Operação marca vida de voluntários e bombeiros que atuaram no resgate das vítimas do Edifício Andrea

Bombeiro, terapeuta ocupacional, psicóloga e funcionário público relembram os cinco dias intensos para retirar os moradores soterrados - e como Fortaleza se uniu em prol da vida de desconhecidos.

Legenda: Além dos agentes de órgãos de segurança e defesa social, centenas de pessoas se mobilizaram para doar tempo e bens materiais à procura por sobreviventes
Foto: Natinho Rodrigues

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“Bom dia, Celeste, meu... Meu nome é Davi Sampaio, moro na Tibúrcio Cavalcante, 2405, e Celeste, meu prédio caiu, tô debaixo da estrutura. Por favor, me ajuda!”. A ligação era mais uma das recebidas pela Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops) naquela manhã de terça-feira, 15 de outubro, para avisar sobre o desabamento do Edifício Andrea, no bairro Dionísio Torres. O pedido do morador soterrado ecoou nos cinco dias seguintes, quando cerca de 500 agentes de segurança e voluntários, de Fortaleza e outros municípios, atuaram para buscar vidas sob toneladas de ferro e concreto, numa corrida contra o tempo.

Os trabalhos de resgate duraram mais de 103 horas. Entre as centenas de colaboradores, 135 bombeiros se revezaram 24 horas por dia para procurar e socorrer as vítimas. Além deles, brigadistas, médicos, socorristas, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, policiais, agentes de trânsito e civis imergiram naquele quarteirão marcado pela dualidade entre dor e esperança. No fim, das 16 pessoas sob os escombros, sete foram resgatadas com vida.

A psicoterapeuta Anna Karynne Melo, 53, estava na coordenação do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza quando ouviu a notícia. Mesmo apta a lidar com situações de crise, ela conta que nunca havia atuado num episódio da magnitude do Andrea em 29 anos de profissão. Por volta do meio-dia, desembarcou no local do desabamento junto com outros colegas de trabalho, se apresentou como voluntária e começou a definir linhas de ação imediata. 

“Fomos as primeiras pessoas de equipe de profissional a chegar, fora os Bombeiros e a Cruz Vermelha”, relembra. “Imediatamente um prédio que ficava próximo disponibilizou o hall e colocou mesas, cadeiras, pra gente receber as pessoas, os moradores, os familiares que estavam chegando. Tava tudo muito ainda à flor da pele. Confesso que até hoje me lembro dessa cena, da fumaça, da poeira, da correria”, elenca. Sem sentir fome ou sede, com o corpo se adequando à situação de estresse, só saiu de lá por volta de 21h - para retornar na manhã seguinte.

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Foi o mesmo turno em que chegou Érika Nobre, 45, diretora secretária do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da 6ª Região (Crefito-6). Ela havia passado a madrugada articulando uma rede de profissionais voluntários. Em meio ao caos de entulho, famílias aflitas e bombeiros desgastados pela madrugada de buscas, foi preciso “colocar nossa dor de lado e se colocar à disposição do outro”. Uma base de atendimento foi montada com macas, a maior parte emprestadas por profissionais da área.

Porém, avalia, “uma coisa é atender no consultório, com estrutura pronta, e de repente atender debaixo de árvore e em colchonete no chão” - sem falar no calor.  “Também tinha muita poeira, então as máscaras e os jalecos era muito trocados”, pontua. No contato pele a pele com os bombeiros, ela sentia tanto o desgaste físico como o emocional. 

“Eles estavam tão adrenalizados que não conseguiam relaxar. Tinham que fazer muita força, numa tensão muito grande, praticamente dobrando turno. Nossa parte foi ajudar a fazer o relaxamento muscular e diminuir as dores”, explica Érika Nobre, terapeuta ocupacional

O coronel Eduardo Holanda, comandante geral do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará (CBMCE), que começou a coordenar a operação voltando de Brasília, lembra que até ele tinha dificuldade em convencer os agentes a tirar um tempo de descanso. Quem chegava para substituir o outro assumia o mesmo posto e recebia em que pé estava a busca.

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“Todo e qualquer sinal de barulho, gemido, batida, qualquer coisa que possa nos dar um sinal de vida, é importante. Dentro da nossa técnica, sempre que eles estavam na busca, era dado um comando de apito; todo mundo parava onde estava e era feito um silêncio absoluto para tentar ouvir algum sinal vindo das vítimas”, comenta.

