'Acabei notando tarde', diz mãe de criança diagnosticada com câncer; saiba quais os sinais de alerta

Após perceber alguns sintomas persistentes, Ismária Cristina descobriu que a filha tinha leucemia

Escrito por Lígia Costa, ligia.costa@svm.com.br

Metro
Legenda: Ismária entrou "em choque" quando recebeu o diagnóstico de Yasmin
Foto: Arquivo pessoal

"O doutor disse que [a doença] ainda estava no início, mas acho que eu acabei notando tarde". É assim que a dona de casa Ismária Cristina, 32, responde ao ser perguntada se o diagnóstico da filha, Maria Yasmin, de 5 anos, veio tardiamente. Filha única, a menina foi diagnosticada com Leucemia Linfoide Aguda (LLA) do tipo B, em novembro do ano passado. 

Antes disso, Yasmin - com 4 anos à época - vinha apresentando cansaço e não brincava mais como antes. Falta de apetite, manchas nas pernas e um estado febril persistente no dia a dia também começaram a chamar a atenção da mãe. Após alguns exames de rotina, incluindo um hemograma, viria a inesperada confirmação do câncer.

"Estava tudo alterado. A plaqueta estava baixa, tudo, tava tudo alterado. Aí fui na pediatra e ela pediu outros exames". Desesperada com a possibilidade de Yasmin ter leucemia ou outra doença grave, a mãe se apressou em repetir os exames feitos inicialmente.

"No dia 4 [de novembro] saiu o resultado e confirmou que ela realmente tinha leucemia LLA, tipo B. Eu nunca tinha me internado com ela, foi tudo muito novo. Foi choro e desespero". 

"Alívio" por tratar a doença

Apesar de todo o sofrimento da família, Ismária Cristina diz ter sentido um "alívio" ao receber o diagnóstico rápido da doença porque, somente assim, poderia oferecer à filha um tratamento adequado.

Legenda: Yasmin foi diagnosticada com leucemia aos 4 anos e já foi submetida a sessões de quimioterapia
Foto: Arquivo pessoal

"No mesmo dia [da confirmação da leucemia] ela começou o tratamento. Já terminou a fase das quimioterapias mais pesadas, e agora faz um mês que ela entrou em manutenção do tratamento, vai só uma vez por semana [ao hospital]. Não tem mais doença". Além de receber uma injeção semanal, a pequena também passa por exames a cada 15 dias.

Depois do "choque" e de tudo o que ainda enfrenta, Ismária sugere aos pais e responsáveis, como ela, que não deixem de investigar qualquer sintoma anormal nas crianças em exames de rotina. "Hoje em dia eu vejo que tem muita informação e eu não sabia".

Sinais podem ser facilmente confundidos

Oncohematologista pediátrica e superintendente médica da Associação Peter Pan (APP), Sandra Emília Almeida Prazeres alerta que o câncer infantil avança "de forma muito rápida" e não há como preveni-lo.

Por isso é importante ter atenção a sintomas para, assim, ampliar as chances de cura por meio do diagnóstico precoce e reduzir a necessidade de tratamentos mais agressivos. E isso já é válido desde o primeiro dia de vida da criança.

Como os sinais de um câncer são muito semelhantes às manifestações clínicas de outras doenças benignas da infância, endossa a médica, eles ainda podem ser facilmente confundidos.

"O que vai fazer diferença? É a persistência dos sinais e sintomas. Se a criança ou adolescente vier apresentando quadro de febre, emagrecimento, sonolência por mais de duas a três semanas, e já foram descartadas as doenças benignas da infância, você passa então a pensar na possibilidade de câncer".  

Confira a lista dos principais sintomas (persistentes) associados aos cânceres infantis:

  • Febre;
  • Dor de cabeça;
  • Fadiga/cansaço;
  • Palidez;
  • Vômitos ao acordar ou de madrugada;
  • Manchas roxas pelo corpo;
  • Falta de apetite;
  • Emagrecimento;
  • Sonolência;
  • Dores ósseas;
  • Aparecimento de caroços no pescoço, áreas ósseas e demais partes do corpo.

 

"Durante toda a vida a criança precisa de um acompanhamento médico e os pais precisam estar alertas no que diz respeito ao comportamento da criança. Não só os pais, mas toda a sociedade".   

