Atendimentos nos CAPS caem 29% no período de março a maio

Redução na quantidade de atendimentos das 15 unidades dos CAPS de Fortaleza tem relação com a pandemia. Medo do contágio e suspensão temporária do funcionamento de determinados serviços são apontados como possíveis causas para a queda

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Legenda: A média de atendimentos mensais em um período regular é de 14,5 mil nos seis CAPS Gerais
Foto: JL ROSA

Com a pandemia do novo coronavírus e o isolamento social decretado pelo Governo do Estado, diversos serviços públicos e os usuários sofreram alterações na assistência, entre eles os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Fortaleza. Durante os meses de março a maio, o serviço apresentou queda de 29% nos atendimentos, quando comparado a igual período do ano passado. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), a média de atendimentos mensais em um período regular é de 14,5 mil nos seis CAPS Gerais; 8,5 mil nos sete CAPS Ad e 3,5 mil nos dois Infantis.

Clenilda Andrade, de 40 anos, é usuária do CAPS desde 2011 e foi onde recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar. A comerciante relata as dificuldades que passou com a suspensão do atendimento presencial ao perder duas consultas já marcadas. "Somente disponibilizaram a receita das minhas medicações e isso me prejudicou, pois nada melhor do que uma consulta. Não me senti tão prejudicada porque faço acompanhamento com uma psicóloga de lá e estava fazendo sessões online, o que me ajudou muito".

A estabilidade no tratamento não se reflete, no entanto, na condição do marido de Clenilda, acompanhado pelo serviço específico que atende pacientes com problemas relacionados ao álcool e às drogas, o CAPS Ad. "Está sendo muito difícil para ele sem os atendimentos, pois está em processo de recuperação. Está em um quadro de depressão, na bebedeira, mas consegui psicólogo para ele e estamos tentando levar", conta.

Risco

Para Alex Alencar, enfermeiro no CAPS Ad da Regional IV, localizado no bairro Itaperi, manter o tratamento nesses casos é fundamental para evitar complicações na evolução. "O risco que tem ao abandonar o tratamento é justamente o retorno ao uso da substância, aos sintomas relacionados à ansiedade e transtornos de humor, ou até mesmo a questão do suicídio", explica.

O enfermeiro destaca ainda que o período de isolamento pode acentuar condições de pacientes em tratamento. "Muitas dessas pessoas que estão retornando agora em busca do atendimento vêm com essas queixas que, mesmo com o tratamento medicamentoso, estavam se sentindo muito tristes, muito isolados. Alguns vêm com sintomas de delírio persecutório e até alterações que antes da pandemia estavam sob controle ou mesmo não tinham".

A psicóloga Daiana de Jesus, que presta atendimentos no CAPS Geral da Regional III, no bairro Rodolfo Teófilo, explica que o funcionamento dos centros durante a pandemia segue normal para pacientes em crise ou de demanda espontânea - que buscam o serviço pela 1ª vez. Porém, houve suspensão temporária dos atendimentos em grupo e dos já usuários do serviço.

Com relação aos pacientes em tratamento e do grupo de risco, é realizado o serviço de busca ativa, com acompanhamento via telefone, segundo a psicóloga. "Se a gente percebe que está precisando de atendimento presencial, pedimos para se dirigir ao Centro".

Para o psiquiatra do CAPS Geral da Regional VI em Messejana, Raimundo Araújo, diversos fatores envolvem a redução dos números de atendimentos. "Acredito que o medo do contágio, a desinformação sobre o funcionamento dos centros".

Foto: jl rosa


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