Taxa de letalidade hospitalar no CE é menor que 4% desde novembro; pico em outubro chegou a 14,6%

Vacinação de idosos e maior possibilidade de recuperação dos jovens estão entre possíveis justificativas da queda, apontam especialistas. Por outro lado, escalada de casos e aumento de mortes interferem no cálculo da taxa

Legenda: Taxa de letalidade relaciona o número de óbitos confirmados de Covid-19 pelo número de pessoas acometidas pela doença
Foto: AFP

Desde 12 de novembro de 2020, a taxa de letalidade de pacientes internados com Covid-19 – de 4,89%, à época – não ultrapassa a casa dos 4% no Ceará. Em 30 de outubro do ano passado, essa mesma taxa chegou a 14,66%, o maior pico já visto em toda a pandemia. Comparando esse dado com os dos últimos cinco meses, houve uma queda de, pelo menos, 10 pontos percentuais.  

Nesta quarta (14), por exemplo, a taxa de letalidade hospitalar alcançava patamar ainda menor, de 1,91%, conforme dados colhidos às 14h05, na plataforma IntegraSUS, gerida pela Secretaria Estadual da Saúde (Sesa).  

“Explosão” de casos interfere no resultado  

Embora os dados apontem para um cenário positivo, a epidemiologista e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Caroline Gurgel, lembra que a taxa de letalidade é uma razão obtida entre o número de óbitos e o total de diagnósticos positivos de Covid-19.  

Com o agravamento da segunda onda, impulsionado por maiores níveis de transmissibilidade e virulência da nova variante, houve uma “explosão” de casos confirmados de coronavírus, em escalada desde novembro do ano passado. Logo, isso impacta nos cálculos da taxa. 

No último dia 6 de abril, inclusive, a Sesa contabilizou o maior número de óbitos (132) - desde o início da pandemia - de pessoas internadas com Covid-19. Antes disso, ocorreram picos somente em 12 de maio e 3 de junho de 2020, sendo 129 óbitos em cada dia.  

Para Caroline Gurgel, a alta quantidade de mortes verificadas no sexto dia deste mês pode estar relacionada à variante P1 e seu alto poder de transmissibilidade.  

“Já era prevista essa quantidade de óbitos, infelizmente. Não pela taxa de letalidade, porque ela permanece a mesma, mas porque tem diretamente um reflexo da quantidade de casos. Se tem uma quantidade enorme de casos, isso vai se refletir também nos óbitos”. 

Vacinação e mudança de perfil dos infectados 

Além do alto volume de diagnósticos positivos de Covid, a queda na taxa de letalidade hospitalar pode ser ainda justificada pela vacinação dos idosos, iniciada em 18 de janeiro. A isso se soma a mudança no perfil dos pacientes acometidos pela doença, após a chegada na nova variante do vírus. Ainda que estejam mais suscetíveis, pessoas de faixas etárias mais baixas têm maior chance de recuperação.  

“Por mais que o jovem demore mais [tempo internado], ele nunca vai ter o mesmo padrão de letalidade do idoso. Se você for estratificar por faixa etária, o idoso morre muito mais do que o jovem ou a criança. Então, quando você consegue controlar esses óbitos, a [taxa de] letalidade tende a ter uma queda”, esclarece a epidemiologista.  

Queda de internações 

Médico interventor do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) Ceará, Francisco Mendonça Júnior observa que o número de pacientes internados com Covid-19 tem diminuído nas últimas semanas. E isso acaba por reduzir a sobrecarga de trabalho dos profissionais da Saúde, agora disponíveis para dar maior assistência aos pacientes com quadros de saúde mais graves.  

Assim como Caroline Gurgel, ele salienta que “vem acontecendo uma queda de internação principalmente de pacientes idosos, que deve estar relacionada à vacinação. Apesar do jovem adoecer, em números absolutos o idoso tem maior gravidade”, diferencia.  

O médico também cita o isolamento social rígido, flexibilizado desde segunda-feira (12) em todo o Ceará, como outra possível justificativa para a recente queda de internações e, consequentemente, das mortes ocorridas nos hospitais.  

“Com a vacina e o lockdown, houve realmente uma redução na procura [de assistência hospitalar], principalmente desses pacientes mais graves e que precisam de internamento”. 

Entre a dor e a felicidade

O número de altas, por dia, também segue uma tendência crescente nos hospitais do Ceará. No último dia 20 de março, o Estado atingiu o maior número (463) de altas, sendo ultrapassado apenas pelos registros de 11, 12 e 13 de maio de 2020, quando 507, 592 e 562 pacientes, respectivamente, deixaram leitos de hospitais.  

A pensionista Maria Guilherme da Costa, de 67 anos, faz parte da estatística positiva. Mesmo após ficar 23 dias internada, sendo 10 deles intubada em um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital e Maternidade José Martiniano de Alencar (HMJMA), a idosa - que é hipertensa - conseguiu vencer o vírus e retornou para casa no dia 15 de março.  

Maria Guilherme
Legenda: A pensionista Maria Guilherme recebeu alta há cerca de um mês, após ficar 23 dias internada
Foto: Arquivo pessoal

Apesar de ter que fazer sessões de fisioterapia para voltar a andar como antes, se declara “feliz” por poder continuar a viver. “Eu escapei por pouco. Meus pés incham, mas agora estou muito bem, já dou umas passadinhas sozinha. E elas [profissionais de saúde] foram uns anjos que cuidaram muito bem de mim”, relata a idosa, com satisfação. 

Ao mesmo tempo em que sente a felicidade de ter deixado o leito de UTI com vida, dona Maria Guilherme também sente a dor de ter perdido recentemente o filho, de 49 anos; e dois irmãos, de 69 e 72 anos para a Covid-19.  

Para se proteger da doença infectocontagiosa, já tomou a primeira dose da vacina em 1º abril e já aguarda o complemento da imunização. “Isso [Covid] é uma doença maldita, que levou meu filho, minha irmã e meu irmão. Enquanto não acabar essa pandemia, é ficar em casa porque não quero pegar de novo”.  

Dados da Covid no Ceará

Até as 11h46 dessa terça-feira (13), a Sesa contabilizou 15.650 óbitos por Covid-19 no Ceará e um total de 597.518 casos confirmados - não houve atualização na quarta-feira (14). A plataforma registra ainda 411.754 casos recuperados e 87.297 em investigação. Já o Vacinômetro da Secretaria soma 360.749 segundas doses aplicadas no Estado, distribuídas entre grupos de idosos com 65 anos ou mais, profissionais de Saúde, indígenas e pessoas com deficiência institucionalizadas. A contagem foi atualizada pela última vez nesta terça (13), às 17h.

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