Ataques em missas refletem 'mundo em que o ódio se manifesta de maneira muito clara', diz padre Lino

O padre italiano e membros da Paróquia da Paz têm sido alvo de perseguição por apoiadores de Jair Bolsonaro

Padre Lino Allegri durante entrevista ao Sistema Verdes Mares
Legenda: O religioso afirmou que pretende seguir celebrando missas na Paróquia e classificou as agressões como comentários de "ódio"
Foto: Thiago Gadelha

Alvo de hostilização em missa e nas redes sociais por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o padre Lino Allegri, 82, sacerdote da Paróquia da Paz, em Fortaleza, revela que os ataques criaram tensão na comunidade. Ele relatou nesta terça-feira (20), ao Sistema Verdes Mares, a escalada de agressões.

O primeiro episódio ocorreu em missa do dia 4 de julho, quando oito pessoas hostilizaram o religioso após fala sobre o descaso do Governo Federal com a vacinação e o combate à Covid-19, que matou mais de 500 mil pessoas no País. 

Ataques seguiram pelos dois finais de semana seguinte e se estenderam a todos os ministros e vigários da paróquia.

No dia 11 de julho, um homem foi expulso do local após gritar com padres depois da leitura de nota de apoio ao padre Lino e texto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre a situação política e social do Brasil durante a pandemia.

Em entrevista ao Sistema Verdes Mares nesta terça, padre Lino conta que a celebração do último domingo (18) foi "mais carregada de tensão". Pessoas com camisas indicando apoio a Bolsonaro compareceram em peso. 

"Tudo isso criou uma situação muito tensa. Nas redes sociais a violência verbal é muito pesada. Chamaram o pároco [Oliveira Braga Rodrigues] de nomes baixo calão, desrespeitaram todos os ministros. Isso cria uma situação muito constrangedora na comunidade", desabafa. 

Assim como Lino, o padre Oliveira deve ser inserido no Programa Estadual de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH/CE).

Propagação de ódio 

De acordo com Lino, as constantes perseguições são reflexo de "um mundo em que o ódio se manifesta de maneira muito clara".

Para mim isto é um sinal muito perigoso. Como será em 2022? É o ódio que vai aparecer. Eu acho legítimo que as pessoas pensem diferente. Mas que isso me autorize a usar de violência com o outro? Isso não está certo
Lino Allegri
Padre da Paróquia da Paz

Padre Lino conta que ele e outros sacerdotes, como o padre Oliveira Braga Rodrigues, foram acusados de serem "comunistas, esquerdista e lulistas". 

"Essas pessoas revoltadas chegaram dizendo que eu estava errado e começaram as agressões verbais, falando que eu deveria volta para a Itália, porque aqui não precisavam da gente. Eles gritaram que o presidente era gente boa, honesta e cristão", comenta. 

Na missa do último domingo, dia 18, ainda que padre Lino não estivesse presente, as agressões continuaram. Ele conta que a celebração ocorreu bem, apesar de que uma pessoa pegou o microfone na hora das intenções de oração e pediu para que rezassem "pelo fim da ditadura em Cuba".

"Isso não tem nada a ver, né, mas já criou uma tensão forte. É uma presença muito ostensiva e intimidatória”, comenta o sacerdote italiano, que é coordenador da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de Fortaleza.

Antagonismos 

missa na paróquia da paz
Legenda: Ataques aconteceram em missas na Paróquia da Paz, no bairro Aldeota
Foto: Thiago Gadelha

As hostilizações, conforme o religioso, acontecem pois o cenário atual das igrejas em Fortaleza não permite a propagação de uma "Igreja em saída". O conceito é proveniente da Alegria do Evangelho, primeira carta escrita pelo Papa Francisco.

"O papa Francisco fala em uma 'igreja em saída', que vai ao mundo, e diz que prefere uma igreja que se suja, enlameada porque está no meio do povo, do que uma igreja que morre asfixiada dentro de suas paredes olhando apenas para si mesma e não para o povo", explica Allegri. 

Lino é adepto da Teologia da Libertação, que visa trazer a palavra de Deus sobretudo para pessoas necessitadas e marginalizadas da sociedade. Ele conta que esta corrente não é aceita pelos grupos que o criticam. Em sua maioria, conforme o padre, são pessoas mais ricas, como coronéis reformados e empresários. 

Eu tenho todo o direito de seguir essa teologia, e eles têm direito de ter a deles. O que a gente não aceita é a falta de respeito e a imposição com a violência. Não sofri violência física, mas agressões verbais às vezes doem mais que um tapa na cara.
Lino Allegri
Padre da Paróquia da Paz

Rede de solidariedade

Após a divulgação dos casos de agressão, padre Lino Allegri passou a receber uma corrente de solidariedade de fiéis católicos, grupos e movimentos sociais e autoridades políticas por meio das redes sociais.

Ele e o padre Oliveira Braga Rodrigues, pároco da Paróquia da Paz, que devem ser inseridos no Programa Estadual de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH/CE), participaram de uma reunião nesta segunda-feira (19) sobre a inclusão e foram acolhidos pelo Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência (NUAVV) do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).

Apoio 

Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, o religioso agradece as mensagens de apoio e orações que vem recebendo, avisa que pretende continuar celebrando missas e que não são estes fatos que "vão mudar a minha vida e o meu modo de ser". 

Eu recebi muito mais apoio do que contestação. Tem muita gente da Paróquia da Paz, inclusive da classe média alta, me apoiando. Isso me comove e me dá força. Foi um fato lamentável, mas continuo minha caminhada.
Lino Allegri
Padre da Paróquia da Paz

Padre Lino ainda comentou a atitude do governador Camilo Santana, que determinou à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) o envio de policiais para garantir a integridade do sacerdote, bem como a instauração de inquérito para apurar as ameaças. 

"Ameaçar a vida de outras pessoas, mesmo que seja com palavras, é crime. Eu acho que foi uma atitude positiva, agradeço ao governador. Ele está fazendo o papel dele como responsável pelo Estado do Ceará, de manter a paz e a liberdade das pessoas", afirma. 

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