Doação de alimentos cai devido à alta dos preços, reclamam entidades que atuam em Fortaleza

Ações solidárias tiveram que ser canceladas. Até ossadas antes doadas semanalmente por frigoríficos para produção de sopa passaram a ser item de venda nas prateleiras, para quem não consegue comprar carnes

Escrito por Melquíades Júnior, melquiades.junior@svm.com.br

Metro
Legenda: Entidades doam alimentos para população em situação de rua em Fortaleza. Alta dos preços tem reduzido as ações
Foto: Foto: Divulgação

O peso maior no bolso que está a compra de alimentos para dentro de casa está refletindo diretamente na menor oferta de ajuda para quem tem fome. Em outras palavras, tudo está tão caro (média geral de 21% de alta em todo o Brasil desde o início da pandemia) que tornou-se mais difícil repartir, e ONGs que atuam recebendo itens alimentícios para produzir marmitas e doar cestas básicas estão vendo as doações minguarem, ainda mais no período com mais pessoas em situação de rua.

Se a alta dos alimentos encareceu a feira no supermercado, para muitas pessoas é praticamente impossível pagar mais. É o jeito comprar menos: cozinhar com margarina em vez de oléo de soja; trocar gás pelo álcool; e até diminuir arroz, feijão e frutas até que se instala um quadro grave de insegurança alimentar - quando não há disponibilidade de alimentos em qualidade e quantidade suficientes.

Essas pessoas mais atingidas pela inflação também são as que mais doam alimentos, dividem o pouco que têm. A situação, no entanto está mais complicada.

"Depois que tudo passou a subir muito de preço, até a gasolina, nosso trabalho voluntário ficou muito prejudicado. As doações estão chegando menos e não estamos conseguindo fazer o trabalho de sempre, tendo que fazer escolhas para o menos pior".
Cristina Silva
Presidente do Instituto Doando Que Se Recebe, em Fortaleza.

A escolha mais recente da entidade foi se pagava água ou luz da sede na Vila Peri. "Durante a nossa entrevista a água era cortada por falta de pagamento".

São os efeitos colaterais de uma ginástica financeira que, apesar da forte queda de doações, tenta manter o trabalho voluntário e social junto às comunidades mais pobres e, em especial, pessoas em situação de rua.

De acordo com o Indice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, nacionalmente os alimentos tiveram uma alta média de 21,39% desde o início da pandemia. Veja os maiores aumentos:

"Toda semana, chova ou faça sol, levamos comida para os irmãos nas ruas. E com a carestia tivemos que escolher. Sábado passado produzimos cestas básicas para as famílias mais vulneráveis, tivemos que colocar manteiga no lugar de óleo. Antes eram dois quilos de feijão, agora só um, pra ver se mesmo assim a cesta básica é feita. Se antes uma cesta custava R$ 28, hoje está a R$ 50", lamenta Cristina.

Outras escolhas precisaram ser feitas pelos frigoríficos que, semanalmente, faziam doações de ossadas de boi e pé/pescoço de frango, o popular "miúdo". Antes doadas às entidades, agora as ossadas são vendidas em lugar da carne e do frango que as pessoas não estão podendo pagar.

"Se as pessoas param de doar, quem está na outra ponta fica no sofrimento", lamenta Cristina.

O instituto Doando Que se Recebe também aceita caixas vazias de leite, que são transformadas em mantas térmicas para as pessoas em situação de rua, seja para o sol ou a frieza da madrugada. 

Ainda na mesma tarde da entrevista em que a água foi cortada, a voluntária recebe a visita de uma mãe e duas crianças. A mulher chega chorando, ensanguentada, com hematomas pelo corpo e com as crianças assustadas. Fugiu da violência do marido e, naquele momento, procurar a ONG foi o primeiro apelo para sobreviver, da maneira mais literal possível.

"A gente atua para ajudar os irmãos necessitados. Tem gente que chega aqui pedindo comiga e, quando não tem doações, não temos comida pra dar", lamenta Cristina.


Ações canceladas

Desde que  as doações ficaram mais escassaz, justificada pelos doadores no encarecimento dos produtos, a ONG Sopão da Gratidão precisou cancelar dois atos sociais em Fortaleza por falta de alimentos para atender grupos mais vulneráveis. Há quatro anos o grupo faz a entrega de sopas para pessoas em situação de rua na Praça do Ferreira, centro de Fortaleza, e em regiões períféricas.

"No momento, está bastante difícil. A gente cancelou duas ações, uma em outrubro e outra em novembro, devido a não chegar doações. Iríamos distribuir marmitas, mas como não tinha uma boa quantidade foi preciso cancelar. Neste mês seria uma macarronada com molho de salsicha refrigerante, suco e água, mas também tivemos que cancelar. Além dos alimentos, o aumento do gás de cozinha prejudicou bastante, e até a gasolina, porque fazemos entrega na nossa combi", explica Sérgio Vitor.

Os voluntários sabem que, com a chegada das chuvas no início do próximo ano, a situação fica mais difícil.

"Aumentou a população em situação de rua em Fortaleza com a pandemia, mas no momento o que vemos é a dificuldade de doações por conta de tudo mais caro. A diferença é que alguma forma nosso trabalho não pode parar. Continuamos acreditando que as doações vão chegar", espera Vitor.

PARA DOAR

Instituto Doando Que Se Recebe
Instagram: @institutodoandoqueserecebe
Cristina Silva: (85) 98897-0084

Sopão da Gratidão
Instagram: @sopaodagratidao
Sérgio Vitor: (85) 99635-3045