'Eu não acreditava na seriedade': conheça histórias de quem deixou o negacionismo quanto à Covid-19

Para especialistas, negar os fatos quanto ao coronavírus contribui para a propagação da doença

Escrito por Luana Barros, luana.barros@svm.com.br

Metro
Covid-19
Legenda: O Brasil registrou quase 300 mil mortes por Covid-19 e mais de 12 milhões de casos em um ano de pandemia
Foto: Jeff Pachoud / AFP

Os primeiros casos de pandemia de Covid-19 foram registrados no Brasil há pouco mais de um ano. De lá para cá, são mais de 300 mil mortes e mais de 12 milhões de casos confirmados da doença. Apenas no Ceará, mais de 500 mil pessoas já contraíram a infecção. 

No entanto, mesmo com dados alarmantes, ainda existem alguns que não acreditam na gravidade da situação. Seja por seguir o discurso de figuras públicas que negam os fatos, seja por imaginar que a doença não é tão perigosa - apesar de os dados dizerem o contrário. 

Até poucas semanas atrás, o taxista Silvio Vidal, de 43 anos, era uma dessas pessoas. "Eu sabia que existia, mas não acreditava na seriedade", relata.

Com a diminuição no número de passageiros, ele explica que taxistas têm se concentrado na porta de hospitais e supermercados para conseguir corridas. Apesar dos riscos nos locais, ele lembra que utilizava máscara apenas durante as corridas. "Quando chegava no ponto de apoio, eu retirava". 

Silvio contraiu Covid-19 no final de fevereiro, mas, mesmo com sintomas, demorou a procurar o hospital. "Só fui depois de 11 dias em casa, porque para mim não era nada", explica. 

Ao ser atendido, descobriu que os pulmões estavam comprometidos - chegando a 60%. Dos sete dias que passou internado, em seis precisou de oxigênio. Recebeu alta há uma semana e ainda cumpre isolamento em casa, enquanto se recupera das sequelas da doença.  

"Agora, eu levanto a bandeira para os meus amigos que estão me procurando. A primeira coisa que eu digo é: se cuide", ressalta. "Eu não desejo a ninguém passar por isso. O psicológico abala muito, você vivencia momentos bem difíceis". 

"Pra mim, era uma gripezinha"

O comerciante Rocênio da Penha, de 51 anos, fazia brincadeiras sobre a Covid-19. "Eu dizia: 'eu tô doido para pegar'. Pensava que não pegava", relata. Dono de um depósito de construção, ele diz que não utilizava máscara, por exemplo, mesmo no estabelecimento. 

Rocênio mora no distrito de Sítio Alegre, no município de Morrinhos. Por lá, até poucas semanas atrás, era raro ver pessoas na rua usando máscara. Agora, o cenário mudou: com o aumento de casos, todos usam máscara e seguem as recomendações sanitárias.

O comerciante foi um dos casos confirmados no distrito: há pouco mais de um mês, ele contraiu Covid-19.

"Para mim, era uma gripezinha", afirma. "Mas o negócio não é bom não". 

No mesmo período, uma tia de Rocênio também contraiu a doença. Com 76 anos, ela precisou ser internada, mas não conseguiu um leito de UTI. Infelizmente, não resistiu. 

Rocênio não chegou a ser hospitalizado. Ele fez o tratamento em casa, mas relata que os sintomas o fizeram temer pela própria vida. "Eu tinha muita falta de ar. Até para ir ao banheiro, tomar um banho, faltava o ar (no caminho) e eu precisava parar para voltar o ar", lembra.

Foram 15 dias tendo os sintomas. Recuperado, ele fala que agora segue todos os cuidados recomendados. "Todo mundo tem medo de morrer. (Com Covid) A gente vê a morte de frente", diz. Apesar disso, ele reconhece que, se não tivesse contraído a doença, "talvez tivesse a mesma opinião de antes". 

Sítio Alegre
Legenda: O distrito de Sítio Alegre fica no município cearense Morrinhos - até agora, a cidade registrou 790 casos confirmados

Os riscos do negacionismo

Integrante do Coletivo Rebento - Médicos em Defesa da Vida, da Ciência e do SUS, Liduína Rocha explica os riscos quando parte da população não reconhece a gravidade da pandemia de Covid-19. 

"O contato pessoal é fundamental para que a doença se propague. Quando uma pessoa não toma os cuidados individuais necessários, é exatamente aí que a doença se propaga", afirma. 

Entre os principais cuidados: o uso de máscara, o distanciamento social e o isolamento - quando este é recomendado pela autoridade sanitária. O não cumprimento dessas medidas tem sido a principal dificuldade para a contenção da doença, ressalta. 

"O sistema de saúde está no limite e o volume de pessoas infectadas está cada vez maior. Não tomar os cuidados é o maior propulsor para que haja velocidade de transmissão", argumenta. 

Ela esclarece que nem todas as medidas necessárias para a doença podem ser tomadas individualmente. Questões como a vacinação em massa e o subsídio financeiro para que seja possível que mais pessoas permaneçam em casa, por exemplo, devem partir do Governo. 

Contudo, também do ponto de vista individual, é importante seguir as recomendações. "A gente tem que saber que essa também deve ser uma escolha nossa", ressalta. 

Lockdown
Legenda: Para tentar diminuir o número de casos, decreto estadual determinou lockdown no Ceará desde o dia 13 de março
Foto: Fabiane de Paula/SVM

O que leva a duvidar da gravidade da pandemia

O taxista Silvio Vidal explica que, apesar de colegas terem falecido de Covid-19, ele continuou não tendo os cuidados necessários. "Eu achava que não ia bater na minha porta", afirma. 

Para o comerciante Rocênio da Penha, no entanto, o discurso de autoridades políticas influenciou na maneira como ele lidou com a doença, principalmente o presidente Jair Bolsonaro. "Influenciou demais para eu não levar tão a sério. É o presidente, né?"

O cientista político Cleyton Monte argumenta que, além dos gestores públicos terem a gerência das políticas públicas a serem tomadas diante da crise na saúde, eles também influenciam a população por meio do discurso adotado. 

O pesquisador cita como exemplo dessa influência o incentivo ao uso de medicamentos com eficácia ainda não comprovada no tratamento de Covid-19. "O presidente está falando para um grupo, em torno de 30% do eleitorado brasileiro, que acredita no que o presidente diz", ressalta.

Rodolfo Teófilo e a varíola

Rodolfo Teófilo
Legenda: Rodolfo Teófilo tentou implementar uma campanha de vacinação contra a varíola no início do século XX
Foto: Reprodução

O cientista político lembra outros momentos em que o Poder Público não apoiou inteiramente medidas necessárias na saúde. Um exemplo foi, no início do século XX, quando Rodolfo Teófilo tentou implementar uma campanha de vacinação contra a varíola. Contudo, ele não recebeu o apoio do Governo do Estado e da Prefeitura de Fortaleza, lembra Monte.

Houve ainda a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, em que a população se rebelou contra a imunização anti-varíola.

"A História do Brasil é repleta de casos negacionistas, (principalmente) com a relação a implementação da vacina. Esses grupos sempre existem", argumenta. 

Para Monte, é importante uma unidade para combater discursos negacionistas ou de minimização da gravidade da pandemia. "Está faltando uma ação mais efetiva dos poderes políticos, principalmente do Judiciário e Legislativo", complementa. 

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