Negócios no Ceará se reinventam com delivery e meios virtuais

Sem a presença física nas lojas, empresários e empreendedores voltaram a atenção para as redes sociais. Especialistas apontam que relacionamento com os clientes será a chave para a continuidade das operações.

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Legenda: No grupo de risco para a Covid-19, Déborah Maia fechou livraria no Benfica e passou a despachar de casa
Foto: Thiago Gadelha

Machado de Assis, Mia Couto e José Saramago ficaram no escuro quando o brechó literário da Avenida 13 de Maio, em Fortaleza, fechou em março por causa da pandemia da Covid-19. Só veem qualquer luz quando a proprietária, Déborah Maia, aparece para separar algum volume encomendado por clientes via redes sociais. A vitrine do espaço, criado em 2014 e hoje abrigado na segunda sede, passou a ser a tela do celular, na qual Déborah começou a investir mais para driblar os prejuízos financeiros dos seis meses de negócio fechado.

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"Ali também está o nosso cliente, que muitas vezes é o que frequenta o espaço físico. Tentamos ampliar o alcance, mostrando as novidades que chegam toda semana e permitindo que ele efetue a compra online, mesmo que seja para buscar na minha casa ou no brechó com horário marcado", explica ela, que toca o espaço com apoio da mãe, Cleide Maia. Em bairros mais distantes, as entregas são feitas por aplicativos.

No entanto, nem todos os administradores conseguiram se manter e garantir a continuidade do negócio: entre março e julho, 10.567 empresas encerraram as atividades no Estado, de acordo com o Mapa de Empresas do Ministério da Economia. Nas contas da Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec), o número é bem maior: 15,7 mil empresas fecharam as portas no mesmo período.

Legenda: "Quando penso na gestão do negócio, percebi que preciso estar sempre preparada", conta Deborah Maia
Foto: Thiago Gadelha

O diretor técnico do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Ceará (Sebrae-CE), Alci Porto, afirma que os microempresários foram atingidos pela pandemia já com uma crise em curso, fruto de pouco acesso a crédito e restrições de vendas. Além disso, houve pouco preparo para manejar ferramentas digitais.

"Nossas pesquisas mostram que 44% das pequenas empresas tiveram necessidade de adequar seu modelo de gestão, com venda online e mantendo clientes pelas redes sociais. Isso de forma urgente e em pouco tempo", explica. Além das empresas já fechadas, ele vê com preocupação o futuro de bares e clubes ainda impedidos de abrir.

Segundo Alci, só no Ceará, o Sebrae ajudou 22 mil empresas a se adequarem ao ambiente digital, a fim de "vender o mínimo possível para se manterem". Outro ponto observado por Alci é que o serviço de entregas em domicílio se tornou o principal instrumento de vendas de quem permaneceu aberto. "As empresas estão passando por uma mudança de cultura no relacionamento com os clientes. Eles exigem produtos com mais rapidez e com mais qualidade", analisa.

Foi de olho nesse mercado que o empreendedor Ivanildo Júnior passou por uma mudança importante durante a pandemia. Ele precisou paralisar sua banca de variedades, no bairro Cocó, ainda em março, mas decidiu apostar num novo negócio em plena crise, por sugestão do filho. O estoque de bebidas da loja foi transferido para casa. Lá, eles deram início a uma distribuidora de bebidas, com entregas realizadas por meio de plataformas de delivery.

Ao mesmo tempo, Ivanildo investiu numa reforma da banca e ampliou a cartela de produtos ofertados. Desde a reabertura econômica, em junho, ele diz perceber uma movimentação maior até mesmo do que antes do isolamento social. "De uma forma ou outra é difícil, mas é muito mais um lance de estratégia, de ler o mercado e ver onde estão as oportunidades. O delivery aumentou, alimentação aumentou, o happy hour em casa aumentou. A gente se adaptou", garante.

Ele não foi o único a arriscar. Entre março e julho, mais de 31 mil empresas foram abertas no Ceará, de acordo com o Mapa de Empresas. A Jucec aponta que o setor de serviços teve o maior número de registros. Entre os microeempreendedores individuais (MEI), o destaque foi para o comércio varejista de artigos do vestuário e acessórios. Nos demais tipos, as aberturas foram puxadas por serviços de escritório e apoio administrativo.

