Rede de solidariedade a Padre Lino cresce após sacerdote ser hostilizado em missa de Fortaleza

Lino Allegri deve entrar em programa de proteção a defensores de direitos humanos devido às ameaças que sofreu oriundas de apoiadores do presidente Bolsonaro

Padre Lino Allegri durante missa
Legenda: No último domingo, o sacerdote celebrou a céu aberto para um grupo de pessoas numa comunidade do bairro Papicu.
Foto: Reprodução/Igreja em Saída

Hostilizado por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro na Paróquia Nossa Senhora da Paz, em Fortaleza, o padre Lino Allegri, 82 anos, tem recebido uma corrente de apoio de fiéis católicos, grupos e movimentos sociais e autoridades políticas por meio das redes sociais.

Padre Júlio Lancelloti

No último domingo (18), na abertura de uma missa transmitida pelas redes sociais, houve manifestação de solidariedade do padre Júlio Lancelloti, conhecido nacionalmente por sua atuação junto às pessoas em situação de rua.

Todos estamos unidos com o padre Lino Allegri em Fortaleza, no Ceará. Estamos com você, meu irmão, na luta pela libertação, pela vida, com esperança. A retórica do ódio tem que ser enfrentada com diálogo e com a ética do amor, o amor que é exigente. O amor não significa frouxidão. O amor é exigência de mudança e de transformação a partir dos pobres, dos fracos e dos pequenos”.

Camilo Santana

Também no domingo, o governador do Ceará, Camilo Santana, considerou “inaceitável” a conduta de intimidação adotada pelos apoiadores do presidente. Além disso, defendeu a proteção do sacerdote.

“Informo que, desde a semana passada, determinei ao nosso secretário da Segurança para não só enviar policiais para garantir a integridade do Padre Lino como instaurar inquérito para apurar qualquer tipo de ameaça contra ele. Não iremos aceitar que atitudes como essa, de ódio e intolerância, fiquem impunes”, escreveu Camilo.

José Sarto e Roberto Cláudio

O prefeito de Fortaleza, José Sarto, também condenou a hostilização e dedicou solidariedade ao padre Lino. “Mais um grave episódio de intolerância e uma afronta aos ensinamentos cristãos”, qualificou.

Ao compartilhar o vídeo de apoio do padre Júlio Lancellotti, o ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, também demonstrou apreço pelo padre Lino. “Deus nos cubra a todos e todas das melhores lições de Jesus Cristo: humildade, tolerância e amor verdadeiro!”, disse.

ADPEC

Padre Lino também recebeu,  nesta segunda-feira (19), o apoio da Associação das Defensoras e Defensores Públicos do Estado do Ceará (ADPEC) que em nota destacou "apoio irrestrito ao Padre Lino Allegri, ressaltando sua profunda solidariedade diante dos atos de intolerância e arbitrariedade, contendo violências verbais, praticados, de forma reiterada, por alguns frequentadores da Paróquia da Paz em eventos religiosos liderados pelo ofendido". 

Segundo a entidade, a atual conjuntura política "passa por uma instabilidade que deve ser enfrentada com solidariedade e espírito democrático". Por isso, a manifestação de apoio, diz a direção da ADPEC no documento, é necessária e relevante. 

Notas de solidariedade ao padre também foram compartilhadas por deputados estaduais e federais cearenses, como Acrísio Sena, Evandro Leitão, Denis Bezerra, Eduardo Bismarck e Renato Roseno.

Abaixo-assinados

O Comitê Estadual de Políticas Públicas para a População em Situação de Rua (Cepop) lançou nota defendendo Lino: “Repudiamos toda violência, intolerância, fundamentalismo e posturas antidemocráticas com frequência ocorridos no Brasil e que carecem de punição e coibição. Que a luta por mais vida e mais dignidade seja semente de um Brasil com mais empatia, solidariedade, fraternidade e justiça social”.

“Força, padre Lino. Não à censura e à tentativa de intimidação”, declarou o Coletivo Rebento - Médicos em Defesa da Vida, da Ciência e do SUS, indignando-se “pela reação de alguns contra alguém que só disse verdades: são mais de 530 mil vítimas fatais de Covid-19, sendo pelo menos 400 mil destas mortes que poderiam ter sido evitadas”.

Nas redes sociais, também circula um abaixo-assinado em apoio ao sacerdote. Até a publicação desta matéria, a iniciativa contava com mais de 5,5 mil assinaturas. 

“Condenamos os insanos e irracionais apoiadores do presidente genocida que, não detendo argumentos para uma discussão civilizada, apelam para a violência como instrumento de intimidação ao estimado e respeitado Pe. Lino Allegri. Saibam que não o amedrontarão e nem a nós”, diz o texto. 

Outro abaixo-assinado, este promovido pelo movimento Igreja em Saída, também já conta com mais de 1,8 mil subscritos. A nota do movimento tem 46 assinaturas, incluindo padres, freis, pastorais, centros e outras entidades.

Um grupo de pessoas no Twitter também está se movimentando para organizar um ato de solidariedade a padre Lino. O tuíte que demarca a intenção de construção do ato já tem 59 curtidas, oito repostagens e pelo menos dez interessados em participar, segundo os comentários. 

Sucessivos ataques

Há três semanas, padre Lino foi atacado verbalmente por um grupo exaltado na sacristia da Paróquia da Paz, no bairro Aldeota, após fazer críticas às mais de 500 mil mortes pelo coronavírus no Brasil e à condução da pandemia pelo governo Bolsonaro. 

No domingo seguinte, 11 de julho, uma missa no mesmo local chegou a ser interrompida, mesmo sem a presença dele. Ontem (18), grupos vestidos com camisas em apoio ao presidente foram à igreja, onde novamente o sacerdote não celebrou.

Padre Lino realizou cerimônia na capela Nossa Senhora das Graças, na comunidade “Trilha do Senhor”, onde recebeu a solidariedade de outros padres, leigos, moradores locais e colegas.

Allegri também deve ingressar no Programa Estadual de Proteção aos Defensores e Defensoras de Direitos Humanos (PPDDH). Ele tem 56 anos de vida sacerdotal e chegou a Fortaleza na década de 1990. Foi pároco no Genibaú, no Tancredo Neves e na Barra do Ceará, além de participar de pastorais sociais, como a do Menor e do Povo da Rua.

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