Diagnóstico precoce foi prejudicado pela pandemia

Devido às restrições impostas pela pandemia e o próprio medo de infecção pelo coronavírus, muitas pessoas evitaram levar crianças para fazer exames de rotina. A queda na procura foi registrada, por exemplo, no Centro Pediátrico do Câncer (CPC) do Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), em Fortaleza.

26
atendimentos foram realizados no CPC/Hias entre março e abril de 2020 - primeiros meses da pandemia no Ceará. Já em igual período deste ano, houve 6 entradas a mais na unidade, totalizando 32.

Com a queda nos atendimentos, pacientes já chegavam ao CPC em "estado bem avançado da doença", rememora a oncohematologista pediátrica, emendando que a "situação se torna ainda mais complexa" para quem vive no interior do Estado, pois há necessidade de transporte, de recursos financeiros para se deslocar.

Avanços

Apesar da piora do ano passado, a médica - que trabalha há 20 anos na área oncológica - garante que o diagnóstico precoce no Ceará já avançou consideravelmente no Estado. 

Nós temos grandes centros, inclusive, o nosso [CPC do Hias] é um centro de referência nacional. Nós trabalhamos praticamente com todas as ferramentas relacionadas ao tratamento do câncer. Hoje, com certeza, estamos em outro patamar"
Sandra Emília Almeida Prazeres
Oncohematologista pediátrica e superintendente médica da Associação Peter Pan

A médica frisa que o Centro Pediátrico do Câncer disponibiliza mais de 100 leitos exclusivos para as crianças. "Em termos de exame mesmo, exames laboratoriais, de imagem, nós estamos bem avançados. Agora, precisamos ainda aumentar o nosso índice de cura que está em torno de 60% a 70%. Em países desenvolvidos já chega a 80%". 

A empresária Carolyne Martins, 28, é testemunha de como o diagnóstico de câncer no Ceará passou por avanço nas últimas décadas. Com apenas 2 anos e oito meses de vida, ela foi diagnosticada com sarcoma botrioide no canal vaginal. A descoberta veio por acaso, após ela cair enquanto brincava e ter um sangramento nas partes íntimas. 

Legenda: Diagnosticada com câncer aos 2 anos, Carolyne Martins notou avanços no diagnóstico da doença no Ceará
Foto: Arquivo pessoal

"Com o tempo, minha mãe percebeu, cuidando de mim e trocando fralda, que tinha algo ali que não era normal e não justificaria a queda. E aí começou a jornada por descobrir meu diagnóstico". 

Segundo Carolyne Martins, ela foi uma das primeiras pacientes do Ceará a ter a confirmação da doença, "muito rara na época". 

A partir de então, foi submetida a um tratamento "feito por analogia". Ou seja, tomando como base tratamentos feitos com outros dois pacientes de São Paulo e do Rio de Janeiro. Sem plano de saúde, a então menina foi acompanhada por médicos do Hospital Albert Sabin.

Eu fiz radioterapia, depois quimio e algumas cirurgias porque ele [sarcoma] se manifesta em forma de tumor. Então passei por várias e várias cirurgias porque o tumor logo crescia novamente"
Carolyne Martins
Empresária

"A questão do diagnóstico demorou muito até que os médicos conseguissem ter o diagnóstico específico. Acredito que demorou em média um ano ou até mais", estima, apontando que recebeu alta do ambulatório já aos 7 anos e meio.

Evento aborda sobre diagnóstico precoce

Visando atualizar os profissionais da área da Saúde e demais interessados sobre o diagnóstico precoce do câncer infantil, a Associação Peter Pan abriu as inscrições para a III Jornada Cearense do Diagnóstico do Câncer Infantil.

O evento será transmitido em formato virtual, por meio do canal da Associação no YouTube, com programação das 9h às 17h30 no próximo sábado (18), reunindo 16 nomes da oncologia pediátrica no País. Aqueles que desejam participar devem fazer um cadastro online.

As inscrições são gratuitas e os participantes que atingirem a nota 7,0 na avaliação pós-evento ainda vão receber um certificado de participação.

"Todas as pessoas, até mesmo os professores quem têm contato com crianças, precisam estar atualizados a respeito do que é o câncer na criança e como você pode, de repente, ajudar a encaminhar uma criança para um centro especializado e para uma avaliação", ressalta Sandra Emília.

"Só através do diagnóstico precoce é que a gente tem condições de dar uma maior possibilidade de cura às crianças e aos adolescente e também de não instituir tratamentos tão intensivos".

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