também é a influenza para crianças de 6 meses a menores de 1 ano. Mesmo com as nossas estratégias, os pais estão com receio, e é muito importante que elas sejam imunizadas, até para não contraírem e serem confundidas com Covid-19", frisa. Segundo Renata, nas quatro etapas da campanha de vacinação contra o sarampo, mais de 38 mil crianças foram imunizadas na Capital, até 30 de julho.

Sobre os demais municípios cearenses, a Secretaria da Saúde do Ceará informou à reportagem, em nota, que orientou gestores de saúde locais a incentivarem a vacinação e abordarem a importância de mantê-la atualizada. A Pasta garante, ainda, que monitora as coberturas vacinais, para "continuar alcançando a meta preconizada". Entre os dias 5 e 30 de outubro deste ano, deve ocorrer em todo o Brasil a Campanha de Multivacinação, que objetiva a atualização da caderneta de vacinação de crianças e adolescentes. Conforme a Sesa, será realizada, ao mesmo tempo, a Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite.

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Redação 21 de Setembro de 2020