Pacientes relatam dificuldades de concentração e sequelas na memória após Covid-19

Efeitos podem estar relacionados com AVC ou à aceleração de processos degenerativos, dizem médicos

Escrito por Redação,

Metro
Enfermeiros retiram paciente com Covid-19 de ambulância no Hospital Leonardo da Vinci
Legenda: Mesmo após recuperação do novo coronavírus, pacientes apontam impactos da doença no cotidiano
Foto: Helene Santos

Após mais de um ano desde a chegada da Covid-19 no Ceará, algumas sequelas da doença ainda são desconhecidas por parte da comunidade médica. Para além do cansaço e perda do paladar, pacientes recuperados do novo coronavírus relatam impactos na memória e na capacidade de concentração, como no caso do técnico em manutenção, Mário Barbosa, 45 anos, que teve Covid-19 no auge da primeira onda. 

Apresentando sintomas como febre e corrimento no nariz no começo de maio do ano passado, buscou o posto de saúde quando o quadro de febre se agravou. “Quando cheguei, a saturação estava baixa. Fiquei sete dias na UPA Jangurussu e depois fui para o Walter Cantídio, onde fiquei por mais seis dias”, detalha. 

Depois de receber alta, percebeu que estava com algumas sequelas, como cansaço e alteração no olfato e paladar. Além disso, também teve problemas de memória e concentração, que permaneceram por cerca de um mês.

“Eu não conseguia me concentrar direito, ficava esquecido das coisas, faltava concentração no sentido do raciocínio. Ia pegar uma coisa embaixo do prédio, mas quando chegava, não lembrava mais o que ia pegar. Dava esses lapsos”, compartilha.

Apesar de fazer exercícios para “ocupar a memória”, os episódios de esquecimento foram comuns ao longo de quase quatro semanas. Segundo Mário, essas sequelas também impactaram sua irmã, que apresentou resultado positivo para Covid-19 no mesmo período. “Mas agora normalizou, foi mais depois que tive o Covid-19”, conclui o reparador. 

Legenda: Mário sofreu com impactos na memória e na concentração por cerca de um mês após se recuperar da Covid-19
Foto: Arquivo pessoal

Segunda onda da Covid-19

Assim como Mário, a aposentada Antônia Pontes Soares, 67 anos, também teve casos de esquecimento e dificuldade de manter o foco. Conforme a sobrinha, Anny Gabrielly Pontes, 33 anos, a tia costumava ser mais ativa e atenta. “Ontem mesmo, eu pedi para ela comprar o remédio do meu filho e ela esqueceu ao ligar para a farmácia. Ela já tinha alguns casos, mas deu uma piorada no cotidiano”, aponta. 

Antônia apresentou os primeiros sintomas da doença na segunda quinzena de fevereiro deste ano. Após piora no quadro de febre e falta de ar, foi internada no Hospital Geral de Fortaleza no dia 22, e posteriormente transferida para o Hospital Leonardo Da Vinci, referência no tratamento do novo coronavírus. 

Foi durante o período de internação que a aposentada sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Fiquei lenta, dormia muito, só fazia merendar e dormia de novo. Passava o dia dormindo”, relata Antônia. Depois da alta, pouco a pouco se recupera dos efeitos da doença. No entanto, percebe que ainda tem um caminho para percorrer até a melhora completa.

“Ainda não estou me sentindo recuperada. Eu era muito trabalhadeira, quase não estou fazendo nada, varrendo a casa, mas eu fico nervosa também, porque tem que ter muito repouso. Eu também já estava muito esquecida, continua quase do mesmo jeito”, conclui.

Percepção médica 

Na visão do médico neurologista e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Pedro Braga Neto, ainda é cedo tanto para definir com precisão as causas para esse impacto na memória e concentração, quanto para especificar sua correlação com a Covid-19. 

Apesar disso, dentre as hipóteses levantadas, o especialista percebe que os pacientes recuperados da doença podem estar apresentando a aceleração de processos degenerativos já em curso, como no caso do Parkinson como Alzheimer. “Talvez o vírus possa ter uma capacidade de acelerar esses processos”, pondera. 

Uma outra possibilidade levantada pelo pesquisador é que a perda de memória esteja atrelada aos impactos do AVC.

“A gente sabe que o vírus aumenta o risco de AVC, há vários relatos. Eles podem ter micro isquemias, que podem estar afetando o aspecto da memória, então seria um outro braço de investigação”, finaliza. 

Para apresentar um diagnóstico, Pedro aponta ser necessário um estudo que possa se aprofundar nas queixas apresentadas pelos pacientes, considerando também o que já apresentavam antes da doença. 

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