Com preparação marcada por desigualdades na pandemia, 320 mil candidatos devem fazer Enem no CE

No Estado, haverá prova em 119 cidades. Hoje, o desafio é garantir respeito às medidas sanitárias. Portões abrirão mais cedo, e o não uso de máscara pode eliminar participante

Legenda: Escolas privadas tiveram melhor estrutura para adequar ensino remoto
Foto: Acervo Pessoal

Originalmente previsto para novembro do ano passado, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 será neste domingo (17) e no próximo, 24 de janeiro, em sua versão impressa, para mais de 320 mil pessoas de todo o Ceará, distribuídas em 119 municípios. Já nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro, em caráter pioneiro, a versão digital será aplicada para 3.112 participantes de apenas três cidades: Fortaleza, Sobral e Quixadá.

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Ao todo, o Ceará contabiliza 322.581 candidatos confirmados na edição, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), organizador da prova. O Estado é o segundo da região Nordeste com mais inscrições, atrás apenas da Bahia, com 444.742. No País, fica na sexta colocação. A novidade é a versão digital, cuja implantação será progressiva, com previsão de consolidação em 2026, conforme o próprio Instituto.

O Inep diz que, devido à Covid-19, a abertura dos portões dos locais de prova será antecipada em 30 minutos. Os participantes poderão entrar a partir das 11h30, no horário de Brasília - até a edição passada, era às 12h. Como medida preventiva, as salas terão ocupação de 50% da capacidade máxima. Além disso, salas especiais, com até 12 candidatos, serão destinadas a pessoas mais vulneráveis à doença, como gestantes, lactantes, idosos e com doenças crônicas.

O perfil predominante de candidatos ao Ensino Superior no Estado é de mulheres (55,8%), pessoas pardas (65,8%), com o Ensino Médio concluído (51,5%) e na faixa etária entre 16 e 20 anos (57%). Quem se encaixa nele é a estudante Samira Alves Ferreira, de 18 anos, uma das 3.308 pessoas que participarão do Enem em Canindé, a 110 km de Fortaleza.

Legenda: Estudantes tiveram de se reinventar na preparação com ensino remoto
Foto: Arquivo Pessoal

Aluna da rede estadual, ela confessa que em 2020, o ano de conclusão da Educação Básica, sentiu uma queda no próprio rendimento devido às aulas exclusivamente remotas, adotadas desde o fim de março. "Foi complicado acompanhar porque, para quem está no último ano, existe uma pressão absurda, e, ao mesmo tempo, não pudemos ir à escola", lembra. Como suporte nos estudos, ela usou apenas a tela limitada do celular.

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Português e matemática podem atrapalhar, revela Samira, mas física, biologia, química e geografia devem ajudar a candidata ao acesso ao curso de Nutrição. Na reta final, ela tenta revisar algumas matérias e controlar a ansiedade. Já planejou que deve sair de casa mais cedo para pegar um ônibus até o local de prova e, lá, manter a calma até receber o caderno de questões.

Preparo

Para auxiliar os alunos, 56 escolas estaduais adotaram atividades presenciais preparatórias para o Enem desde o início de janeiro, de acordo com a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc). A Pasta explica que as ações obedecem aos decretos governamentais vigentes e aos protocolos de segurança sanitária.

O estudante da rede particular de Fortaleza, Bruno Loscio, 18, pleiteia uma vaga no curso de Administração. Ele acredita que a escola privada conseguiu fornecer uma boa estrutura de ensino mesmo a distância, oferecendo, além das aulas regulares, opções extras, simulados e laboratório de redação. Em casa, ele também dedicava horas a responder questões de anos anteriores do Exame.

"Minha expectativa é muito boa porque, apesar de o rendimento não ser o mesmo, a preparação não se resume ao terceiro ano. Foram os três do Ensino Médio e, como eu me empenhei, espero me sair bem", projeta Bruno.

Na reta final, ele diminuiu o ritmo de estudos e pretende se manter bem emocionalmente, sobretudo no primeiro dia, quando acredita que deve se sair melhor.

Se alguns ainda projetam o início da vida acadêmica, outros buscam novas oportunidades. A cabeleireira Marlene Silva, de 36 anos, é uma das 40.849 cearenses na faixa etária de 31 a 59 anos que vai prestar o Enem neste ano. Moradora do Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, ela só começou a estudar aos 14 anos, concluindo o Ensino Médio aos 28, já com duas filhas.

Hoje, ela divide os cuidados de três meninas, do salão de beleza e de uma graduação em Pedagogia em andamento com os estudos para o Exame, por meio de vídeos na internet e de livros da filha mais velha, de 13 anos. Com o resultado da prova, ela pretende conseguir uma bolsa integral numa universidade particular.

"Eu já tentei outras edições e desisti, mas esse é um sonho que eu tinha, muita vontade de estudar. Meus pais são analfabetos, e desde criança eu via outras crianças indo pra escola e pensando que também queria ir. Batalhei muito. Quando não tenho clientes, procuro um tempo e vou estudar", explica Marlene, cuja afinidade maior é com as disciplinas de Ciências Humanas.

Doutora em Educação e professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Maria José Camelo Maciel avalia que o Enem 2020 deve acentuar as diferenças de acesso da rede pública e da privada porque "esse modo seletivo nunca foi fator de promoção de oportunidades, mas de favorecimento de quem tem as melhores".

"Temos jovens sem acesso a equipamentos ou locais de estudo adequados para um exame competitivo assim, mas outros têm. Naturalmente, esse cenário vai fazer com que alunos que se sintam sem preparo, ou inseguros, ou passando por um momento delicado para a saúde mental, não compareçam à prova", observa.

Ao longo desta semana, a reportagem solicitou ao Inep a quantidade de escolas e salas destinadas à aplicação do Enem no Ceará neste ano, bem como o limite de alunos por unidade, mas não teve retorno até o fechamento desta edição. A Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) informou que o Exame deve cumprir as medidas de prevenção descritas em decreto estadual.

Conforme o Inep, o participante que não utilizar a máscara ou não respeitar os protocolos de proteção contra a Covid-19 será eliminado. A retirada da máscara só será permitida para alimentação ou ingestão de líquidos. O candidato diagnosticado com coronavírus ou outra doença contagiosa pode solicitar a reaplicação das provas através do envio de um laudo médico. A reaplicação está programada para os dias 23 e 24 de fevereiro, e a divulgação dos resultados será no dia 29 de março.

Arte Diário do Nordeste

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