O que significa intubação e quais os riscos para o paciente? Médico explica o procedimento

Intubar pacientes é considerado um procedimento salvador de vidas, principalmente durante a pandemia

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Foto: José Leomar

A pandemia do novo coronavírus, particularmente neste período em que o número de internações por complicações da Covid-19 cresce em hospitais públicos e privados do Ceará, fez com que pacientes e familiares se deparassem com termos clínicos antes pouco conhecidos. Um dos mais temidos e cada vez mais ouvido é a intubação (ou entubação), procedimento realizado em casos mais graves, principalmente nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).

O Diário do Nordeste conversou com o médico atuante na linha de frente da Covid-19 dos hospitais São José (HSJ) e Geral de Fortaleza (HGF), Arnaldo Tomé, que detalhou sobre o procedimento, entre indicações e riscos.

O que significa ser intubado?

A intubação orotraqueal é o procedimento que a gente chama, na medicina, de via aérea definitiva. Consiste na colocação de um dispositivo, chamado tubo orotraqueal, que vai permitir a passagem de ar de um ventilador mecânico para o interior da traqueia do paciente. É um procedimento que exige sedação do paciente. Por isso, há uma indução anestésica. Em casos de pacientes com Covid-19, usualmente, esse coma induzido é prolongado por 10, 15 dias.

O que acontece com o corpo e quais os riscos? 

Quando estamos em respiração espontânea, o corpo manda um impulso que estimula a contração dos músculos da respiração, principalmente o diafragma, que vai expandir a caixa torácica. Quando isso acontece, há a geração de uma pressão negativa que estimula o ar de fora do ambiente a entrar no pulmão. Já quando o paciente está sob ventilação mecânica, esse mecanismo é perdido, pois o paciente está sedado. Então, a ventilação mecânica impulsiona o ar, de acordo com a quantidade de oxigênio que o paciente precisa, através de uma pressão positiva para dentro dos pulmões.

Isso gera um série de alterações fisiológicas no corpo, entre elas estão as chamadas hemodinâmicas, quando pode acontecer da pressão cair um pouco durante o procedimento, por exemplo. Contudo, esse é um procedimento salvador de vidas. Ele consegue garantir um repouso pulmonar e para a musculatura respiratória e eu consigo ofertar uma quantidade específica de oxigênio.

Muitos pacientes têm medo de ser intubados e não retornarem. Esse risco é real? 

Ano passado, em meio à primeira onda, a gente lidava com o conceito de que intubar o paciente precocemente era o recomendado, tanto para a segurança da equipe assistencial quanto do paciente. A gente viu que essa recomendação acabava piorando um pouco o prognóstico, a chance de sobrevivência, porque o ideal é que o paciente esteja em uma UTI, sob cuidados da equipe. Já em situação de pandemia, de sobrecarga do sistema de saúde, em que, ao invés de dez pacientes intubados, a gente tem 30, estes, certamente, não receberão as condições de cuidado ideal e acaba que, por conta dessa sobrecarga, poderia piorar o prognóstico.

Além do mais, a gente teve o advento de outros suportes que não eram utilizados na primeira onda, como o capacete Elmo - dispositivo de ventilação não invasiva. Esse capacete tem ajudado a evitar a intubação. Então, aquele paciente que vai ser intubado, ele já falhou aos outros dispositivos ventilatórios. Portanto, ele é mais grave. Sendo mais grave, tem uma piora de prognóstico.

Se esse procedimento é comum em cirurgias, porque é mais temeroso em casos de Covid?

A gente [médicos] tem um grande debate: qual é o momento ideal para intubar um paciente? Uma coisa a gente já sabe: intubar precocemente não é uma boa alternativa. O segundo ponto é que a gente não pode postergar demais ao ponto de que o pulmão do paciente já está bastante inflamado. O terceiro ponto é que a doença induzida pelo coronavírus é uma doença que gera um processo inflamatório exuberante, inclusive com predisposição a fenômenos trombóticos, mas o órgão mais afetado é o pulmão, que não consegue oxigenar o sangue e remover o gás carbônico.

Então, se eu estou diante de um paciente em que a insuficiência respiratória mata em 90% dos casos, quando o paciente precisa da intubação, não é uma garantia que ele vá sobreviver. Mas é um procedimento necessário. Ele é salvador de vidas.

A intubação só deve ser feita na UTI?

Em condições ideais, sim. Porém, como estamos trabalhando com a sobrecarga no serviço de saúde, é inevitável que ele ocorra fora do ambiente da UTI. Temos intubação ocorrendo nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nas enfermarias. Na medida do possível, temos nos equipado para isso.

 

 

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