Também pego de surpresa pelo 'furacão' Covid, Jorge Henrique Cordeiro desativou temporariamente sua açaiteria, no centro de Caucaia, na Região Metropolitana, por duas semanas. A partir da demanda dos próprios clientes, ele aderiu ao delivery, sistema que mantém desde a reabertura do espaço, em julho. "A gente vai aprendendo com os erros e com os feedbacks. Com o delivery, as vendas chegaram a aumentar", revela.

Na leitura de Marcos Renan Magalhães, professor do Departamento de Economia Aplicada da Universidade Federal do Ceará (UFC), "o pior já passou" - ecoando a redução nos índices de contaminação da doença. "O Governo está trabalhando com a liberação de recursos com juros real praticamente zerado para poder estimular a economia e segurar a questão do desemprego, logo os empresários devem manter-se atentos para pleitear crédito mais barato", recomenda.

Para ele, o fechamento de parte das empresas indica "falta de planejamento", conotando que algumas não projetam "caixa suficiente para fazer frente a períodos com choques negativos de demanda".

No entanto, nem toda precaução consegue estancar a redução de vendas. Fernando Ramos, 33, tocava uma pizzaria no bairro Parque Genibaú há dez meses, mas, aos poucos, foi percebendo o movimento cair e o preço dos alimentos "disparar". Foi então que o bico como motoboy começou a sustentar o negócio, incapaz de pagar funcionários e insumos. Há um mês, ele devolveu o espaço.

"Cheguei a pedir dinheiro emprestado para manter a pizzaria. Levei até o extremo, esperando melhora das vendas, mas só veio piora. No atual cenário, se a gente aumentar um real, dois reais, os clientes chiam porque também não têm. Então, larguei com uma dívida de R$ 3,5 mil", lamenta, principalmente ao lembrar dos colaboradores demitidos.

Hoje, Fernando sobrevive e cuida das filhas de nove meses e três anos realizando entregas pela cidade. Mesmo recebendo um valor satisfatório, ele elenca a falta de vínculo empregatício como um dos principais problemas. "Tem estabelecimento que quer que a gente arque com os custos da moto. Outra coisa é que, por exemplo, fiquei doente recente e passei 10 dias em casa; foram 10 dias sem ganhar dinheiro", cita.

Auxílio

Outro fator considerado nas contas da pandemia é o auxílio emergencial de R$ 600 concedido pelo Governo Federal a trabalhadores informais, MEI autônomos e desempregados. De abril até o fim de agosto, conforme balanço da Caixa Econômica Federal (CEF), o Ceará recebeu mais de R$ 9,8 bilhões por meio da medida. No dia 1º de setembro, o Governo Federal anunciou o pagamento de mais quatro parcelas de R$ 300 até o fim deste ano.

Déborah Maia recebeu duas parcelas do benefício, enquanto MEI, que foram empregadas no pagamento de parte do aluguel do brechó literário. Para ela, o valor ajuda, ainda que insuficiente. "Quando penso na gestão do negócio, percebi que preciso estar sempre preparada, juntar a reserva, pensar em formas de se resguardar caso não tenha controle. Para além disso, mais que redobrar a atenção com as redes sociais e ser mais rápida no atendimento, que faz que as pessoas aprendam a dar mais valor", aprende.

Alci Porto, do Sebrae-CE, projeta: o relacionamento com o cliente não engloba apenas o momento da venda, mas a formação de um banco de dados com ofertas "no momento certo". "As empresas passaram a entender que precisam de um relacionamento inteligente com seu cliente. Têm que criar uma convivência, uma fidelização. Isso faz com que ele se aproxime", contribui.

Já Renan Magalhães, da UFC, indica que as empresas devem reavaliar seus custos, separando principalmente o que é "supérfluo". Outra medida pode ser reavaliar as funções do organograma para que a força de trabalho seja melhor utilizada nesse "momento de superação da crise", realocando, quando necessário, os colaboradores em funções diferentes.

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