Com vacinação avançando, veja como está o cenário da Covid-19 em cada bairro de Fortaleza

Áreas vêm apresentando redução de novos casos e óbitos; alguns territórios chegaram a zerar indicadores desde o último repique de infecções na cidade.

Legenda: Bairros de maior IDH da cidade enfrentam persistência de casos e óbitos, ainda que em menor proporção.
Foto: Natinho Rodrigues
Após uma segunda onda mais longa e grave da Covid-19, com recordes de casos e mais óbitos do que a primeira, Fortaleza agora atravessa um momento de redução na velocidade de contaminação pela doença e queda expressiva no número de novos óbitos. Para especialistas em saúde pública, ambos podem ser reflexo da campanha de vacinação.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), o último repique de casos aconteceu entre os dias 8 e 15 de maio. Desde então, há queda nesse indicador e também no número de mortes. 
 
“Os dados de junho ainda são preliminares, mas sugerem manutenção e acentuação da tendência de declínio de casos e mortes”, ressalta a Pasta.
 
Os dados da plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), comprovam a observação. Ainda em cenário preliminar, junho teve 65% menos casos e 69% menos óbitos na Capital em relação a maio.
 
 
Mesmo com a redução, a SMS não descarta que a retração esteja influenciada, em alguma medida, por atrasos na confirmação de notificações.
 
Cabe ressaltar que ainda estamos em um patamar relativamente elevado de casos, apesar da diminuição consistente e significativa observada desde meados de maio. Por essa razão, considerando as oscilações da média móvel, a incidência deve ser rigorosamente monitorada.
Boletim da SMS
 
Thereza Magalhães, enfermeira, docente e pesquisadora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), reforça que é preciso atingir um patamar alto o suficiente de vacinação para deixar poucas pessoas suscetíveis à doença, além de diminuir o tempo que o vírus teria para gerar mais variantes.
 
 
Segundo a Prefeitura de Fortaleza, até o último domingo (4), mais de 1,2 milhão de pessoas já foram vacinadas com a primeira dose da vacina - há um mês, eram 678 mil. Com a imunização completa, já são 368 mil.
 

REGISTROS POR BAIRRO

A distribuição geográfica de casos da Covid-19 na Capital, em junho, ainda mostra um aglomerado situado nos bairros de alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), como Aldeota e Meireles, assim como outro que abrange pontos do limite do Conjunto Ceará com Caucaia. 
 
Bairros litorâneos da Regional I, no Grande Pirambu, também voltaram a exibir concentração de casos, embora com menor valor absoluto de registros em junho, segundo o boletim.
 
Confira abaixo a situação da Capital por bairro, entre os dias 20 de maio - o boletim seguinte ao último repique de casos - e 1º de julho, data do documento mais recente da SMS. Registros negativos indicam que houve revisão geográfica dos casos ou óbitos e eles retornaram para o bairro correto de origem.
 
 
Em relação aos casos registrados nesse período, os quatro bairros com maior concentração foram:
 
  • Aldeota - 466
  • Meireles - 417
  • Conjunto Ceará I - 398
  • Centro - 370
 
A professora Thereza Magalhães, da Uece, explica que o maior número de casos em bairros mais ricos se relaciona ao fluxo mais intenso para essas áreas, sobretudo por causa de comércios ou negócios.
 
No entanto, conforme os dados, 34 bairros tiveram menos de 50 casos em 40 dias. O Barroso aparece com o mesmo número nas duas edições, ou seja, não teve novos registros. Outras 25 unidades aparecem com números negativos.
 
Quando se avaliam os óbitos no mesmo intervalo, os bairros que lideram são:
 
  • Prefeito José Walter - 25
  • Centro - 24
  • Meireles - 22
  • Vila Velha - 19
 
Dos 121 bairros da Capital, 83 tiveram menos de 10 mortes no período. Outros cinco - Moura Brasil, Cidade 2000, De Lourdes, Praia de Iracema e Jardim Cearense - nem mesmo tiveram novos registros. Apenas três (Sabiaguaba, Monte Castelo e Bom Futuro) têm registros negativos após a revisão geográfica.
 
A SMS percebe que o número de mortes continua decrescente, caracterizando o arrefecimento da segunda onda epidêmica. Atualmente, os aglomerados geográficos são formados por menos óbitos, ainda que a segunda onda, mais longa, já tenha um número maior de mortes do que a primeira. 
 
“Este aumento é particularmente expressivo em alguns bairros de muito alto e alto IDH”, diz a Pasta.

Interações de risco

A SMS considera também que ainda há transmissão comunitária do vírus, mas há limitação de testagem dos casos leves “nas áreas menos favorecidas”.
 
Thereza Magalhães reforça que, neste momento, determinantes sociais de saúde podem interferir diretamente na curva de agravamento e óbitos por Covid, por isso é preciso sensibilizar regiões mais vulneráveis de que a pandemia ainda não acabou. 
 
Controlar a doença desde o princípio é o que faz a pessoa não agravar, mas muitas vezes ela não compreende esse processo, acha que se não sente nada no início é um caso leve. Mas, hoje, sabemos que as complicações começam com a resposta ao vírus a partir da segunda semana. Quando a pessoa percebe, já está grave e fica bem mais difícil de tratar.
 
Para a pesquisadora, parte das contaminações em bairros periféricos, como Pedras e José Walter, se dá pela maior sociabilidade entre vizinhos, já que as residências podem ser coladas e as pessoas se visitam com frequência - inclusive sem o uso de máscaras.
 
“As vacinas têm ajudado, mas o povo também precisa ajudar. A gente sabe que ficar em casa por mais de um ano é difícil, principalmente quando se mora no bairro há muito tempo, mas é questão de segurança. Essa interação funciona como rede de apoio, mas neste momento, também funciona como rede de transmissão”, conclui.
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