Suspeitos de ordenar Chacina da Sapiranga falam sobre massacre durante fuga; ouça conversa

A reportagem teve acesso aos áudios obtidos após a prisão de João Ricardo. O segundo mandante, Raí César Silva Araújo, o “Jogador”, foi capturado nesta quarta-feira, no Rio Grande do Norte

Escrito por Emanoela Campelo de Melo, emanoela.campelo@svm.com.br

Segurança
tomada de territorio
Legenda: Os criminosos que participaram da chacina queriam tomar o território do 'Campo do Alecrim' na Sapiranga
Foto: Fabiane de Paula

A prisão de um dos mandantes da Chacina da Sapiranga fez com que a Polícia Civil do Ceará desse um importante passo nas investigações. No celular de João Ricardo Sousa da Silva, o 'Das Facas' foram encontradas conversas reveladoras entre ele e outro suspeito de ordenar a matança. 'Das Facas' e Raí César da Silva Araújo, conhecido como 'Jogador' trocaram áudios pelo Whatsapp instantes após a série de homicídios indicando que sabiam dos detalhes do acontecido e temiam serem presos.

A reportagem do Diário do Nordeste teve acesso em primeira mão a trechos da conversa entre os suspeitos. Para os investigadores, o vínculo entre a dupla demonstra que João mentiu na versão dada em depoimento à Polícia, quando disse que desconhecia o fato de Raí César ser apelidado como 'Jogador', já que no seu celular o contato estava salvo como 'Joga' demonstrando intimidade entre ambos.

As conversas mostram que 'Das Facas' e 'Jogador' tinham conhecimento sobre detalhes do crime. Em determinado momento, há indicativo que eles se arrependem da quantidade de mortes provocadas, já que o verdadeiro alvo da chacina era um homem identificado como 'Rael', aquele que liderava o tráfico na Sapiranga e precisava ser retirado do caminho pelos rivais.

O diálogo ainda indica que 'Das Facas' e ' Jogador' queriam tomar providências sobre quem estava os dedurando, coagindo famílias das vítimas. 

Veja mais trechos:

Das Facas: Ei, to assistindo aqui o jornal, já tá dizendo que foi três bicho preso já da chacina, aí três elementos presos, será se foi o Bilú e o Paulim e outro, hein. o Dú, hein! Que tava carregando os cocos (armas).

Das Facas: Tá embaçado.... E balearam o Mateus, prenderam o pivete, invadiram a casa do Tito lá, mah! Prenderam o Guaiuba. To aqui descabeçado (preocupado) também, tô é emplacando o carro, mah!

Das Facas: Comenta do Filo que tá se arregando (entregando) pros cara tudim

Raí Jogador: F** que tá eu, tu, (Wellington) Bombado e ele né, porque geral foi preso.

Das Facas: Eu to é rodando aqui pra banda da cidade, mah! Só a polícia passando, civil, core (Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais), mô onda, mah! Reservado (da Polícia Militar). Tu é doido! Não sabia que ia embaçar cruel assim não (sic)

João Ricardo, que já respondia a um homicídio, teve a prisão em flagrante convertida em preventiva após passar por audiência de custódia na tarde dessa terça-feira (28). Raí, o “Jogador”, que já possui antecedentes criminais por tráfico de drogas, foi interceptado por equipes da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Civil do Rio Grande do Norte, em  Mossoró.

Após a prisão, os policiais civis do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) já fizeram o recambiamento para o Ceará, onde o preso está à disposição da Justiça. Antes mesmo da prisão, a defesa de Raí deu entrada em pedido de habeas corpus preventivo.

O advogado de Raí alega que a prisão em flagrante de João foi injusta e um abuso de autoridade. Nesta quarta-feira (29), foi decidido em 2º Grau que não é de competência da Corte de Justiça julgar o pedido, assim não conhecendo o HC.

Testemunhas apontam que Raí estava em posse de uma arma de grosso calibre, com aparência de fuzil, na madrugada da chacina na Sapiranga.


13 detidos
Até esta quinta-feira (30), 13 suspeitos foram detidos por envolvimento na chacina. Oito já tiveram as prisões convertidas em preventiva. Dos capturados, quatro são adolescentes.

Quem são os outros presos:

  • Alessandro Vieira da Silva
  • Antônio Gabriel Sousa da Silva
  • Charles Dantas Oliveira
  • Gabriel Sousa Freitas 
  • Mateus Acelino da Silva
  • Mateus Aguiar de Sousa
  • Thiago Farias de Lima

policiais sapiranga
Legenda: Policiamento ostensivo foi reforçado nas horas seguintes ao massacre
Foto: Fabiane de Paula


O QUE MOTIVOU O CRIME

Conforme documentos que a reportagem teve acesso, a Polícia Civil adotou como principal linha de investigação a guerra entre facções rivais, considerando que membros de um grupo são dissidentes do outro, o que não é aceito entre as organizações: "A referida cisão passou a gerar investidas de um grupo contra o outro, sempre com o objetivo de demonstrar força e buscar “tomar” o território ocupado pela facção rival".

Cinco pessoas morreram e pelo menos outras seis ficaram feridas.

O principal alvo da ação era Israel da Silva Andrade. Conforme testemunhas, 'Rael' foi morto porque dominava a região da Sapiranga e precisava ser retirado do caminho por aqueles que estavam prestes a aderir a 'Massa' e formar outro grupo criminoso para traficar drogas no território.

Para os investigadores, está demonstrado que 'Das Facas' ostenta condição de chefe na região Tropa da Fronteira e tem função de organização, ao lado do 'Jogador', as investidas contra integrantes da facção rival, "o que gerou, no caso em questão, a morte de cinco pessoas no “Campo do Alecrim” e na “Fronteira”, ambos pertencentes ao bairro Sapiranga", aponta relatório da PCCE.