350
agentes de segurança Ao todo, mais de 300 profissionais da segurança atuaram nas ações de resgate no Edifício Andrea, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Destes, 135 eram membros do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará.

Outro ponto de apoio para os profissionais de segurança foi uma casa para aluguel na esquina entre as ruas Tomás Acioli e Tibúrcio Cavalcante, cedida pelo dono após uma ligação do funcionário público Daniel Serpa, 43. Voluntário, ele só chegou ao Andrea um dia após o desabamento. Dispensado do trabalho e com aprovação da família, dali só sairia na noite do sábado, 19 de outubro, depois que a última vítima foi retirada dos escombros: a síndica Maria das Graças Rodrigues, de 70 anos. 

“Eu já morei nessa região e meu prédio também era antigo, então me coloquei naquela situação”, conta Daniel. “A gente queria ajudar quem oficialmente estava encarregado disso. Na nossa ‘casa’, tinha água, quentinha, colchonete, área de descanso, equipamentos de proteção, toda uma estrutura. Era algo que pedia muita gente, muito esforço e muita pressa”. O grupo coordenado por ele chegou a contar com 100 pessoas, das quais 30 mantém contato até hoje.

Foto: Natinho Rodrigues

Um dos episódios que o marcaram foi o da procura por baldes na vizinhança. No fim da noite do dia 16, o Corpo de Bombeiros solicitou os recipientes para auxiliar na remoção dos escombros, já que o uso de maquinário pesado poderia esmagar os soterrados. “Era de noite já, não se podia fazer barulho. Saímos nas portarias dos prédios ao redor pedindo para os porteiros interfonarem e as pessoas doarem seus baldes. Juntamos uns 200 e começamos a passar de pessoa em pessoa, feito formiguinha”, detalha.

Além dos profissionais envolvidos nas buscas, os familiares também precisavam de apoio emocional. Segundo a psicóloga Karynne Melo, foi acordado com os bombeiros de que a cada hora seriam dados informes sobre a situação das buscas.  “Isso trazia a sensação de que algo estava sendo feito, já que o pior no primeiro momento era não saber”, afirma.

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Foto: Natinho Rodrigues

Se a razão e o tecnicismo ditavam parte dos trabalhos, outra era tomada pelo espiritual. Vigílias e orações em grupo eram frequentes nas ruas do entorno do Edifício. Membro da Comunidade Shalom, Daniel Serpa conta que as súplicas eram ecumênicas “Nossa equipe era de católicos e evangélicos e, à noite, a gente fazia louvor com oração, com música, e alguns parentes das pessoas do prédio iam chegando, pediam pra receber conforto. Eu pedia a Deus força, saúde para que o cansaço fosse o menor possível e que tudo se resolvesse”, confessa.

E terminou. Às 17h30 do sábado, os Bombeiros anunciaram o encerramento oficial da operação inédita no Ceará. Trompetes choraram e rosas brancas passaram de mão em mão como forma de agradecimento, florescendo nas memórias os agentes esgotados deitados nas calçadas, os silêncios de expectativa por respostas de sobreviventes, os abraços angustiados pelas nove perdas e os alegres pelos sete renascimentos.

A terapeuta ocupacional Érika Nobre só sentiu mesmo o peso daqueles dias no domingo, em casa.

Foto: Camila Lima

“Desabei. O que poderia fazer já tinha feito, então deixei a pessoa humana tomar conta de mim. Veio todo aquele desabafo e tensão, mas ao mesmo tempo agradeci a Deus por ter tido oportunidade de ajudar. Acho que o Andrea trouxe de volta essa questão da humanidade, do ser humano de verdade. Ele precisa ser muito resgatado”, conclui Érika Nobre.

Legado técnico

Após o Andrea, o Corpo de Bombeiros aprimorou técnicas de salvamento. A 1º tenente Ana Carolina Campos chegou a concluir o nível Avançado do Curso de Busca e Resgate em Estruturas Colapsadas (BREC), em Minas Gerais, com foco em escoramentos complexos e penetração em escombros. “A gente está no rumo certo, treinando, se especializando e se preparando antes das tragédias acontecerem”, garante o coronel Eduardo Holanda. “O grande legado que ficou é o investimento no homem, principalmente no conhecimento, e em equipamento e tecnologia, para que a gente possa dar o melhor retorno possível ao nosso cidadão”.

 

 

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